29/10/2007
Paulo Coelho em nepalês



Um dos meus programas favoritos nas grandes cidades asiáticas é passar horas nas livrarias. Sempre encontro bons sebos com livros em inglês. De vez em quando, há uma ou outra coisinha que presta também em espanhol e italiano.

Embora nunca tenha visto um único exemplar em português, encontrei um autor brasileiro em rigorosamente to-das as lojas que entrei. Adivinhem quem? Paulo Coelho, é claro.

O episódio mais curioso aconteceu em Katmandu. Perguntei para o dono de uma das maiores livrarias da cidade qual era o título mais vendido. Não acreditei quando ele respondeu "O Alquimista".

Revelei minha nacionalidade e o homem ficou todo empolgado. Quis me mostrar tudo que havia do Paulo Coelho na loja. Gente, tem até tradução em nepalês. Pode?
Escrito por Marcella Centofanti
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28/10/2007
O estilo das nepalesas



Assim que cruzei a fronteira do Nepal (Iupi! Estava de saco cheio da China), fiquei alucinada com as roupas das mulheres. Quanta cor! O contraste dos tecidos brilhantes com a pele escura das nepalesas cria um efeito alucinante. Nunca me apaixonei tanto pela moda de um país.

No Nepal, como na Índia, há dois vestidos tradicionais: os saris, bem conhecidos no exterior, e os kurtas.



O sari é basicamente um pedaço de pano de cinco a seis metros de comprimento e 1.2 metro de largura. Não há botões, zíperes ou alfinetes. O negócio é enrolado no corpo. Por baixo, a mulherada usa uma saia e um top justinho que cobre o ombro e deixa a barriga de fora.

Já o kurta é um conjunto de calça, echarpe e túnica. A calça pode ser larga ou agarrada. Quando é justa, é justa meeesmo, pior que da Gang, a grife carioca das popozudas -- ainda existe essa espécie?. Para vocês terem uma idéia, só entra no corpo quando a gente amarra um saco plástico no pé e na canela.



Segundo os padrões nepaleses, kurta é vestido para mulher jovem e solteira. Eles consideram o look mais sensual porque a túnica sugere o formato do seio, enquanto o sari, apesar de mostrar a barriga, cobre o peito.

Mandei fazer dois kurtas e um sari. Se não precisasse mais dos agasalhos de inverno, que ainda serão úteis, dava um fim nessa rouparada ocidental sem graça e só usava os modelitos indianos.

Saí às ruas de Katmandu, capital do Nepal, com meu amigo James Pyle (lembram dele, no Laos?), fotógrafo neozelandês. Ele fez as fotos deste ensaio, inclusive o meu retrato.

Escrito por Marcella Centofanti
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27/10/2007
Chama o Kassab



Das capitais que visitei na Ásia, Katmandu é a visualmente mais poluída -- em termos de barulheira, Hanói, no Vietnã, está pau a pau.

Vendo essa zorra de painéis, anúncios e fios por todo lado, lembrei do Cidade Limpa, projeto do prefeito Gilberto Kassab para deixar São Paulo uma belezura (ops, esse quem criou foi a Marta Suplicy).

Deu certo? A cidade está mesmo limpinha? Me contem, please!
Escrito por Marcella Centofanti
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26/10/2007
O dia em que apontei uma faca para um tibetano
Sou esquentadinha e tenho uns barracos no currículo. Não me orgulho, não. Morro de vergonha. É horrível perder as estribeiras e dar chilique. Mas, quando eu percebo, já foi. Ao longo da vida, me envolvi numas discussões que, vez ou outra, culminaram até nuns ligeiros episódios de agressão física.

Aqui na Ásia, bati boca pesado duas vezes. A primeira foi em Bangcoc, na Tailândia, durante o ano-novo tailandês. Por três dias, os locais celebram a data jogando água uns nos outros. No começo é engraçado, mas depois de 48 horas andando com as roupas encharcadas torra um pouquinho a paciência. Pensem comigo: é impossível atravessar a rua para ir na padaria sem tomar um balde de água na cabeça.

Levei na esportiva e entrei na dança. Molhei o povo também e me diverti com o ritual. Os tailandeses são uns amores e dóceis até quando despejam água em você.

