11/09/2007
Com vocês, um pouquinho de Tibete



Após treze dias, deixei Kunming e coloquei os pés na estrada outra vez. Já estava com saudade da velha rotina. De agora em diante, chega de descanso. Vou me embrenhar pela China.

Segui direto para o norte da província de Yunnan. Embora os chineses estejam presentes no comando dos negócios, a comida, os trajes, a etnia, a língua e a geografia montanhosa da região são típicos do Tibete.



A jornada começou no município de Zhongdian, marotamente (como bem cunhou meu amigo César Pires) rebatizada de Shangri-la. Num golpe de marketing, o governo chinês, que de bobo não tem nada, decretou que aquele é o lugar onde o escritor inglês James Hilton baseou o livro Horizonte Perdido. Apesar de exageradamente turística, Zhongdian é interessante. Pertinho dali, visitei o mosteiro de Songzanlin, liiindo:



Ao norte, segui para a parte mais bacana da viagem, a montanha de Meili Xue, de 6.740 metros (o Pico da Neblina, o ponto alto ponto do Brasil, tem 3.014 metros). Nos arredores de Meili Xue, fiz um trekking de cinco dias que me levou a paisagens deslumbrantes.



Escrito por Marcella Centofanti
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10/09/2007
Meu primeiro (quase) date com um chinês
Um chinês me convidou para sair. Foi a primeira vez que um asiático chegou junto. Antes, tinham rolado umas abordagens leve, mas nunca além do cara me elogiar ou perguntar se eu tinha namorado (eu sempre menti que sim, já para evitar qualquer aproximação indevida).

Desta vez, de maneira inédita, o sujeito foi direto. Eu havia acabado de tomar café-da-manhã no hotel anexo ao albergue onde estava hospedada, quando um chinês me interceptou no lobby. Ele se apresentou como Michael e disse ser de Taiwan. É difícil precisar sua idade, já que os asiáticos sempre parecem mais jovens do que são, mas devia ter uns trinta e tantos anos.

Num inglês nota 4, falou que sempre me via no restaurante de manhã. Na caruda, não só me convidou para tomar café no seguinte, como perguntou se eu estava livre naquela noite.

Respondi que tinha um jantar agendado com amigos (verdade) e que não sabia quando estaria de volta. Ele insistiu que eu batesse no seu quarto a qualquer hora para a gente beber um café ou um chá, porque gostaria de conversar comigo. Cafezinho no quarto de madrugada? Sei...

O Michael não era exatamente mal-ajambrado, mas a verdade é que não sinto a menor atração por olhinhos puxados em geral. Quer dizer, no Brasil há um bocado de descendentes interessantes, mas aqui, na terra deles, não sei o que acontece.

Em dois meses, vi dois únicos caras, ambos tailandeses, que me fizeram virar o pescoço. Um era um mauricinho de vinte e poucos anos, num shopping de Bangcoc. O outro, um hippie, desses sujinhos cabeludos que vendem colar na calçada, em Pai, no norte da Tailândia.

No fim, não encontrei mais o Michael. O jantar com meus amigos emendou numa baladinha que invadiu a noite. Não fosse por esse motivo, eu teria aceitado seu convite (num bar, não no quarto, obviamente). Embora eu não fosse ceder aos encantos do chinês, estava curiosa para ver como ele conduziria a situação.

A relação homem-mulher é muito diferente na Ásia. Aqui não é como no Brasil, onde todo mundo sai beijando na boca sem a menor cerimônia. Na Ásia, na maioria das vezes, só namorados de verdade se beijam. E olhe lá. Há todo um ritual e só depois de um tempo os afagos começam. Carinhos em público são raríssimos, sobretudo no Sudeste Asiático. No máximo, o povo anda de mãos dadas. Nesses meses todos, vi um único casal se beijando, mesmo assim agachado num canto, escondido.

