|
04/04/2008 |
Até logo Quase três semanas depois do regresso, ainda enfrento uma fase de adaptação. É estranho encarar a rotina casa-trabalho-casa (entre muitos gostosos reencontros com amigos), após um ano vivendo a dolce vita na Ásia.
Estou feliz, mas já sinto falta de ler um livro terça-feira à tarde, passar o dia caminhando sem direção numa cidade nova e tomar café-da-manhã com a melhor amiga que acabei de conhecer.
É difícil avaliar o impacto desse ano sabático na minha vida. Com o tempo, terei clareza sobre o que a viagem me ensinou. Mas tenho uma certeza: tomei a decisão correta. Não me arrependo de ter abdicado do conforto de uma vida estabelecida e circulado um ano pelo mundo.
Em 364 dias, passei por dez países, rodei 28.000 quilômetros e conheci pessoas de mais de cinqüenta nacionalidades. É muita informação para eu absorver de uma vez.
No dia em que voltei de viagem, encontrei no espelho do quarto um texto que traduzia perfeitamente meus sentimentos. Ele havia sido pendurado ali por minha mãe, que o encontrara jogado nas minhas coisas. Trata-se do poema Passagem das Horas, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Com ele, me despeço dessa viagem.
“Trago dentro do meu coração, Como num cofre que não se pode fechar de cheio, Todos os lugares onde estive, Todos os portos a que cheguei, Todas as paisagens que vi (...), sonhando, E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.” |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
02/04/2008 |
Obrigada Antes de me despedir deste blog, quero fazer alguns agradecimentos. Sem o incentivo e a força das pessoas abaixo, não haveria ano sabático, nem Blog de Viagem.
Amiga e editora-chefe de Criativa, a Maria Rita Alonso foi a primeira pessoa a quem contei sobre meus planos de viagem. Além de ter me dado o maior apoio, ela acreditou no blog e viabilizou a idéia. Agradeço à Ritinha e a toda equipe de Criativa, que cuidou do blog e apaziguou os nervos da minha mãe nos períodos em que eu sumia e não dava notícias. Sem o suporte da revista, ninguém leria este post.
A Erika Sallum também estava presente quando contei para a Ritinha meu plano maluco de largar tudo para passar um ano na Ásia. Ninguém ficou tão entusiasmado quanto ela. Nos meus momentos de fraqueza antes, durante e depois do périplo, a Erika sempre teve a palavra certa para me dar a força que eu precisava. Jornalista feríssima, ela está dando show no seu blog sobre direitos humanos.
Viajante experiente, o fotógrafo Alexandre Schneider me ajudou a calcular gastos, fez a lista de objetos que não poderiam faltar na mochila e deu dicas de lugares para visitar. Foi o Alê que me falou pela primeira vez sobre os "anjos" das viagens. "Não tenha medo dos perrengues. Quando você mais precisar, vai pintar um anjo para te ajudar", disse. E eles apareceram mesmo.
A propósito dos anjos, o primeiro surgiu antes de eu embarcar. Numa comunidade do Orkut, conheci o César Pires, que passou dez meses pedalando na Ásia. Na maior boa vontade do mundo, o cara respondia em e-mails longuíssimos as dúvidas mais elementares: "que vacinas preciso tomar? É necessário tirar visto? Como você se comunicava?" Hoje, também sou referência para futuros viajantes, mas nunca fui atenciosa como o César com os futuros viajantes que pipocam no meu Orkut. Estou em falta com a comunidade.
O jornalista Fabio Schivartche, que também fez um sabático na Ásia anos atrás, arrumou tempo na atribulada agenda para me encontrar numa happy hour, prestes a ser papai. Ele me botou pilha para eu fazer o circuito de Annapurna, no Nepal, e uma ponta como figurante em Bollywood, na Índia. Depois de conversar com o Xivas, como ele é chamado, tive certeza de que não me arrependeria. A viagem só poderia tornar minha vida mais especial.
Eu não sabia nada sobre blog (como se agora eu soubesse...) até começar a escrever um. Antes e durante o processo, contei com a ajuda preciosa do jornalista Alexandre Inagaki, embaixador da blogosfera brasileira. Colega dos tempos de faculdade, o Ina sugeriu que eu me inspirasse nos excelentes Viaje na Viagem e Uma Malla pelo Mundo. Após uma leitura crítica do Blog de Viagem, ele deu pitacos no tom do texto, no layout da página e na qualidade das fotos publicadas. O cara manja.
