08/08/2007
Segunda temporada no mosteiro - agora para valer
Apesar da minha fracassada experiência no mosteiro ao norte da Tailândia (post do dia 30 de julho), decidi não desistir. Eu precisava tentar outra vez, agora num esquema organizado para estrangeiros. Ouvi boas referências do Wat Rampoeng um mosteiro em Chiang Mai, e enfiei na cabeça que, agora, eu iria até o fim. Me inscrevi e tive de esperar quatro dias antes de entrar no retiro. Nesse período, eu estava tão ansiosa que fiquei com dor de barriga. Eu sabia que não seria fácil. As regras publicadas no site eram um pouquinho assustadoras. Durante os dez dias, o aluno não deve conversar com ninguém nem se distrair de qualquer outra forma. Livros, diários, TV, telefone, Internet, música... é tudo proibido. Também não é permitido tirar sonecas durante o dia, fazer exercícios (uma corridinha seria uma boa forma de matar o tempo) ou tomar sol. Basicamente, as únicas atividades permitidas são reza e meditação.



Cheguei ao mosteiro numa manhã ensolarada. Fiquei impressionada com a quantidade de pessoas meditando. Havia dezenas de tailandeses e uns dez ocidentais. Vesti roupas brancas (traje obrigatório. Roupas decotadas e transparentes são vetadas) e tive uma hora para limpar o quarto onde dormiria. No Wat Rampoeng, todas os alunos ficam em acomodações individuais, um luxo em se tratando de um mosteiro budista.

Me juntei aos demais estudantes para o almoço, servido às 10h30. O cardápio era arroz empapado, carne de porco refogada e legumes cozidos apimentados. Seria a última vez que comeríamos no dia. Depois das 12h, não é permitido mastigar mais, só beber líquidos. Na visão da religião, duas refeições diárias são suficientes para garantir a saúde. O que se come além serve apenas para o prazer sensorial. Até que o mosteiro facilitava nossa vida. Uma lojinha vendia iogurte, suco, leite, refrigerante e sorvete. Mesmo assim, nos primeiros dias sofri um pouco com a fome. Além da falta de comida e de lazer, a terceira complicada parte da rotina era acordar às 4h da madrugada. Sob as badaladas de um sino, que anunciava também as refeições, tínhamos de levantar. Meditávamos até as 6h, quando tomávamos café-da-manhã, invariavelmente sopa de arroz com legumes.



Mas o mais difícil, no entanto, era a meditação em si. Há algumas técnicas de vipassana. A ensinada pelo Wat Rampoeng divide a prática em duas metades: caminhando e sentado na clássica posição de lótus. No primeiro dia, recebi a missão de praticar por seis horas. A quantidade aumentou progressivamente, até atingir o teto de doze horas diárias, em sessões de duas horas cada.

Sofri bastante no início. Não conseguia me concentrar por mais de cinco segundos. A cabeça simplesmente não parava de pensar. Minhas pernas doíam, assim como as costas. Por meio de um tradutor, o monge responsável me encorajava, dizendo que contemplar os pensamentos e a reação frente à dor faz parte do aprendizado. Lá pelo quinto dia, finalmente, comecei a notar algum progresso. Não que tenha ficado fácil, mas eu conseguia não pensar talvez por mais de dez ou quinze segundos. Dali em diante, as coisas só melhoraram. No final, eu estava quase me habituando à rotina do mosteiro. Adorava a cerimônia diária de dar presentes as monges, às 7h. Formávamos uma longa fila, misturada também com gente de fora do mosteiro, e colocávamos comidas, bebidas, flores e incensos nos potes que eles carregam. É um ritual bem interessante.