Eu queria saber como um chinês quebraria o gelo e avançaria o sinal com uma ocidental. Se aparecer outro saidinho por aí, eu conto o desfecho.
Escrito por Marcella Centofanti
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05/09/2007
Ah, por que estou tão sozinha...
Pela primeira vez desde que parti, senti saudade do Brasil. É claro, sinto falta de pessoas queridas e de uma coisinha ou outra (carne vermelha de primeira, tenra, suculenta e ao ponto está no topo da lista). Posso parecer insensível, mas a verdade é que não sofro por estar longe de casa.

Em quase seis meses, devo ter ligado para o Brasil três ou quatro vezes, para desespero da minha mãe, que implora telefonemas. A última vez que ouvi a voz dela (e de qualquer outro parente ou amigo), me parece, foi em junho. Aliás, só agora, escrevendo este post, é que me dei conta de quanto tempo faz.

Na semana passada, senti um apertozinho no coração. Primeiro, a Fernanda Colavitti, uma das minhas melhores amigas, me mandou um e-mail contando os preparativos do seu casamento, em novembro. Ela disse que, se eu estivesse no Brasil, seria a madrinha. Deu uma tristeza de pensar que não estarei presente...

No mesmo dia em que recebi a mensagem, fui com uma turma de estrangeiros estudantes de chinês jantar numa churrascaria brasileira (sabiam que há várias espalhadas pela China?). Eu nunca tinha pisado num restaurante brasileiro no exterior. Afinal, tenha dó, a última coisa que quero comer quando viajo para fora é feijoada e afins, né? Agora, entretanto, a idéia de saborear uma picanha me apetecia absurdamente.





A decoração da churrascaria era meia-boca, com bandeiras por todo lado e fotos gigantescas de paisagens diversas, da floresta amazônica aos pampas gaúchos. Havia também pôsteres da Luciana Gimenez e da Deborah Secco como madrinhas de bateria. Na caixa de som, músicas da Carmen Miranda, bem caricato. Embora a carne não fosse nenhuma maravilha (picanha definitivamente não havia), foi uma das melhores que comi na Ásia.

Saí da churrascaria meio deprê. Nunca tinha parado para pensar o quão longe do Brasil estou, praticamente do outro lado do globo. Fiz um bocado de amizades e não ficaria desamparada em caso de necessidade, mas quem eu mais considero amigo no continente é o Maurício, que está lá em Saigon, a milhares de quilômetros daqui.

Meu nó no peito só aumentou na balada que emendamos depois do restaurante. A banda ao vivo tocou Garota de Ipanema. Eu sei, megaclichê, mas o suficiente para me abalar. A gota d'água foi quando a Cristina, minha nova amiga italiana, subiu no palco e cantou Desafinado.



A noite acabou para mim. Comecei a chorar pelos cantos do bar e, antes que desse vexame em público, fui embora. Acho que o fato de não cruzar com nenhum brasileiro pelo caminho (os últimos foram dois paulistanos, no Laos, há três meses), contribui pra minha saudade da pátria amada. Alguém aí tem um amigo brasileiro na China para me emprestar?
Escrito por Marcella Centofanti
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04/09/2007
Preciso descansar
Após cinco meses de estrada, bateu uma fadiga forte. Pode parecer frescura ou exagero, mas a verdade é que viajar (no meu esquema barato, claro) cansa e não é pouco. A cada três ou quatro dias, em média, mudo de lugar. É um tal de: a) fazer e desfazer mala; b) carregar tralha para lá e para cá; c) enfrentar dez, quinze, vinte horas de estrada ruim; d) procurar lugar para ficar; e) fazer check-in e check-out; f) conhecer novas pessoas; g) se adaptar a novos temperos, idiomas, climas, cheiros, altitudes, moedas etc.
Não estou reclamando. Amo minha excitante vida de viajante. Mas neste momento sinto o desgaste físico.

