31/07/2007
Que Pan?
No Sudeste Asiático, ninguém nunca nem ouviu falar de jogos Panamericanos. O torneio é completamente ignorado pela mídia local. Já a Copa América era noticiada diariamente pelos jornais. Todos os jogos foram transmitidos pelas emissoras regionais e os asiáticos acompanharam as partidas de perto.
Escrito por Marcella Centofanti
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30/07/2007
Dez dias num mosteiro budista
De volta à Tailândia, dessa vez no norte, saí em busca de informações sobre meditação vipassana, uma técnica em que o aluno passa um período de no mínimo dez dias em silêncio, apenas meditando. Há tempos tenho vontade de fazer o curso, mas no passado me faltava tempo ou coragem. Gente do mundo todo vem para esse canto do mundo para aprender o processo, que foi criado em Myanmar, vizinho à Tailândia. Eu não tinha mais
desculpa para não encarar o retiro.

Numa conversa com um guia turístico tailandês, ouvi sobre um templo budista isolado no extremo norte do país. Coloquei minha mochila nas costas e lá fui eu, pronta para sentar na posição de lótus. No caminho para a tal cidade, avistei um monge e fui perguntar sobre o
curso. Num inglês precaríssimo, ele me convidou para acompanhá-lo ao seu mosteiro - que, mais tarde descobri, não era o tal recomendado pelo guia. Quando chegamos no lugar, ele me apresentou para o monge responsável, um sujeito sorridente e simpático que falou sem parar. Pena que não compreendi uma palavra. Afinal, ele não entende inglês, nem eu thai. Em seguida, conheci a monja que seria minha professora, uma velhinha de uns 70 anos, careca, que também não pronunciava nada em inglês. Zero, nem mesmo "okay". Na minha ignorância, em quase um mês de Tailândia aprendi apenas seis palavras: obrigada, olá, não,
pimenta, cinco e dez. A comunicação seria na base da mímica.

Num primeiro instante, achei aquele isolamento interessante. Eu era a única estrangeira num mosteiro isolado em que praticamente não se falava inglês. Fiquei me achando a gringa diferentona. Mas parei para pensar e percebi que, na realidade, ia ser difícil aprender qualquer coisa... Imediatamente, mudei meus planos. De dez dias, resolvi ficar cinco.

Almocei e tive a tarde livre. Terminei o livro que estava lendo e fui chamada para minha primeira lição às 19h. A monja me mandou tomar banho e vestir roupas brancas. Em seguida, me apontou um pote de ovomaltine e a garrafa térmica com um chá terrível. Chá ruim com ovomaltine? Não é por nada, mas... credo! Como entendi que ela também tinha sinalizado a panela de comida (e minha última refeicão tinha sido às 11h30), mandei um pratão de frutos do mar com arroz. Quando a monja voltou, no entanto, percebi que tinha feito coisa errada. No mosteiro, eles não comem nada depois do almoço, só bebem o tal chá com ovomaltine. Ops... tarde demais. Nessa hora, repensei minha estada. Em vez de cinco, três dias estariam de bom tamanho.

Por uma hora e meia, rezamos. Eu deveria acompanhar a letra dos mantras num livrinho escrito no indecifrável alfabeto thai. Claro que não rolou. Após rezar, meditamos em silêncio por uma hora, mas não consegui me concentrar, pois minhas costas doíam e a nuvem de
pernilongos ao meu redor me distraía. Na sequência, a monja me mandou caminhar pela sala (quatro ou cinco metros de uma extremidade a outra), em passos lentos. É a tal meditação caminhando. Andei por pouco mais de uma hora. Foi o que funcionou melhor.

O relógio marcava 22h00. Hora de dormir. Minha professora me apontou o chão e vi que aquela seria minha cama. Vejam bem: não estou falando de um colchão no chão, mas do chão mesmo. Dormi sobre uma esteira, tipo de praia, num piso de cimento. Pelo menos eu tinha uma espécie de almofada dura que eles usam como travesseiro, um mosquiteiro e uma
cobertinha. Nesse momento, decidi que ficaria no templo por dois dias.

