20/09/2007
Justiça seja feita
No post anterior, falei sobre a falta de educação dos chineses. Não retiro o que disse, mas preciso ser justa. Ao mesmo tempo em que são grosseiros nas maneiras, os chineses são extrovertidos, hospitaleiros e prestativos. A China foi o pais asiático em que mais fiz amizades com locais.

Enquanto tailandeses, laosianos, vietnamitas e cambojanos não dão a mínima para a presença estrangeira, os chineses têm verdadeiro fascínio. Nós gringos somos celebridades e, vira e mexe, o povo vem pedir para tirar foto abraçado. Até na Praça da Paz Celestial, em Pequim, um grupo de quatro adolescentes fez fila para tirar foto comigo, um por um. Pode? Já as crianças de vez em quando têm medo. Umas duas saíram correndo e tiveram crise de choro ao me ver.

Há diferentes graus de popularidade, definidas basicamente pela cor do cabelo. Eu, morena, sou tipo atriz da malhação. Atraio olhares, mas não causo frisson. Loiros já estão um degrau acima, talvez no elenco da novela das oito. O povo encara sem constrangimento e adora uma foto. Agora, ruivo e negros são nível Hollywood. Cada sorriso, um flash.

O que eu gosto nos chineses é que eles normalmente se esforçam para ajudar os turistas. Eles sabem que a barreira linguística é um problemão e, quase sempre, têm paciência para tentar te entender. Se você pára uma pessoa na rua para pedir informação, logo se forma uma rodinha de três ou quatro intrometidos que querem decifrar a mímica.

Em inúmeras situações, fui socorrida por gente que falava um pouquinho de inglês e voluntariamente ofereceu auxílio, desde para comprar um bilhete de ônibus até para barganhar descontos em loja (lição numero 1 do manual de sobrevivência na China).

Ganhei presentes, jantares, bebidas e caronas de pessoas que havia acabado de conhecer. Os chineses sabem receber seus visitantes.
Escrito por Marcella Centofanti
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19/09/2007
Vai ser mal-educado assim na China!



Por que é tão complicado romper certas barreiras culturais? Embarquei para a Ásia empenhada em não julgar costumes locais, por mais excêntricos que eles pudessem parecer. Eu achava (de certa forma ainda acho) que viajante com vê maiúsculo é aquele que observa as diferenças culturais sem insistentemente condenar e fazer comparações com o próprio país.

Ao longo da viagem, sempre houve uma coisa ou outra que me incomodou, mas consegui levar razoavelmente numa boa. Na China, fracassei. Em nenhum país havia encontrado tantos aspectos difíceis de engolir quanto aqui. Vou dar alguns exemplos:

- Cusparadas. É o dia inteiro, não importa o lugar. Canso de ver nego cuspindo em ônibus, trem, restaurante e cyber café. Dentro, minha gente. A escarrada é poderosa, a todo volume. Parece que, quanto mais barulhenta, mais o povo acha bonito. Nos primeiros dias, eu fazia cara de nojo. Agora, quando ouço aquele "rrrrrr" que vem do fundo da garganta, só olho dos lados para garantir que o alvo não será meu pé. Mulher e criança também cospem. Um casal português que conheci viu um pai ensinando a arte à filha. Sabem onde?
Nos guerreiros de Xi'an!

- Empurra-empurra. Num país de 1.3 bilhão de habitantes, preciso descrever a muvuca? Chinês ainda está aprendendo a fazer fila. É uma luta entrar em ônibus, trem e metrô. Diariamente, nego esbarra em você, pisa no teu pé e não te dá passagem. E eles desconhecem palavrinhas mágicas como "desculpe", "por favor" ou "com licença".

- Cigarro. A galera fuma, e muito, em restaurantes (enquanto outras pessoas na mesa comem) e dentro de ônibus que não abre a janela.

- Etiqueta na mesa. Para começar, a minoria mastiga de boca fechada. Em segundo lugar, o povo faz uma a sujeira absurda. Por algum motivo, muitos pratos não são desossados. Em vez de depositar o osso num recipiente à parte, eles cospem pros lados. Ao final da refeição, a mesa e o chão estão imundos.





Aos poucos, percebo que, felizmente, estou ficando mais tolerante. Outro dia, um acontecimento que normalmente me tiraria do sério me divertiu horrores. Num ônibus intermunicipal, parei no meio do corredor para perguntar qualquer coisa à mulher que trabalhava como cobradora. Sem perceber, eu estava bloqueando o caminho do Sasha, o alemão com quem eu viajava. Em vez de sinalizar a presença dele, a fulana meteu as duas mãos espalmadas no meu peito e me empurrou violentamente para trás, enquanto
gritava qualquer coisa em mandarim (chinês não fala, berra). Se não tivesse um banco atrás de mim, eu teria caído de bunda no chão.

A situação era tão surreal que tive um ataque de riso. Apesar de também ter soltado uma gargalhada, o Sasha ficou indignado com o gesto da cobradora. Pelo resto da viagem, buzinou no meu ouvido que eu deveria revidar. Mas não me dei ao trabalho. Juro que não fiquei chateada.

O mais interessante é que, em termos de choque cultural, vamos combinar que a China é apenas um leve estágio para o quem vem pela frente: a Índia.
Escrito por Marcella Centofanti
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18/09/2007
Não é o que parece
Num dos meus primeiros dias na China, fui a uma casa noturna com uma turma de gringos. De tudo, o que mais me chamou a atenção foi o comportamento dos homens chineses. Os caras se abraçavam, ficavam de mãos dadas e davam umas encoxadas uns nos outros que me deixaram boquiaberta. Não esperava encontrar tanta liberdade sexual no país.

Comentei minha impressão com um alemão que vive aqui há um ano e ele explicou que eu estava enganada. Ao contrário do que me pareceu, a tal boate não é gay friendly e chinês não é liberal coisa nenhuma. Na China (como na Coréia), é normal amigos se agarrarem. Nao há a menor conotação homossexual no gesto. Engraçado, né?





Escrito por Marcella Centofanti
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14/09/2007
Um exemplo para todos nós
Quase que diariamente conheço novos viajantes. Na semana passada, na província de Sichuan, uma me chamou atenção. A Marie-Thérèse, francesa, está dando uma volta ao mundo. Sua jornada começou em novembro de 2006, na Argentina. Ela passou por Chile, Nova Zelândia, Austrália, Fiji, Filipinas e Vietnã antes de chegar à China. Ainda vai para o Nepal e para a Rússia antes de voltar para casa, em Paris, em novembro.

Até aí, tudo bem. Está cheio de gente fazendo o mesmo. O que torna a Marie-Thérèse especial é a sua idade. A mulher tem 74 anos! Ficou viúva e resolveu dar um rolê pelo globo. Disse adeus ao filho e aos netos e partiu. Sozinha, meu!

Pensam que ela viaja no esquema vovó, com city tour e mala de rodinha? Não, senhores. A coroa dorme em albergue, encara 20 horas de busão e carrega uma mochila de 18 quilos nas costas.

Ela me contou como se preparou fisicamente para a empreitada. Seis meses antes da viagem, começou a caminhar de cinco a dez quilômetros por dia, com uma mochila.

Não é demais? Quando crescer, quero ser assim. Vocês conhecem outros velhos destemidos?
Escrito por Marcella Centofanti
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A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.
 
 
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