Ainda na seara do blog, faço questão de lembrar o incentivo da amiga Nana Caetano. Então colega de Vejinha (hoje, poderosa editora da Vogue), a Nana sentiu minha apreensão na hora de criar o blog. "Você tem de fazer!", insistiu. Para garantir que eu não deixasse de contar na web minhas andanças, ela chegou a sentar no computador e desenhar um modelo – abandonado após a criação desta página. Que bom que ela insistiu, né?
Não teria graça escrever se ninguém acompanhasse. Cuidar do Blog de Viagem foi um dos meus maiores prazeres no último ano. O reconhecimento máximo era ler o comentário dos leitores do blog, que apoiaram, discordaram e se divertiram com meus relatos. Como vibrei com cada recado! É uma felicidade imensa conversar on-line com amigos do passado ou pessoas que só conheço virtualmente. Que gostoso reconhecer o nome de um novo leitor, ou daqueles que chegaram e não me deixaram mais. De coração, obrigada a todos vocês.
Sabem essas fotos que tantas pessoas elogiaram? Eu não teria clicado nenhuma sem a consultoria do diretor de fotografia Maurício Tibiriçá. Ele passou uma tarde comigo na Fnac e me ajudou a escolher a câmera certa, algo entre a Xeretinha e a profissa. Deu dicas de lojas, preços e marcas. Só preciso aprender a fotografar com o olhar refinado dele.
Antes de voar para a Tailândia, passei onze dias em Londres. Foi lá que cuidei dos seguros, reservei passagens aéreas e fiz as últimas compras para a viagem. Quando cheguei, meu irmão Bruno, que mora na capital inglesa, tinha deixado tudo engatilhado. Além de cuidar de pequenos grandes detalhes para mim, ele deu o apoio emocional que eu precisava antes de embarcar para uma aventura no continente que eu desconhecia.
Se eu citar todo mundo que deu palavras de incentivo, a lista será imensa – e eu corro o risco de esquecer alguém. Mas tenho de mencionar os amigos queridos, que seguraram o rojão às vésperas da minha ida e ao longo da jornada. Quando a coisa ficava preta, era o socorro deles que eu pedia (Não dos meus pais. Afinal, não queria deixá-los mais preocupados). Nunca fiquei na mão. Ao voltar, mais de dez pessoas ofereceram abrigo para mim, uma sem-teto. Como é bom ter amigos.
Longe do aconchego do lar e da proteção das pessoas queridas, eu ficaria largada pelo mundo? Nada disso. Milhares de almas cruzaram meus caminhos pela Ásia. Algumas por breves instantes, o suficiente para dizer uma frase que mudaria minha maneira de encarar a vida. Outras permaneceram mais tempo – essas sonho reencontrar na Ásia, no Brasil, na Europa ou em qualquer esquina do planeta. Os amigos que fiz na viagem são a bagagem mais valiosa que eu trouxe. Sem eles, minha viagem não teria sido tão colorida.
Não sei como agradecer pai e mãe. Meu pai, Rogério, é co-responsável pelo meu sabático. Suas andanças pela África nos anos 70 povoaram meu imaginário e me atiçaram a, um dia, fazer algo semelhante. Já minha mãe, Élide, deu o suporte que só mãe sabe dar. Enquanto estive fora, ela cuidou das burocracias e das minúcias cotidianas – quando cheguei, minhas roupas estavam limpinhas, lavadas e passadas, penduradas em cabines. Quem acompanha o blog sabe quão coruja meus pais são. Os dois não perderam um post e foram meus leitores mais assíduos. Amo vocês. |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
31/03/2008 |
O casamento da minha melhor amiga
Sempre quis que meu ano sabático terminasse com estilo. Afinal, o último dia de uma longa viagem é tão marcante quanto o primeiro. Ou mais. Embora eu não pudesse prever o futuro, eu podia mentalizar um final bem emocionante, seja ele qual fosse. Eu acredito que as coisas acontecem quando a gente bota fé. E meu pedido foi realizado.
A três semanas do meu regresso ao Brasil, soube que a Paula, uma das minhas melhores amigas, que mora em Londres, se casaria no dia 8 de março. Não podia ser verdade: ela subiria no altar um dia antes de eu embarcar no avião rumo a São Paulo. Avoada que só, ela não fazia a menor idéia de que eu estaria na Inglaterra no período. Foi conspiração do universo, Deus, não sei. Mas coincidência não foi. Ponto final.