Demorei uma hora para pegar no sono e acordei algumas vezes durante a noite. Ainda estava escuro quando a monja despertou. Senti que deveria me levantar também. Olhei no relógio por curiosidade, chutando umas cinco da manhã. Não acreditei no que vi: três da madrugada! Foi a gota d'água. Eu partiria no mesmo dia, após a meditação matutina.

Em jejum, repetimos o ritual da noite anterior. Não me concentrei nem por um minuto, pois só pensava em ir embora o mais rápido possível. Por volta das 6h00, empacotei minhas coisas. Fui falar com o monge e, por meio de um livro com frases traduzidas de inglês para thai, expliquei que queria ir embora. Eu disse que a meditação era dificil demais pra mim, mas não sei se ele entendeu. Tentei fazer uma doação em dinheiro, que ele recusou. Antes de eu partir, a monja me fez tomar café da manhã: arroz, carne de porco e legumes cozidos. Esses monges são muito fofos.

Um pouco antes das 8h00, uma das caminhonetes que servem de ônibus na cidade parou na frente do mosteiro, diante do meu sinal. Finalmente, eu estava livre. Meu período como aluna de meditação vipassana durou menos de 24 horas.
Escrito por Marcella Centofanti
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26/07/2007
A 40 metros de altura
Há um passeio no Sudeste Asiático que não está listado em nenhum guia de viagem, mas corre no boca-a-boca dos viajantes como um dos programas mais legais do continente. Trata-se da Gibbon Experience, na reserva florestal de Bokeo, no norte do Laos. O projeto nasceu há três anos, quando um francês que vive no país desde 1999 construiu uma casa de madeira na copa de uma árvore, a cerca de 30 metros de altura, no meio da floresta de 123.000 hectares. A casa é acessada por uma rede de cabos de aço, onde o visitante se pendura e desliza de um lado ao outro. Atualmente, a Gibbon Experience conta com cinco casas (três em uso) e quinze cabos, o mais longo com 400 metros de distância e cerca de 100 metros de altura. Grupos de no máximo doze pessoas chegam diariamente para uma estada fixada em três dias e duas noites.



Inicialmente, eu estava relutante. Primeiro, porque a idéia me parecia turística demais. Segundo, por causa do preço: 150 dólares, uma exorbitância para os padrões asiáticos. Os tantos relatos positivos que ouvi, entretanto, me fizeram arriscar. Fiz uma reserva com dez dias de antecedência, o que só foi possível por eu estar sozinha e por ser época de chuvas. Na alta temporada, é necessário agendar uma vaga até três meses antes. Assinei contrato daqueles do tipo "se eu morrer, o projeto não é responsável pelo acidente" - e ouvi o discurso da recepcionista. Ela deixou bem claro que, por estarmos nas monções, o veículo 4X4 que nos levaria à floresta talvez não vencesse a lama da estrada. Se isso acontecesse, deveríamos estar preparados para encarar uma caminhada de sete horas, com trechos de subidas íngrimes, eventualmente debaixo de chuva. Por temer não dar conta do recado, um casal desistiu minutos antes da nossa partida.



Para nossa alegria, o carro conseguiu nos transportar até a entrada da reserva. Sendo assim, tivemos de andar somente uma hora e pouco antes de chegar à primeira casa da árvore, onde ficaram seis pessoas. Eu segui com mais três holandeses para a casa de numero três, a uns 40 minutos de caminhada dali. Nossa casa ficava a quase 40 metros de altura. Era redonda e tinha apenas um ambiente, onde se dividiam sala, quarto e cozinha. O único cômodo separado por uma cortina era o banheiro (Pelo menos ele. Ufa!). Durante nossa permanência, ficamos sozinhos ali. Laosianos só traziam comida e nos acompanhavam em alguns trekkings. Na maior parte do tempo, éramos livres para circular pela floresta e deslizar pelos cabos de aço o quanto quiséssemos.



