Há pouco mais de um ano, o governo chinês concluiu uma de suas mais reluzentes obras ferroviárias, a linha Qinhai-Lhasa. Com ela, a China abriu caminho para seu mais remoto e, certamente, controverso território, o Tibete, anexado em 1951. Para quem parte de Pequim, estamos falando de uma lonjura de 4.064 quilômetros. Sabem lá o que isso? Quase o Brasil de norte ao sul. A distância do Oiapoque ao Chuí, em linha reta, é de 4.300 quilômetros.
A viagem Pequim-Lhasa durou quase 48 horas e foi a mais longa da minha vida. Também, uma das mais memoráveis. Para minha sorte, na véspera da partida, a Sofy, uma israelense altíssimo astral que conheci no albergue em Pequim, decidiu vir comigo. Como a doidinha deixou para a ultima hora, só conseguiu bilhete para o acento mais barato, um troço que nem reclina. Imaginem passar dois dias e duas noites num banco posicionado num ângulo de 90 graus?
Nosso trem deixou Pequim às 21h30. Chegamos à estação com uma hora de antecedência, ansiosas. O governo chinês exige que estrangeiros tirem um visto especial para entrar no Tibete, algo que custa de 150 a 300 reais, dependendo da malandragem do agente de viagem. É caríssimo. Pelo visto chinês, por exemplo, paguei 60 reais.
A maioria dos turistas obedece a regra e desembolsa a grana. Como acho essa taxa sem pé nem cabeça e não quero dar dinheiro a um governo ditatorial, arrisquei viajar sem o tal visto. A Sofy também não tinha. Só houvesse uma blitz, teríamos de pagar uma multa de 400 reais. Para nossa sorte, no entanto, ninguém pediu documento nenhum na hora do embarque. Ufa!
Passei a primeira noite jogando conversa fora com a Sofy no restaurante do trem. Naquele dia, ela completava 24 anos. Brindamos com chá. Não queríamos beber álcool, pois sabíamos que estávamos na mais alta ferrovia do planeta. Em algum ponto, passaríamos a mais 5.000 metros de altitude. Era melhor não abusar.
Na mesma noite, no entanto, conhecemos umas figuras que não davam a mínima para os efeitos da altitude. Dois búlgaros, dois tibetanos e um russo mandavam ver na vodca e na cerveja. Quando o restaurante estava prestes a fechar, o russo comprou uma garrafa de uísque Johnnie Walker Black Label. Pronto, foi o suficiente para a tripulação do trem deixar o vagão aberto a noite inteira para os clientes gastões.
Um dos tibetanos não conseguia gravar "Marcella" de jeito nenhum. Um nome de três sílabas soava estranho e longo demais para seus ouvidos. Ele insistia em me chamar de "Barcelona". Fiz um vídeo com um dos búlgaros ensinando o tibetano a pronunciar meu nome.
No dia seguinte, a Sofy conseguiu um upgrade e mudou-se para minha cabine, que tinha três camas vagas. Passamos a tarde conversando, bebendo chá e comendo tranqueiras. Em um dia, viramos amigas de infância. Trocamos confidências e descobrimos que tínhamos muito em comum.
Um chinês simpático nos emprestou seu laptop e assistimos a filmes. Infelizmente, o cara só tinha porcarias, umas aventuras americanas estilo Blockbuster. Mas foi bom para matar umas duas horas.
A segunda manhã nasceu coberta de neve. Estávamos no ponto mais alto do percurso, já no platô tibetano. No auto-falante, o governo chinês, para variar, se vangloriava, dizendo que a construção daquela linha foi um milagre da engenharia.
Daí em diante, a paisagem era deslumbrante. Entre um clique e outro na janela, atualizei meu diário e escrevi posts para o blog. Enquanto a Sofy dormia, meditei e terminei o livro que estava lendo.
Nosso trem chegou em Lhasa 47 horas e 37 minutos após a nossa partida, em Pequim. Para falar a verdade, nem vi o tempo passar.
Adorei Pequim. Cheguei para passar seis dias, mas gostei tanto que prolonguei minha estada para nove. A cidade tem muita comida boa para comer, monumento incrível para visitar, coisa legal para comprar e balada empolgante para se esbaldar. Fiz de tudo um pouco. No primeiro dia, à noite, fui encontrar o Davi, um médico alagoano bacanérrimo que está se especializando em acupuntura. Nosso ponto de encontro foi a Praça da Paz Celestial. Acho que só quando vi o retratão do Mao (um dos poucos ainda expostos em prédios públicos) caiu a ficha. "Caraca, eu tô em Pequim!", pensei. Foi dos meus momentos mais emocionantes na China.