A temporada no mosteiro acabou durando onze dias. Fiquei encantada com o profissionalismo e a seriedade dos monges e freiras do Wat Rampoeng. Eles são preparadíssimos para ensinar meditação tanto para tailandeses quanto para estrangeiros. Quando o assunto é retiro espiritual, certamente é mais fácil procurar uma escola onde, no mínimo, alguém fale a sua língua.
Escrito por Marcella Centofanti
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07/08/2007
Invasão amarela
Nunca vi povo mais devoto ao seu rei que o tailandês. Qualquer viajante nota isso logo ao desembarcar em Bangcoc. O aeroporto tem fotos gigantescas do homem. Aos poucos, descobri que o rei Bhumibol Adulyadej está por todo lado, em cartazes e outdoors de norte a sul do país. Qualquer estabelecimento tem fotos dele em pôsteres ou calendários. No poder desde 1946, ele é o mais antigo chefe de estado em exercício no mundo e este ano completará 80 anos. Segunda-feira é o melhor dia para perceber o amor da população ao monarca. Quase todo mundo veste camisetas amarelas, que simbolizam a cor do reino. Vejam fotos que tirei num barco e num shopping em Bangcoc:



Escrito por Marcella Centofanti
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06/08/2007
Aprendiz de chef tailandês
Sempre me envergonhei por não saber cozinhar. Não que eu seja uma completa ignorante no fogão. Por ter saído da casa dos meus pais aos 18 anos, aprendi na marra a preparar alguma gororoba para não morrer de fome. Mas nunca fui além de massas (pré-preparadas, evidentemente), saladas e omelete. Quando cheguei na Ásia, percebi que teria uma ótima oportunidade para melhorar minhas habilidades culinárias. Estou apaixonada pela gastronomia do Sudeste Asiático, sobretudo tailandesa e vietnamita, e tenho tempo de sobra para queimar quantos pratos forem necessários.

Ao longo da viagem, me informei sobre aulas e descobri que Chiang Mai, no norte da Tailândia, é a cidade dos cursos no continente. Quando cheguei lá, percebi que, realmente, hotéis, restaurantes e cyber cafés estão repletos de folhetos que oferecem não só lições de culinária, mas também de boxe tailandês, massagem, meditação, joalheria etc. São tantas as escolas - talvez uma dúzia - que eu não sabia qual escolher. Acatei a sugestão de um viajante e me matriculei na "The Best Thai Cookery School". Nome sugestivo, não? Pois é, mas só o nome, como descobri depois.



No dia seguinte, o motorista, professor e dono da escola me buscou por volta das 9h00. Passamos para pegar outros alunos, num grupo que totalizava quinze pessoas, embora o flyer anunciasse o limite de doze. Já não gostei. A aula começou com uma interessante turnê num mercado local, onde aprendemos sobre os vegetais, frutas, grãos e massas utilizados na cozinha tailandesa. Uma hora depois, finalmente colocamos a barriga no fogão. Cadê o lenço para segurar a cabeleira? Não só não havia como não fomos instruídos a prender o cabelo. Ai, ai, ai...

Começamos os preparos. Num cardápio de quinze pratos, cada um podia escolher quatro. Ou seja: o professor, sozinho, controlaria quinze pessoas cozinhando iguarias diversas. Daria certo? Para alguém com noções de culinária, talvez. Para a atrapalhada aqui, claro que não. Deixei queimar o frango com castanha de caju e o phad thai (macarrão frito com broto de feijão e ovo). Não consegui tomar a sopa de camarão, que ficou apimentada demais para o meu paladar. O único prato em que aparentemente nada deu errado foi o curry com queijo de soja. Mesmo assim, não tinha gosto nenhum.



Saí da escola arrasada com meu desempenho, pensando que era o caso de desistir. Às vezes a gente simplesmente não nasce para certas coisas , né? Mas, sei lá, deu vontade de tentar mais uma vez. Liguei para a Baan Thai , indicada no meu guia de viagem e, sob a promessa não haver mais de oito pessoas por classe, me inscrevi. O preço era o mesmo, 50 reais. No dia seguinte, qual não foi minha surpresa ao perceber que seríamos apenas quatro alunos. Yes! E mais: contei para a recepcionista minha má experiência na véspera e ganhei uma professora particular fofíssima, que ficou comigo o tempo todo, me ditando pacientemente o passo-a-passo.

Não tinha como errar. Acertei tudo, o frango com castanha de caju, a sopa de frango com leite de coco, o curry vermelho e a salada de macarrão apimentada (que ficou no ponto que eu gosto!). Vou confessar aqui: chorei de emoção quando provei o curry. Ficou maravilhoso! Eu nunca tinha preparado uma comida tão saborosa. Dois dias depois, comi um frango com castanha de caju num restaurante bacanudo. Posso falar? Juro que o meu ficou melhor
Escrito por Marcella Centofanti
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A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.
 
 
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