O cansaço foi o principal motivo para eu procurar uma base e aquietar temporariamente. Durante duas semanas, vou morar em Kunming, em Yunnan. Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe quais são suas principais atrações turísticas. Enquanto estiver aqui, prometo não pisar em nenhum museu ou monumento. Tudo que desejo, agora, é levar uma vida de morador normal.

Kunming é um bom lugar para descansar. Com população de 3.5 milhões, é considerado um município de tamanho médio para os padrões da China. Aqui, tenho as facilidades de uma grande capital (bebi um expresso pela primeira vez em três semanas!), sem a muvuca, os preços inflacionados e a poluição de centros como Xangai e Pequim. Apesar de grande, a cidade tem uma atmosfera pacata. Um dia, lá pelas onze da noite, vi essa molecada jogando badminton na rua.



Em função de seu clima agradável o ano todo, nem muito quente no verão, nem muito frio no inverno, Kunming é conhecida como a cidade da "eterna primavera". Estamos a 2.000 metros de altitude e, enquanto o resto do país (com exceção das montanhas) sofre com um calor desgraçado de 30, 35 graus, nosso termômetro raramente ultrapassa os 25 graus.


Escrito por Marcella Centofanti
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01/09/2007
Ninguém merece três meses de monções



Adoro chuva. Quanto mais forte e barulhenta, com trovões e rajadas de vento, melhor. Antes de vir para a Ásia, achava super romântica a idéia de passear por campos de arroz e paisagens do gênero debaixo de tempestades. De fato, tem lá o seu charme. Mas, após três meses de monções, já tive o suficiente. Lembrem-se de que sou viajante. Não tenho carro e passo o dia caminhando pelas ruas. Estou cansada de pisar na lama e de andar para baixo e para cima com as roupas ensopadas. Chega de água!
Escrito por Marcella Centofanti
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31/08/2007
Acabou a moleza
Não fiz esforço para aprender os idiomas do Sudeste Asiático. Banquei a gringa arrogante e não decorei muito além de "olá" e "obrigada" em cada língua. Mas ali é fácil se comunicar. Sempre tem alguém que arranha inglês.

Eu havia sido avisada por outros viajantes que, na China, entretanto, a história é outra. Aqui, não adianta falar mais devagar ou mais alto. Também não adianta esperar aparecer o funcionário da loja que fala inglês. O povo não entende uma palavra e ponto final. Ainda assim, eu me recusava a acreditar que as pessoas desconheceriam termos elementares como hotel, táxi e Internet.

Cheguei em Kunming, capital da província de Yunnan, no sul da China, babando para usar o computador. Depois de dezesseis dias de conexão precária em Mianmar, eu queria ver a cara do blog, responder mensagens atrasadas e saber o que se passava no planeta.

Fiz o check-in no albergue e comecei a perguntar nos arredores (ou seja, para gente que convive com estrangeiros manhã, tarde e noite): Internet? Computer? E-mail? Falei clara e pausadamente, enquanto teclava no ar. Tentei uma meia dúzia de pessoas, mas ninguém entendeu. Quem me salvou foi um americano que passava pela rua e indicou um lugar.

No mesmo dia, aceitei o fato de que não dá mais para ser preguiçosa. Tenho de aprender o básico de chinês se quiser sobreviver neste país. Minha primeira aula foi com o Quincy e a Jean, um jovem casal super simpático que conheci no tal cyber café. Não se deixem enganar pelos nomes. Eles são chineses, mas adotam nomes gringos quando conversam com ocidentais. Essa prática é comum por aqui.



Para decorar a pronúncia bizarra, fiz um vídeo do Quincy contando de um a dez. Prestem atenção nas mãos dele. Os chineses têm símbolos próprios para os números de seis a dez. Se você mostrar os cinco dedos de uma mão mais três da outra, eles podem entender 53 em vez de oito.

A propósito, Internet é wangba em chinês. Essa palavra aprendi rapidinho.
Escrito por Marcella Centofanti
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A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.
 
 
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