No segundo dia, eu havia passado a tarde e a noite inteiras nessa brincadeira. Fazia um pouco de frio e meu corpo tremia. Quando eu voltava para a pousada, a uns dois quarteirões de distância, pedi para as pessoas não me molharem mais. Todo mundo respeitou.

Mas aí surgiu um turista indiano no caminho. O cara me apontou um balde e eu pedi: "Não, por favor". Ele respondeu: "Por favor?". Eu disse: "Sim". O fulano tomou um impulso e virou o negócio na minha cabeça. Não tinha só água, mas cubos de gelo também.

Virei um bicho. Primeiro, comecei a gritar em inglês. Quando acabou meu repertório de palavrões, berrei em português mesmo. O cara fugiu, mas eu persegui ele pela rua, xingando-o descontroladamente.

O segundo barraco foi em Nha Trang, no Vietnã. Um motorista queria me impedir de seguir numa viagem de ônibus intermunicipal. A agência havia vendido mais bilhetes do que acentos disponíveis. Aparentemente a culpa era minha, porque eu não tinha confirmado a passagem. Ora, eu havia mostrado meu tíquete e passado três horas plantada dentro da agência, à espera do embarque . Ninguém tinha me dito que era necessário confirmar nada. Como eu ia saber?

Me recusei a levantar. O cara começou a discutir e eu revidei, no mesmo alto e agressivo tom. Para os padrões asiáticos, uma mulher gritar com um homem mais velho é uma grosseria imensurável. Não quis nem saber. O ônibus partiu com 45 minutos de atraso, comigo dentro.

Este último episódio foi em maio. Desde então, eu andava bem calminha. Ri até do empurrão da chinesa grossa, lembram? Achei que tinha mudado. Eis que, no meu derradeiro dia na China, meu sangue voltou a ferver. Como nunca.

A viagem do Everest Base Camp à fronteira com o Nepal foi magnífica. Tivemos novas vistas esplendorosas de montanhas com mais de 8.000 metros cobertas de neve. Tudo estava perfeito. À noite, após dirigir o dia todo, finalmente chegamos a Xangmu, na divisa com o Nepal. Uma típica e horrorosa cidade de fronteira, com atmosfera de prostituição e criminalidade.

Chovia, estávamos cansados e com fome. Começamos a procurar um lugar para ficar. Checamos cinco pousadas, uma espelunca pior que a outra. Os melhores hotéis estavam cheios. Acabamos optando pelo primeiro lugar que havíamos olhado. O motorista (esse da foto) virou uma arara e se recusou a nos levar. Disse que deveríamos pegar um táxi.



Como assim? Pagamos 1.000 dólares por aquela viagem, uma cifra inflacionada e um dinheirão por estas bandas. Não estávamos pedindo nada de mais, apenas que o cara fizesse o trabalho dele. Tentei ligar para o escritório em Lhasa, mas não havia mais ninguém.

Ficamos doidos e começamos a discutir com o motorista, que não falava quase nada de inglês. Nos recusamos a deixar o carro e o cara se recusou a partir. A guerrinha de nervos deve ter durado quase uma hora. Numa certa altura, o Ronni, o holandês, entregou os pontos e falou pra gente pegar logo um táxi. Ele estava irado, quase partindo para cima do cara. A voz da Irene, a canadense, começou a embargar. O clima era extremamente tenso.

Concordei em descer. Mas não sem antes deixar uma lembrancinha pro motorista rebelde. Peguei o saco de lixo e esparramei o conteúdo pelo carro inteiro. Era casca de pistache, pasta de amendoim, papel higiênico e uva pobre por todo lado. Comecei a arremessar para o alto tudo o que eu via pela frente: óculos de sol, papel, qualquer coisa. Peguei os CDs de música tibetana que ele tinha afixados no pára-sol e atirei no chão, um por um.

O cara não sabia o que fazer para me impedir. Eu estava indomável mesmo. Ele veio para cima de mim com uma vassoura (sei lá porque ele carrega uma vassoura!). Saquei a faca que uso para descascar frutas e apontei pro estômago dele. Não colado, a um palmo de distância, mais ou menos.

Ficamos nos encarando com fúria nos olhos. Eu nem lembro direito o que aconteceu, de tão possessa que eu estava. O Ronni e a Irene dizem que eu falava pro motorista: "Yes, I did it! Yes, I did it!".