Conheci a Paula, paulista de Guaiçara, em 1996. Tínhamos 16 anos e fazíamos intercâmbio na Califórnia, nos Estados Unidos. Desde então, a amo como uma irmã. Explodi de felicidade quando soube que estaria presente na tarde em que ela trocaria alianças com o Andy, seu namorado inglês. Ela também pulou de alegria. Eu seria a única chapa das antigas a testemunhar o grande dia.

Outra das minhas melhores amigas, a Sabrina, que mora em Barcelona, pegaria um avião só para passar aquele fim de semana comigo. A Sá eu conheço de Mogi das Cruzes, desde os 13, 14 anos. No último dia da viagem, eu teria a companhia de duas das minhas amizades mais longevas. Além delas, o Bruno, meu irmão que mora em Londres, estaria com a gente. Minha felicidade era completa.
O casório aconteceu numa tarde de sábado em Oxford, cidade natal do noivo. E sabem onde foi a cerimônia? Lá mesmo, na Universidade de Oxford. O povo não é fraco, não.

Cerca de 120 convidados assistiram à celebração civil – não houve ritual religioso –, promovida no local da festa. Após ser declarado marido e mulher, o casal desceu uma escadaria, onde foi alvo de uma chuva de bolhas de sabão.

No mesmo salão lindo que abrigou a troca de alianças foi servido o jantar. Meu irmão Bruno faz graça no local.

Depois de todo mundo comer, o noivo, o pai do noivo e o padrinho fizeram discursos. O Andy se acabou em lágrimas na sua vez. Foi comovente. Houve a tradicional dança dos noivos (sem valsa, porém), que emendou numa baladinha.
No passado, quando eu sonhava com o final da viagem, jamais pensava numa festa de casamento. Mas foi ma-ra-vi-lho-so! Após um ano all by myself, lembrei como é bom estar cercado de pessoas queridas que fazem parte da nossa história, pessoas que a gente ama e que nos amam também.
*
Vou contar mais sobre o casamento da Paula e do Andy na edição especial de Criativa Noivas, que edito. Nas bancas em maio ;-) |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
28/03/2008 |
O reencontro Tem gente que passa uma borracha nos amores do passado e reescreve uma nova história na maior, sem rodeios. Nem sempre consigo. O Chris foi um desses enroscos (para quem não acompanhou a novela, escrevi um post sobre o moço no dia 15 de fevereiro). Embora nosso romance tenha durado apenas dezesseis dias, ele atormentou minha cabeça por uns três meses.
Aí, passou. O Chris e eu viramos bons amigos e mantivemos contato por e-mail. Como ele mora em Londres – apesar de ser neozelandês –, era inevitável que nos encontrássemos por lá. Assim foi. Numa tarde de quinta-feira, ele tirou folga do banco onde trabalha para me ver. Marcamos encontro ao meio-dia, na entrada principal do British Museum

Havíamos nos despedido dez meses antes, na pousada onde nos hospedamos, em Phnom Penh, capital do Camboja. Naquele dia, ele ia para o Laos. Eu, para o Vietnã. Em Londres, procurei não alimentar expectativas para o reencontro, mas um pouco de ansiedade eu não podia conter. O Chris despontou na escadaria do museu com vinte e poucos minutos de atraso. Mais nervoso que eu, ele gesticulava e se movia sem parar.
Num par de horas, estávamos relaxados e cheios de intimidade. Como sempre, o Chris me fez morrer de rir com seu humor ácido. Depois de passearmos mais de uma hora no British Museum – praticamente sem contemplar obra nenhuma, só papeando sobre a vida –, fomos almoçar na esquina abaixo, em Covent Garden.