Nos dias seguintes, lógico, fiz o roteiro Cidade Proibida-Grande Muralha-Palácio de Verão. Tudo é incrível, mas certamente ficará melhor depois das Olimpíadas. A Cidade Proibida, particularmente, está uma bagunça. É impressionante como os chineses parecem não se importar com um de seus maiores tesouros históricos. Peças que nunca viram um espanador na frente, iluminação precária, legenda que não corresponde ao objeto exposto... uma pena.
Com a Fay, minha melhor amiga chinesa, fui às compras. A danada é boa de barganha e me garantiu uma economia de algumas centenas de dólares. Para retribuir sua gentileza, convidei-a para ir a um espetáculo da Ópera de Pequim. Ela nunca tinha visto pessoalmente, só na televisão. Eu, desde que assisti ao filme "Adeus, minha concubina", morria de vontade. Ao vivo, é lindo mesmo, mas megamonster turístico. A Fay era a única chinesa da platéia.
Na saída do teatro, convenci minha amiga a provar carne de cachorro num restaurante coreano. A Fay carrega um trauma de infância. Quando tinha dez anos, seu cãozinho de estimação morreu. Não é que o pai dela cozinhou o bicho e mandou ver? A coitada chorou três dias. Agora, superada a dor, ela comeu umas fatias, mas não adorou. Concordo. É okay, comestível, mas não delicioso. A carne era meio dura e sem gosto. Mas vai saber a qualidade...
Em muitos aspectos, Pequim me lembra São Paulo. O trânsito é tão infernal quanto. Até as Olimpíadas, o governo pretende concluir novas linhas de metrô (atualmente, há três). É o jeito. Se não for assim, a cidade facilmente entrará num colapso.
Pegar táxi pode ser uma complicação. Cheguei a ficar plantada uns vinte minutos na calçada esperando um, em frente à principal universidade de Pequim. E, não me perguntem a razão, muitas vezes os taxistas não entendem endereço nem escrito em chinês. Em inglês, então, esqueçam. Para solucionar o problema, o governo pretende instalar um rádio que interligará cada veículo a uma central operada por gente que fala inglês. Assim, o turista diz o destino para a telefonista, que traduz para o motorista. A Fay duvida que dará certo.
E a poluição, então? Credo! O ar carrega uma espécie de neblina constante que nos impede de enxergar com nitidez. O céu é cinza e, quando olhamos para o sol, parece estarmos vendo a lua. Por causa da poluição, ganhei uma tosse que demorou a sarar.
Mas não vou bancar a reclamona, não. Apesar das suas mazelas, Pequim é uma das cidades mais interessantes e imperdíveis que pisei na Ásia.
Ô, língua difícil... Na minha primeira semana na China, decidi tomar lições de mandarim. Como contei anteriormente, aqui não dá para sobreviver na base do inglês. Ademais, a experiência é sempre mais interessante quando você se comunica no idioma local.
Tive apenas seis aulas. Lógico que, em tão pouco tempo, não esperava sair falando. Como disse meu pai, eu aprenderia "the book is on the table" e olhe lá. Mas até que umas palavrinhas básicas deu para decorar.
A Megan, minha professora gracinha, se preocupou mais em me ensinar a pronúncia correta do que qualquer outra coisa. Mandarim tem os malditos tons, quatro no total, mais o som neutro. Isso significa que uma mesma palavra pode ter cinco significados.
Mais difícil do que pronunciar um único tom é juntar um monte de palavras com entonações diferentes numa sentença. A frase "wuo yao mai qu Beijing de che piao", ou "me vê um bilhete para Pequim", tem oito tons. É uma desgraça. E inúmeras vezes, mesmo quando você fala certinho, o povo não te entende. Dá desespero.
E a escrita, então? Jesus, nessa seara, evidentemente, nem me meti. Sei ler apenas as palavras "saída", "banheiro", "mulher" (foto) e "briga". Sabem por que conheço o caractere de briga? Porque é o de mulher um do lado do outro, assim: 女女. Sensacional, não? Tenho vontade de aprender chinês por causa dos caracteres (a sonoridade, me desculpem, acho horrível).
Meus amigos gringos dominam uns oitocentos caracteres após dois, três anos debruçados sobre livros. Para ler o jornal, e necessário conhecer em torno de 2.500. Tenho a maior admiração por esses ocidentais que se metem a aprender mandarim. Conheci um bocado aqui na China, incluindo três brasileiros fofos, o Davi e o Paulo, médicos, e a Paula, jornalista. Os três estudam em Pequim e falam um chinês que dá gosto ouvir.
Pelo menos na gramática, a língua é bico. Não há conjugações verbais. Bom, alguma compensação tinha de ter, né?