Mais tarde, quando a poeira baixou, pedi desculpas pros meus amigos. Sabem da maior? Eles adoraram! Eu disse que não podia ter perdido controle daquele jeito, que não era legal. O Ronni respondeu assim: "Tudo bem, você é brasileira". Caí na gargalhada. Na cabeça desses europeus, somos uma cambada de latinos barraqueiros. Desculpaê, galera, por corroborar essa imagem.
Escrito por Marcella Centofanti
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25/10/2007
Olha o Everest aí, gente!



No terceiro dia da viagem que nos levaria ao Nepal, madrugamos para ver o Everest ao amanhecer. Deixamos a pousada às 7h, quando ainda estava escuro e o termômetro devia beirar zero grau. O governo chinês, na sua bizarrice habitual, estabeleceu que todo o país deve seguir o fuso horário de Pequim. Quanto mais a oeste, mais tarde amanhece. Em Lhasa, o relógio deveria estar atrasado em 2h15 horas.

Passamos pelo portão do Parque Nacional de Qomolangma lá pelas 7h30. Mostramos nossos passaportes e entregamos o bilhete que custou 43 reais por cabeça. Qomolangma, que em tibetano significa Deusa Mãe da Terra, é a montanha que conhecemos como Everest. Cunhado em 1865, o nome homenageia o galês George Everest, que mapeou a Índia.

O carro seguiu por uma estrada sinuosa e íngrime por mais umas duas horas. A paisagem ficava cada vez mais desértica, sem vegetação ou vida animal aparente. Durante o percurso, cruzamos com pouquíssimos veículos, talvez mais uns dois jipes que levavam turistas.

Ficamos felizes ao ver que o dia clareava sem uma nuvem. Os primeiros raios de sol batiam no vidro do carro quando chegamos ao ponto mais elevado no percurso, a 5.180 metros.



De uma hora para outra, diante dos nossos olhos revelou-se um dos mais clássicos horizontes da Terra. Os Himalaias, branquinhos de neve, estavam emoldurados por um céu azul anil.

Em uma só fotografia, contemplávamos quatro dos seis mais altos picos do planeta. O Lhotse (8.516 metros), o Makalu (8.462) e o Cho Oyu (8.201) enfileiravam-se numa cordilheira divina. Acima deles, a 8.846 metros, o Everest exibia sua majestade de maior do mundo. Estávamos estupefatos.

Tiramos um milhão de fotografias e seguimos para a base da montanha. O famoso Everest Base Camp não é tão charmoso como pode parecer. Não tem nada, só meia dúzia de milicos e uma estrutura meia-boca de madeira.

Eu pensava que haveria uma central toda high-tech, com computadores que indicam temperatura no cume, velocidade dos ventos etc. Imaginava expedições de alpinistas chegando e partindo. Nada disso. Para começar, a temporada das escaladas acontece entre abril e maio.

Mas sabem o que foi bom? Só havíamos nós! Os únicos "alpinistas" eram meus amigos e eu. Inacreditável, num raro dia em que o Everest estava limpinho, completamente à vista, a montanha pairava ali, apenas para a gente. Aproveitamos o isolamento para burlar as regras chinesas e tentar chegar mais perto. Queríamos pisar na neve, pô! Infelizmente, os guardinhas nos perseguiram com sirene e tudo .

Impedidos de prosseguir na nossa radical expedição, subimos numa colinazinha para guardar um pouco mais a vista estonteante. Qual não foi nossa surpresa ao constatar que ali era, na verdade, uma espécie de cemitério? Tetricamente, dezenas de lápides continham nomes de alpinistas que fracassaram em suas tentativas de chegar ao topo. Alguns corpos nunca foram resgatados e permanecem lá em cima.



Voltamos para a tenda onde passaríamos a noite. O banheiro comunitário era um fileira de buracos no chão (desta vez, sem muretas de divisória), cobertos com uma lona de plástico. O cheiro dos excrementos deixados pelos visitantes anteriores era instragável. Alguns buracos transbordavam dejetos.

Não dava para encarar. Preferia me aliviar ao ar livre, atrás de umas pedras. Também era imundo, mas pelo menos o vento forte e constante dissipava o fedô. E convenhamos que não é todo dia que você faz suas necessidades com vista para o Everest. Está aí uma experiência que jamais sairá da minha memória.