Eu pensava que meus sentimentos por ele estavam mortos e enterrados nas ruínas de Angkor Wat. Tolinha. Eu continuava caidinha pelo Chris. E ele por mim.
A caminho da Oxford Street, onde tomamos um café numa livraria, nos declaramos. Era impossível tentar esconder os sentimentos. Falamos abertamente sobre o assunto, mas chegamos à amarga conclusão de que nada poderia ser feito. Ele continua com a namorada de seis, bom, a essas alturas sete anos.
Na escada rolante do metrô, demos abraços. Nada mais. Não quero homem compromissado. E o Chris não quer ser canalha, nem comigo, nem com ela. Do fundo do coração, desejo a ele e à namorada toda a felicidade do mundo. Acabou. |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
26/03/2008 |
E não é que a Unicard resolveu? Na semana passada, para quem não leu o post, contei que meu MasterCard sumiu em Londres. Foi furtado ou eu perdi, não sei. Quando percebi, no dia seguinte, já tinham feito doze compras em meu nome. A Unicard ficou de investigar o caso e dar uma resposta hoje.
Os caras resolveram e não terei de pagar a conta. Belezinha, não?
Eu estava apreensiva. Várias pessoas me contaram histórias da mãe, da tia e do vizinho que tiveram a maior dor cabeça em casos semelhantes.
Como a gente tem mania de só escrever para reclamar, tive vontade de postar sobre a boa notícia :-) |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
21/03/2008 |
Na mesa do chef-celebridade Já ouviram falar do Jamie Oliver? O cara, que publica livros e tem programa de TV, é o chef-celebridade do momento na Inglaterra – quiçá no mundo. Numa comparação paulistana, ele é tipo uma mistura de Alex Atala com Olivier Anquier. Em escala muito maior, é claro. O britânico tem dois restaurantes na Inglaterra, mais um na Holanda e outro na Austrália.

Numa típica manhã cinzenta em Londres, fui ao Fifteen, nome do restaurante, tomar café-da-manhã. Eu temia que o ambiente fosse metido a besta, como tantas vezes acontece em casas de cozinheiros estrelados. Que nada. O lugar é chique e descontraído ao mesmo tempo, a começar pela decoração.

Meu amigo Rodrigo Brancatelli e eu bebemos cappuccinos e comemos croissants, ovos, cogumelos e musli (foto abaixo). Os pratos, frescos e deliciosos, tinham uma caprichada apresentação. Ao me ver clicar cada iguaria, o Brancatelli brincou:
- É isso que dá. Come pasto durante um ano e agora tira foto até de cereal.
A companhia do meu amigão, aliás, deu um toque especial à visita ao Fifteen. O Branca, como o chamamos, estava em Londres por coincidência, durante suas merecidas férias do Estadão.

|
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
20/03/2008 |
De molho na Páscoa Meus amigos de Londres e de São Paulo comentaram que cheguei bem calminha do sabático. E é verdade. Antes de ir, eu era acelerada. Agora, falo menos e mais baixo. Tenho mais auto-controle e não reajo tanto. Aprendi também a caminhar mais devagar.
Mal voltei e já notei as primeiras mudanças. Esses dias, percebi que estava quase andando em ritmo de marcha atlética outra vez. “Opa!”, pensei. “Tenho de me controlar para não ligar no 220.” Botei na cabeça que precisava deixar de andar rápido.
Pois bem. Quarta-feira à noite, ao chegar em casa após o evento de lançamento de Época São Paulo (onde tive uma conversa agradabilíssima com os blogueiros Alexandre Inagaki, amigo dos tempos de faculdade, Edney Souza e Tiago Dória, dei uma topada no sofá. A sala estava escura e eu não enxerguei o bendito. A dor foi tão violenta que o vizinho de cinco andares para cima deve ter escutado meu grito.
Ao acordar ontem com o dedo inchado e roxo, liguei para a ortopedista Tatiana Batalha, amiga desde a adolescência, em Mogi das Cruzes. A Tati pediu um raio-x, que diagnosticou o que eu temia: fratura. Quebrei a falange do terceiro dedo do pé esquerdo.
Agora, querendo ou não, terei de caminhar bem devagarzinho durante um mês. Vocês acham coincidência? Eu não. |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
18/03/2008 |
A primeira roubada da viagem