Depois de quase dois meses, ainda não consigo falar muita coisa. Sei pedir comida no restaurante, perguntar onde fica a estação de trem e dizer que meu chinês é uma porcaria. Meu melhor desempenho é na hora de comprar. Pergunto quanto custa, falo que está caro e peço descontos. Uma frase que sempre uso é: "wo bu shi meiguoren, wo laizi Baxi". Traduzindo, "não sou americana, sou brasileira". Algo to tipo: "abaixa esse preço que eu não estou podendo". Nem sempre cola. Para chinês, todo estrangeiro é endinheirado.
Até agora, memorizei os números e mais umas oitenta palavras e expressões. "The book is on the table", infelizmente, não está entre elas.
Lembram da Marie-Thérèse, a francesa de 74 anos que está rodando o mundo sozinha (post do dia 14 de setembro)? Encontrei a veinha de novo num albergue em Pequim. Desta vez, não perdi a oportunidade e tirei uma foto para matar a curiosidade de vocês.
A primeira vez num banheiro público chinês a gente nunca esquece
O povo aqui diz que, se você não visitou a Grande Muralha, não esteve na China. Eu discordo. Para mim, a mais autêntica experiência chinesa é uma visitinha a um prosaico e fétido banheiro público.
O toalete clássico não tem portas. Muretas de menos de um metro separam os sanitários, invariavelmente no estilo turco. Na maioria das vezes, não há vasos de louça, apenas um buraco no chão, ou uma única vala que interliga todos os boxes. Atenção: descarga é luxo raro. Os dejetos ficam ali expostos até uma pobre alma se encarregar da limpeza.
Na primeira vez que entrei num banheiro do tipo, em Kunming, tomei um susto. Eu estava apertada e não havia mais ninguém ali. Mesmo assim, não me atrevi. Eu, hein! E se aparecesse alguém? Virei as costas e saí à procura de um lugar civilizado.
Aos poucos, no entanto, fui me acostumando. Em paradas de ônibus e cidades pequenas, muitas vezes não há opção. O que posso fazer? Deixei de frescura e decidi olhar o lado divertido da história. Tirando uma ou outra amiga, eu nunca tinha visto ninguém, digamos, em ação no banheiro. Pois agora, com quase dois meses de China, já presenciei tu-di-nho.
As chinesas devem me achar esquisita. Para elas, se aliviar na frente dos outros é normal. O povo não olha dos lados para conferir o que o vizinho está fazendo – tipo banheiro gay. Já eu, sobretudo no início, observava atentamente cada movimento alheio. Queria saber, por exemplo, se a mulherada se limpava (de vez em quando) e se depilava (jamais). Um dia, o alvo da curiosidade fui eu. Enquanto eu urinava, um molequinho tibetano que acompanhava a mãe parou na minha frente e ficou me encarando.
Aparentemente, os banheiros masculinos são ainda mais interessantes. Gringos que vivem na China me contaram que em vários toaletes nem há nem divisória. Os chineses batem papo, lêem jornal, fumam e falam no celular enquanto fazem o que têm de fazer.
Cenas assim são cada vez mais raras. O progresso econômico está fazendo com que os banheiros sejam convertidos para a versão que conhecemos, com portas e vasos de sentar. Nas grandes cidades, a maioria já é assim. Desculpem o egoísmo mas, para nós viajantes, não deixa de ser uma pena. Que graça terá ir ao banheiro na China?
Logo que cheguei Ásia, especificamente na Tailândia, fiquei passada ao ver um grupo de mulheres trabalhando numa obra. É, mulherada carregando saco de cimento nas costas! Qual não foi minha surpresa ao constatar que elas pegam pesado no continente todo? A cena se repetiu em vários países.
Na China, nas cidades de Kunming e Chengdu, as mulheres são maioria entre os motoristas de ônibus municipais. Okay, neste caso não é trabalho pesado. Mas é curioso, né?
Tudo quanto é chinês me recomendou uma visita a Jiuzhaigou, um parque tombado pela Unesco, ao norte da província de Sichuan. Jiuzhaigou tem, supostamente, uma das paisagens mais bonitas da China.
Eu nunca tinha ouvido falar desse lugar antes de chegar aqui e estava um pouco apreensiva. As imagens que vi, realmente, eram de cair o queixo. Mas fotos turísticas vocês sabem como são, né? O cartão postal sempre dá uma exagerada na cor do céu ou da água.
Resolvi conferir. Pois não é que a paisagem é magnífica mesmo? Montanhas verdinhas e lagos turquesa. As fotos que vi não tinham retoque de Photoshop. Vejam que incrível:
A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.