A brincadeira é bem perigosa. Se você não prender o equipamento corretamente e cair, é morte na certa. Depois do primeiro dia, ninguém mais confere se você está fazendo direito ou não. Durante a noite, também sentíamos um frio na barriga. Choveu bastante e dava um medinho estar no topo de uma árvore, no meio do nada, entre relâmpagos e trovões, sem nenhum tipo de comunicação.

Para mim, entretanto, o mais legal da Gibbon Experience não é adrenalina em si, mas a possibilidade de presenciar a vida numa reserva florestal. Eu ficava arrepiada de ouvir os tantos sons emitidos pelos animais, sobretudo ao amanhecer e ao entardecer. A maior algazarra quem fazia eram os tais gibbons, os macacos que moram ali e dão nome ao projeto. Consegui ver apenas um, enquanto ele saltava de uma árvore para outra.



No fim, fiquei feliz por ter acatado o conselho dos amigos viajantes e encarado a brincadeira. A Gibbon Experience foi, sem dúvida, um ponto alto na minha viagem. Valeu cada centavo dos 150 dólares.
Escrito por Marcella Centofanti
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25/07/2007
De volta a Luang Prabang
Meu plano original era seguir para o norte do Laos e encarar mais caminhadas pela mata. A experiência na floresta (post abaixo) em Muang Ngoi Neua, no entanto, me fez mudar de idéia. Decidi me dar um pouco de luxo (que, para os padrões do Laos, significa fornecimento de energia elétrica) e retornei a Luang Prabang, ao sul.

É sempre bom voltar a Luang Prabang, a cidade que elegi como a mais romântica do Sudeste Asiático. Nenhum outro lugar no continente tem a arquitetura de estilo colonial francês tão bem preservada. As dezenas de templos budistas espalhados pela região conferem uma interessante mistura de Ásia com Europa. Construído na confluência dos rios Mekong
e Nam Ou, o munícipio de 26.000 habitantes tem charmosos cafés, ateliês e hotéis - não era, obviamente, o caso da minha pousada de 5 dólares a diária, nem do bufê de 1 dólar que eu comia na rua.

Apesar de ser uma das cidades mais importantes do Laos e seu principal destino turístico, Luang Prabang tem apenas um caixa eletrônico. Adoro a sensacão de estar em lugares onde o suposto conforto da civilizacão ainda não chegou completamente.

Luang Prabang foi um dos lugares onde passei mais tempo, oito noites no total. Nesse período, houve três blecautes na cidade, mas não me importei. Se o ambiente já era romântico durante o dia, ganhava uma brisa ainda mais poética com as ruas iluminadas à luz de velas. A cidade está no topo da minha lista de lugares onde quero voltar na
Ásia.
Escrito por Marcella Centofanti
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21/07/2007
Perdidos na floresta - Parte II (Final)
No início da tarde, começou a chover forte. Assim foi por horas. As irritantes sanguessugas atacavam como nunca. O caminho que já estava enlamaçado virou um sabão. Eu escorreguei umas cinco ou seis vezes, assim como o Daniel. O coitado do Justin, que usava sandálias, caiu umas vinte vezes no mínimo. Eu vinha logo atrás dele - o Daniel seguia na frente - e assisti cada queda. Não eram tombos quaisquer, mas cenas dignas de videocassetada. O pobrezinho caía com tudo de bumbum no chão e pernas para cima. Minha reação ficava entre soltar uma gargalhada (algumas vezes não aguentei e ri ate doer a barriga) e me preocupar. Se um de nós torcesse o tornozelo, levasse uma picada de cobra ou se machucasse de qualquer outra forma, a situação ficaria ainda mais feia.