Meu cartão de crédito sumiu em Londres. Perdi ou furtaram, acho que no metrô. Quando percebi, um dia depois, liguei para o banco imediatamente. Descobri que tinham usado meu cartão doze vezes, na rede de supermercados Tesco. O atendente da Unicard me informou que a primeira compra foi de 9,96 dólares. A segunda, de 200 dólares. A terceira, de 400 e não-sei-quantos dólares.
Nem quis ouvir o resto. Fiquei louca da vida. Segui instruções do banco e passei um fax no mesmo dia, dizendo que não reconhecia aquelas compras. Me disseram, que, se ficar constatado que realmente não fui eu, o valor será estornado.
Liguei hoje no banco, para saber como andava esta história, e descobri que o protocolo não foi aberto. Tive de fazer toda a burocracia outra vez. Deus, dai-me paciência...
Em mais de onze meses na Ásia, nada aconteceu comigo. Um amigo canadense esqueceu a carteira com passaporte, 400 dólares em cash e cartão de crédito no cinema, em Mumbai, Índia. Quando voltou para buscar, sua carteira estava guardadinha, com tudo dentro. Era comum ouvir casos assim na viagem. Histórias de furto e roubo foram raríssimas.
Meu raciocínio é simplista, mas tem alguma coisa errada nas sociedades ocidentais, não? |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
14/03/2008 |
Café em Notting Hill
Cheguei a mil por hora. Mal revi os amigos e familiares e já peguei no batente. A convite da Maria Rita Alonso, editora-chefe de Criativa, vou tocar a edição especial de noivas, que a revista publica em maio. Foi ótimo aterrissar no Brasil e logo fincar os dois pés no chão. Conheço uma porção de gente na Editora Globo e tem sido um prazer imenso rever tantos rostinhos conhecidos.
Enquanto mergulho no universo dos véus e buquês, contarei no blog o que rolou na Inglaterra. Tenho histórias apetitosas, de um casamento na Universidade de Oxford ao reencontro com o Chris, o neozelandês que foi meu “namorado” no Camboja.
Hoje, vou falar da tarde que passei com o David, o escocês de 77 anos que virou meu amigo em Udaipur, na Índia. Além da casa histórica na Índia – post de 23 de janeiro –, o David tem um charmosíssimo apartamento em Londres, no bairro de Notting Hill (é, aquele do filme da Julia Roberts e do Hugh Grant).

Bati perna por Notting Hill na primeira vez que fui a Londres, em 2006. Morri de curiosidade de entrar numa daquelas casas. De fora, elas eram puro glamour. Como seriam por dentro?
Matei a vontade desta vez. Numa ensolarada e gelada (a-do-ro essa combinação climática) tarde de sábado, fiz uma visita ao meu amigo. Ele estava elegante, como sempre, com uma camisa branca bem cortada e calça marrom de veludo cotelê. Logo que entrei, ele comentou, sobre o tamanho da sala:
- Não falei que não dava para pegar um gato pelo rabo e girar no ar?

A recepção foi cinematográfica. Com a lareira acesa, o living estava quentinho e aconchegante – me livrei do casacão, das luvas e do cachecol. Da caixa de som saía Somewhere Over the Rainbow. Encantada com o bom gosto da decoração, saquei a Xeretinha e cliquei cada canto. “Meu Deus, até da xícara de café ela tira foto...”, brincou o David.

A sala é pititica mesmo, mas, com o truque dos espelhos, não fica sufocante.

As viagens do David estão impressas nos detalhes da decoração, como na coleção de elefantes indianos...

...e no altar com imagens católicas, budistas e hinduístas.