A água dos meninos acabou, mas por sorte o Justin havia levado tabletes de purificação . Assim, eles podiam abastecer as garrafas nos córregos que cruzávamos. Lá pelas 15h, dividi com eles uma latinha de amendoim que havia trazido. Foi nosso almoço. Começou a passar pela minha cabeça a possibilidade da gente ter de dormir na floresta. Nós três temíamos o mesmo prospecto, mas ninguém ousava falar a respeito. Uma coisa é se perder numa caminhada na Nova Zelândia, nos Estados Unidos ou mesmo no Brasil. Outra é no norte do Laos. Quem se preocuparia em resgatar a gente? Com que recursos? Lembrei que havia esquecido de avisar minha família e meus amigos do meu paradeiro. Ninguém fazia a mais remota idéia de que eu estava ali. Ai, ai, ai...

Quanto mais passava o tempo, menos conversávamos. Estávamos assustados e não havia clima para bate-papo. Tirei pouquíssimas fotos porque a gente não queria perder tempo parando. Quando eu não estava ocupada tentando evitar uma queda na lama escorregadia ou procurando sanguessugas no meu tênis, parava para olhar em volta. A vista era deslumbrante. Montanhas cobertas de verde por todos os lados.

Seguimos o senso de direção dos meninos (eu nem ousava dar palpite nessas horas) e, por volta das 16h, chegamos num ponto em que não havia mais trilhas a seguir. Nossa única possibilidade era acompanhar um riacho que, botamos fé, desembocaria no rio, nosso almejado destino. Andávamos com a água na canela, às vezes no joelho. De tempos em tempos, encontrávamos uma trilha. Tentamos umas três que continuavam a dar em lugar nenhum. Mas a quarta finalmente era mais longa e parecia ir no sentido apropriado.

O relógio já devia marcar umas 17h quando o Daniel gritou lá da frente: "Eu vejo uma casa!" Ficamos radiantes. Nao teríamos de dormir no mato! Os moradores nos apontaram a direção certa. Ainda tínhamos uma subidona íngrime e mais uma hora de chão pela frente. Estavámos exaustos, famintos e loucos para voltar para nossas pousadas. Seguimos sem reclamar. Sob um dilúvio, finalmente chegamos ao terceiro e último vilarejo, onde o Daniel tratou dos ferimentos causados pelas sanguessugas. Os moradores obervaram seus movimentos com a curiosidade de quem nunca viu uma pessoa cuidar de um machucado.

Por 8 dólares, fretamos um barquinho que levou mais uma hora para chegar em Muang Ngoi Neua. Já anoitecia quando entrei na minha pousada. Nunca fiquei tão grata de tomar banho gelado no fundo do quintal, beber cerveja quente e dormir numa cabana de palha de 1,50 dólar.
Escrito por Marcella Centofanti
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20/07/2007
Perdidos na floresta - Parte I
Por volta do meio-dia, saí com meus novos amigos, Daniel (na foto abaixo, de boné) e Justin, para o trekking de dois dias nos arredores de Muang Ngoi Neua, no norte do Laos. Deixei minha mochilona na pousada e levei somente a pequena, com documentos, câmera, escova de dentes, protetor solar, repelente, camisola, chinelo, lanterna, capa de chuva, petiscos e uma garrafa de água. Tínhamos um mapa precário com referências do tipo "uma árvore". Muito útil para uma caminhada na floresta... Ouvimos dizer que o caminho era confuso, mas estávamos confiantes. Certamente, acreditávamos, encontraríamos pessoas que nos dariam informações.

O primeiro dia transcorreu tranquilamente. Ficamos meio confusos nuns campos de arroz, mas encontramos laosianos que nos indicaram o sentido correto. Choveu um pouquinho, mas a capa protegeu bem. Eu teria chegado seca se não tivéssemos de cruzar uns cinco ou seis riachos. Não é a sensação mais agradável caminhar com as meias e o tênis molhados. Mas o que mais nos aborrecia eram as malditas sanguessugas que insistiam em grudar nos nossos calçados. Sem que percebêssemos, elas escalavam até nossos tornozelos e se enfiavam dentro de nossas meias, deixando umas marcas bem feias. A maior vítima foi o Justin, que usava sandálias.