Dois anos atrás, no meu passeio turistão pelas ruas de Notting Hill, nem na melhor das fotografias eu poderia imaginar uma tarde tão gostosa dentro de um daqueles apartamentos. |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
13/03/2008 |
Cheguei ao Brasil Exatamente um ano depois de partir, voltei para o Brasil. Desembarquei no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, essa semana. Ao acordar na casa da minha mãe, no primeiro dia, nem sabia onde estava. Por um momento, me senti em Delhi, na Índia. A verdade é que eu estava assustada com o retorno. Nesse ano sabático, não tive um único dia igual ao outro. Passei por dez países e rodei mais de 28.000 quilômetros por terra, entre trechos de ônibus, trem, carro e a pé. Sabem o que é isso? A distância do Alasca, nos Estados Unidos, a Ushuaia, na Argentina – extremidades do continente americano –, é de 17.848 quilômetros. Se eu somar os trechos que voei na Ásia, é como se eu tivesse percorrido a América de ponta a ponta duas vezes. Depois de um ano tão intenso, como poderia me acostumar à monotonia da rotina? Não parei para pensar sobre isso durante a viagem. Minha ficha só começou a cair quando o comandante da British Airways anunciou que iríamos iniciar os procedimentos de pouso. Não tinha mais jeito. Era o fim do meu ano sabático.
 Nem deu tempo de me lamentar. Fiquei feliz logo que pisei para fora da aeronave e senti a brisa quente e úmida do verão. Tirei todos os casacos e agradeci aos céus por estar longe do inverno europeu – e das tempestades que inundaram a Inglaterra. O clima é um dos aspectos que mais gosto do nosso país. Outro é o povo. Como é bom estar fazer parte de uma gente informal e quente. Nas minhas andanças pelo mundo, jamais encontrei pessoas tão amigáveis quanto as brasileiras. No aeroporto, meu primeiro contato foi com o agente da Polícia Federal. Todo mundo já tinha passado e ele teve de vir especialmente para checar meu passaporte.Quando pedi desculpas pelo atraso, ele respondeu: - Relaxa, cê tá em casa. A expressão nunca coube tão bem. O moço nem imagina como suas palavras aqueceram meu coração desorientado.
Querem saber? É bom demais estar de volta. |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
10/03/2008 |
De volta ao ocidente

Depois de onze meses e cinco dias na Ásia, regressei ao mundo ocidental. Estava em Londres, na Inglaterra, onde passei poucos dias antes de voltar ao Brasil. Minha cabeça ainda sofre com o choque cultural. São várias coisas: clima, comida, etiqueta, vestuário, língua, moeda (maldita libra; saudade da baratinha rupia indiana), ritmo de vida etc. Acima de tudo, o que me impressionou foi o astral das pessoas. Na minha viagem derradeira na Índia, enfrentei uma multidão pior que do carnaval de Salvador. Havia um festival religioso na cidade para onde eu me dirigia e o trem estava abarrotado. O vagão ficou tão cheio que não havia espaço para meus pés no chão. Comecei a levitar, pisando em sacolas e nos pés de outras pessoas. Se lá fora o termômetro marcava uns 33 graus, dentro devia beirar os 40. Consegui puxar minha câmera e fazer umas fotos da muvuca.

Sabem o que foi mais impressionante? Apesar das condições adversas, ninguém perdeu o bom humor, deu um grito ou um empurrão. As pessoas ainda adoraram que tirei fotos. Minha câmera passou de mão em mão pro povo conferir os cliques. Agora, por que no metrô de Londres, sem aperto, barulho e calor, o povo tem de ficar com a cara amarrada? |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
05/03/2008 |
Adeus, Ásia Na minha última viagem na Índia, esperei o trem numa área reservada para mulheres. Na sala, havia sete pessoas, das quais uma senhora que cochilava deitada numa mesa, uma moça que lia um livro e cinco adolescentes que tiveram siricutico ao me ver. Eu nem tinha tirado a mochila das costas quando as meninas, entre risadinhas e cochichos, sinalizaram para eu me aproximar. Sentei no meio delas e comecei a conversar. Eufóricas como se estivessem diante da estrela de Bollywood, elas me cobriram de perguntas:
- Por que você tem tanta pinta no braço?
- Você não gosta de acessórios dourados?
- No que você trabalha?
- Como assim você não é casada aos 29 anos?
- Cadê sua família?
As estudantes de 17 e 18 anos ouviram com curiosidade as histórias da viagem e viram as centenas de fotos armazenadas na memória da minha câmera digital. Ficaram particularmente fascinadas com os palácios de Udaipur, as montanhas do Himalaia e o Taj Mahal. Não deram bola para o mar azul-Photoshop das Maldivas, porém.

Elas quiseram tirar fotos ao meu lado e indagaram de onde eram minhas roupas (blusa do Camboja e saia da Tailândia). "You are very handsome", disse a de túnica amarela e lenço vermelho. "Beautiful", corrigiu a segunda da direita para a esquerda. No calor de 33 graus, desfiz o rabo-de-cavalo e elas elogiaram. Indiana gosta de cabelo solto. "Está muito quente", comentei. A de blusa vermelha e lenço estampado, líder da turma e dona do melhor inglês, me fez uma trança.
"Canta uma música?", pediram. "Uma música?! Ai, sou desafinada...", me esquivei. "Só um pouquinho, por favor!", imploraram. Não tinha como negar um pedido tão singelo. Cantei a primeira canção que me veio à cabeça, um trecho do "Samba da Bênção", de Vinicius de Moraes. "É melhor ser alegre que ser triste/ Alegria é a melhor coisa que existe..." As cinco sorriram, entusiasmadas. Na vez delas, a de lenço cor-de-rosa, mais tímida da trupe, soltou a voz feito profissional. Lindo.
Uma meia hora depois, quando o trem se aproximava da plataforma, a de laranja, no canto direito, me disse: "I love you very much". Paralisada com a inocência da frase, fiquei segundos em silêncio. É claro que há uma barreira linguística e a garota provavelmente desconhece o contexto adequado das palavras. De qualquer forma, ela quis expressar seu afeto e o fez da melhor maneira que encontrou.
Não me lembro de ter conhecido jovens tão doces na Europa ou na América. Embora não conviva muito com crianças, pelo que eu saiba pré-adolescentes no Brasil têm mais malícia que essas garotas. A Ásia, não só a Índia, conserva um ar de ingenuidade. Num certo ponto, até a China endureceu sem perder a ternura. Me lembro de caminhar pelas ruas de Pequim de mãos dadas com a Fay, amiga chinesa de quem mooorro de saudade.

Inocência foi uma das primeiras características que notei nos asiáticos, ainda na Tailândia. Durante meses, dividi com estrangeiros comentários a respeito, às vezes em tom de chacota. Devagarzinho, no entanto, aprendi a respeitar esse traço tão marcante do continente. Hoje, posso dizer que delicadeza é uma das principais lições que aprendi na Ásia. Na estação de trem, a adolescente indiana era a personificação dessa palavra. Com sinceridade, olhei nos olhos dela e respondi: "I love you too". |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
03/03/2008 |
Decepção com a medicina ayurvédica
De volta à Índia, após uma semana de rainha nas Maldivas, decidi usar meus últimos dias para me tratar numa clínica ayurvédica, medicina tradicional do país. Kerala, estado onde estou, é o berço da ciência. Por estas bandas, existem dezenas de hospitais e resorts voltados para a clientela estrangeira. Escolhi o Nagarjuna porque o Yuri, amigo canadense, tinha ouvido ótimos comentários a respeito. Eu passaria uma semana ali, numa rotina de meditação, ioga, massagem, dieta adequada e tratamentos como o shirodhara, que pinga cinco litros de óleo na testa do paciente num intervalo de 25 minutos. Teria sido lindo e maravilhoso se o hospital não ficasse a 13 quilômetros de um aeroporto internacional, na linha da pista de pouso. De madrugada, o primeiro avião passou às 2h30. Acordei com o coração disparado, sem saber o que acontecia. Parecia que o monstro voava a dez metros da minha cabeça. O Yuri contou doze aeronaves até as 8h da manhã. Consegui dormir umas duas horas, enquanto o coitado não pregou o olho. Qual é o propósito de se submeter a um tratamento médico sem repousar? Fizemos as malas e partimos na manhã seguinte. Seguimos para Varkala, cidade praiana onde há uma clínica ao lado da outra, mas não encontramos o que esperávamos. Os centros que não cobravam preços exorbitantes (120 reais por uma massagem no pé), pareciam picaretas. Dois indianos que se diziam médicos me receitaram cinco sessões de massagem e cinco de shirodhara, antes de fazer uma única pergunta sobre minha saúde. Uma outra fulana fez uma consulta melhorzinha, mas que constatou o óbvio. Quando perguntei se havia alguma recomendação de dieta, ela disse: "Você tem de comer arroz no almoço. No jantar pode ser pão e, no café-da-manhã, cereais. Mas no almoço, tem de ser arroz". Francamente... Um quarto médico afirmou que minha alimentação deve se restringir a legumes cozidos, algumas frutas e arroz. Sal, temperos, cebola, alho, carne, álcool, açúcar e óleos são completamente proibidos. Jesus, quem merece essa vida? Foi uma pena eu não ter sido feliz nas escolhas. O lance é que na Índia tem muito pilantra tirando proveito dos gringos que vêm atrás de tudo que carrega a aura "alternativa". É preciso peneirar bem. Há episódios clássicos de pretensos gurus que levam jovens estrangeiras para a cama e massagistas que massageiam onde não devem. Enquanto eu ria dos médicos de quinta categoria, um israelense me contou sobre um astrólogo charlatão de Varanasi que o mandou tomar suco de maçã todo café-da-manhã, para prevenir doenças. A recomendação para o futuro profissional do viajante foi a seguinte: "Abre uma lojinha de... colar!", disse o cara, enquanto apontava o acessório de sementes que o menino exibia no pescoço. Uma das lições que aprendi nesta viagem é não dar murro em ponto de faca. Sou persistente e vou atrás do que quero, mas até certo limite. Se não está rolando, procuro outro caminho. Depois de me consultar com cinco profissionais e não sentir confiança em nenhum, desisti. Há médicos ayurvédicos competentes mundo afora, oxalá algum no Brasil. Se alguém conhecer um bom, please, faça propaganda dele aqui. |
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
28/02/2008 |
Um pouquinho mais de Oceano Índico