No fim da tarde, chegamos a uma vila de trinta famílias onde passaríamos a noite. Eles viviam em casas de madeira e palha, suspensas em palafitas. O senhor simpático que parecia ser o líder da comunidade falava um pouco de inglês e conseguimos nos comunicar com ele. Homens e mulheres se dividiam em turnos para tomar banho no riacho. Uma das jovens me emprestou sabonete e uma canga de algodão com a qual elas se cobriam enquanto se lavavam. Na vila, as crianças logo se juntaram ao nosso redor. O Daniel e o Justin brincaram com elas.

A noite caiu e o vilarejo ficou um breu, pois não havia fornecimento de energia elétrica. Após o jantar de arroz com frango, nos juntamos aos locais em volta da fogueira. Ninguém ali falava inglês. Na base da mímica, aprendemos palavras em lao. Cachorro é maa. Gato, mel (uma onomatopéia!). Estrela é dao.

Na manhã seguinte, partimos por volta das 8h. Três horas depois, estávamos no segundo povoado, bem semelhante ao anterior. Descansamos um pouco antes de retormamos o caminho. Por volta das 14h, deveríamos chegar no nosso destino final. A partir desse ponto, entretanto, apareceu uma sucessão de bifurcações não mencionadas pelo mapa. Seguimos umas cinco trilhas diferentes, só subidas e descidas, que davam em lugar nenhum. Não passava uma alma para nos dar informações. Percebemos que estávamos perdidos.
Escrito por Marcella Centofanti
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19/07/2007
Um vilarejo no norte do Laos
Depois que meus amigos me deixaram, não fiquei sozinha por muito tempo. Na mesma manhã em que Yan e James (foto abaixo) seguiram para a China (Natália e Waine já haviam voltado para a Tailândia), fiz amizade com o Daniel, um holandês que está passando três meses no sudeste asiático. Enquanto eu choramigava a partida dos meus amigos, o Daniel me consolava: "Se liga, tem 6 bilhões de pessoas no mundo...".

Estávamos em Muang Ngoi Neua, um vilarejo de uns 500 habitantes no norte do Laos que sobrevive basicamente do turismo. O povoado fica a uma hora de barco do município mais próximo e não tem nenhum tipo de veículo motorizado. Mas quem precisa de carro numa cidade de uma única rua? Ali, não há água encanada, telefone, muito menos banco ou qualquer outra facilidade. O fornecimento de energia é das 19h às 22h.

Muang Ngoi Neua é o lugar perfeito para não fazer nada. Para muitas pessoas, o programa é passar horas e horas deitado na rede, bebendo cerveja (quente, é claro) e contemplando a paisagem do rio e das montanhas. Eu mesma passei um dia inteiro nesse estilo, jogando conversa fora com a Yan e o James, na varanda da pousada onde pagávamos 1,50 dólar pelo bangalô de palha com vista espetacular. Dividíamos um banheiro com banho gelado e vaso sanitário tipo "cócoras".

Quando os dois foram embora, decidi ser mais ativa. Eu, que sempre fui exemplo para outras pessoas pela minha regularidade na academia, estou uma preguiçosa desde que deixei o Brasil. Muang Ngoi Neua é conhecida por um trekking de dois dias que leva a três vilarejos isolados. Seria uma boa oportunidade para levantar o traseiro da rede e, finalmente, botar os músculos e o coração para trabalhar. Foi com esse intuito que me convidei para fazer o tal trekking com o Daniel e o Justin, um americano que o holandês conhecera na véspera. Confesso: o fato de eu achar o Justin uma gracinha foi um empurrãozinho a mais.

Mas sobre o trekking só vou contar no próximo post. Aguardem.
Escrito por Marcella Centofanti
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18/07/2007
Como é bom fazer amigos
Em viagens longas num mesmo país ou região, acontece um fenônemo curioso. Após umas semanas na estrada, você topa com as mesmas pessoas em cada cidade que visita. Não é difícil entender o motivo. Os mochileiros seguem os mesmos guias de viagem, que indicam os lugares onde todo mundo vai. Tem gente que detesta isso, pois se sente parte de um roteiro que pré-estabelece o destino de todos. Não discordo desse ponto de vista, mas também encaro o fato como uma boa oportunidade para fazer amigos. Foi assim que nasceu uma das turmas mais legais com quem viajei até agora. Primeiro, conheci a Yan, uma sino-inglesa de 22 anos, numa pousada em Phnom Pehn, capital do Camboja. No mesmo país, ao norte, fiz amizade com a Natália, espanhola de 28 anos, quando ela me abordou na rua perguntando se eu queria dividir o quarto. Coincidentemente, as duas acabaram se conhecendo no Vietnã. Combinamos de vir juntas ao Laos. Com o Waine, médico sul-africano de 32 anos, conversamos pela primeira vez no ônibus de Hanói, no Vietnã, para Vientiane, no Laos. Finalmente, o Waine nos apresentou ao James, neolezandês de 25 anos que acabou de concluir a faculdade de fotografia. Cada um de nós viaja sozinho, em itinerários diferentes. Passamos duas semanas e meia juntos. Conheça um pouquinho de cada um dos meus amigos:



A Yan começou sua jornada na América do Sul, no fim do ano passado. Se encantou com a sensualidade dos brasileiros e com funk carioca. Adora particularmente a canção Ela só pensa em beijar (Se ela dança, eu danço), do MC Leozinho. Atualmente, curte as últimas semanas de férias na China, terra de seus pais, antes de voltar para Londres e terminar o curso de Direito. Ela fala um inglês culto e sempre corrigia meus erros. Viajar com a Yan foi um excelente aprendizado.



Nesse momento, a Natália está prestes a retornar ao seu trabalho como assistente social numa entidade que atende jovens delinqüentes. Ela, que vive no País Basco, no norte da Espanha, viajou por um ano por Austrália, Nova Zelândia, Nepal, e sudeste asiático. Antes de regressar à Espanha, passeia por duas semanas pela Finlândia, numa visita a um finlandês com quem ela viveu um romance no sul da Tailândia. A Natália é corajosa. Por cinco dias, rodou as estradas do Laos de moto com o Waine e o James. A Yan e eu, menos aventureiras, seguimos de ônibus.



A viagem do Waine é uma volta ao mundo. Ele saiu de Londres, onde vive há sete anos e trabalha como cardiologista, foi para a Índia, passou pela Tailândia, Laos, Camboja e Vietnã. A essas alturas, pega ondas na Indonésia. De lá, segue para Austrália, Estados Unidos, México e América do Sul. Sabem onde ele termina seu giro de um ano? No carnaval carioca. Se alguém aí quiser hospedá-lo, vai ter a companhia de um sujeito bem-humorado, sociável e de coração enorme.



No mesmo dia em que eu saí do Brasil, o James deixou a Nova Zelândia. Ele aterrissou em Bangcoc e passou pelos mesmos países que eu. Agora, bate perna pela China de carona com a Yan, que fala mandarim. Depois, segue para o Nepal e para a Índia, onde pretende procurar trabalho e morar por uns meses. Planejamos nos encontrar novamente num desses dois países. Apelidamos o James de príncipe Harry. Ele não lembra?



O gostoso de viajar com a mesma turma por um tempo maior é a possibilidade de estreitar laços e aprofundar a amizade. Faz falta. Na maioria das vezes, você acaba naquela conversinha de "de que país você é, de onde vem e para onde vai". Meus dias e noites no Laos com os novos amigos vão ficar guardados para sempre na minha memória.

Escrito por Marcella Centofanti
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A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.
 
 
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