Sonho de tudo quanto é mergulhador, as Maldivas recebem cerca de 500.000 visitantes por ano. Tive a sorte de ser um deles em 2008. Durante uma semana fiz dezesseis mergulhos. A temporada de dezembro a abril, sem chuva, é considerada a melhor para explorar o fundo do mar. Para falar a verdade, a visibilidade não estava tão incrível. Era, em média, de 15 metros. Nas ilhas Similan, na Tailândia, em abril passado, tínhamos 30 metros. Mas tudo bem. A vida marinha que encontrei nas Maldivas era ainda mais impressionante.

Estava ansiosa no primeiro mergulho. Nem sabia mais como vestir o equipamento. Minutos depois de cair na água, quando ainda tentava lembrar as regras básicas e coordenar o movimento estabanado, vi um tubarão de 1,5 metro. O primeiro tubarão a gente esquece. O bicho deu as caras uns segundos e logo sumiu, num tiro. Fiquei excitada e com uma pontinha de medo. Daí para frente, me acostumaria. Encontrei mais de vinte deles, inclusive dois tubarões-baleia. Yes! Perdi o maior peixe dos mares na Tailândia, mas fiquei frente a frente com ele nas Maldivas. Parece pequeno na foto, né? A criança tem mais de 5 metros. O outro tinha uns 8 metros.

Vi uma dúzia de moréias de variedades diversas e uma dúzia de tartarugas. Contei oito arraias, inclusive uma jamanta de 3 metros. Tinha peixe de tudo quanto era espécie, cor e tamanho. Meu preferido é este escorpião, que se camufla e tem cara de gente. Sensacional.

Houve vários highlights, mas candidato ao topo da lista está o dia em que nadei com duas famílias de golfinhos, cada uma de uns vinte membros. No fundo do mar, vi o vulto deles, sem saber direito do que se tratava. Quando retornamos à superfície, pulei na água com snorkel e segui os dois grupos. O quanto pude, porque o bicho é ligeiro demais.

Das criaturas mais famosas das Maldivas não vi o tubarão Grey Reef, que está desaparecendo, vítima da pesca. Tampouco tive a felicidade de cruzar com o tubarão-martelo. Em sua busca, caí no mar um dia antes do amanhecer, mas ele não apareceu. Li no Wikipédia que o martelo é o tubarão mais ameaçado de extinção. As fotos deste post são do alemão Udo Kracht. O Udo mergulha há 29 anos e nunca viu uma arraia-jamanta. No dia que cruzei com uma delas, o Udo vinha um pouco atrás e, quando chegou, o animal já tinha sumido. Ele também foi para as Ilhas Similan em abril passado, mas nenhuma arraia-jamanta deu as caras. Agradeço ao Udo pelas fotos e desejo que uma arraia-jamanta gigantesca apareça na frente dele no seu próximo mergulho.
|
Escrito por Marcella Centofanti
|
Comentários () |
| |
 |
| |
|
|