Conforme o sol caía, o frio aumentava. Coloquei todos os meus casacos, mais cachecol, luva e gorro. Nada vencia o vento gelado que soprava incessantemente. Não adiantava nem sentar colado ao fogão que queimava excremento de iaque como combustível.

Quando a noite caiu, saí para olhar o céu novamente estrelado. Estava com uma das inglesas, a canadense e três franceses que conhecemos em Lhasa. Fizemos um círculo e entrelaçamos os cotovelos para tentar nos aquecer, mas era inútil.

Enquanto sofria com o frio abaixo de zero, fiquei pensando nos bravos alpinistas que se metem a escalar o Everest e dormem lá no alto. Apesar de acreditar que é preciso ter uma boa dose de maluquice para encarar uma aventura em que mais de 10% dos aventureiros não regressam, acho que consigo entender as motivações dessas pessoas. O Everest é fascinante. Dá, sim, uma vontade louca de subir naquele cume piramidal.



Dormimos cedo. No dia seguinte, o Everest surgiu assim, coberto de nuvens, sua roupagem habitual. Olhei mais uma vez e disse adeus. Naquele dia, eu deixaria a China e o Tibete e chegaria à fronteira com o Nepal.
Escrito por Marcella Centofanti
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21/10/2007
Um passeio pelos Himalaias



Pensei e repensei quinhentas vezes minha vinda ao Tibete. Eu sabia que seria um pé no saco viajar por aqui, graças à burocracia da dona China, que nos obriga a tirar vistos especiais para circular por qualquer parte. Acabei vindo, mas sem ter 100% certeza da minha decisão.

Pois, agora, estou agradecida. No Tibete, vi algumas das paisagens mais deslumbrantes da minha vida. Particularmente, me refiro a uma viagem memorável de cinco dias de Lhasa até a fronteira com o Nepal, que vou narrar em três etapas.

Fiz o percurso com mais quatro viajantes (duas inglesas, uma canadense e um holandês) e um carrancudo motorista tibetano. Postergamos a partida em um dia porque a canadense estava sofrendo horrores com os 3.650 metros de altitude de Lhasa - a mais alta capital do planeta.

Quase todo mundo que conheci, aliás, caiu de cama quando chegou ali. Passei maus bocados por causa da altitude na Bolívia e sei como é massacrante. Desta vez, graças a Deus não tive nadica, só um bocado de fadiga.

Deixamos Lhasa no aniversário da revolução comunista. A cidade estava repleta de bandeiras chinesas, que os coitados dos tibetanos são obrigados a hastear. Quando passamos em frente ao Palácio Potala, vimos uma cena marcante. De um lado da rua, peregrinos se prostravam diante da outrora residência do Dalai Lama. Do outro, milicos marchavam celebrando o dia em que Mao Tsé-Tung proclamou a República Popular da China http://english.gov.cn, em 1949. Que alívio deixar Lhasa...

À medida que nos distanciávamos da cidade, o altímetro mexia o ponteiro para cima. Quando chegamos em Yamdrok-Tso, um lago de cor turquesa, estávamos a 4.974 metros. Apesar da paisagem ser bonita, eu não conseguia apreciá-la com propriedade. A exorbitante quantidade de turistas chineses me irritava.



Pensava que seria assim pelo resto do itinerário. Para minha felicidade, a quantidade de turistas reduziu-se à metade no dia seguinte, quando chegamos a Shigatse, sede do magnífico Tashilunpo, mais conservado mosteiro budista do país.

Fundado em 1447, o Tashilunpo é a residência do Panchem Lama, segunda maior autoridade espiritual do Tibete. Com estreitas e vazias ruazinhas de pedra, o mosteiro parece a versão tibetana de uma vila medieval mediterrânea. Caminhei por ali calmamente com o Ronni, o holandês. Os monges ficavam alucinados com a tatuagem de dragão que ele tem no peito.



Seguimos adiante. Quanto mais longe de Lhasa, mais a China ficava para trás e o Tibete despontava. Igualmente, a pobreza vinha à tona e nos abalava. Em cada vilazinha que parávamos, o povo vinha pedir dinheiro, garrafas de plástico, comida, caneta ou qualquer outra coisa. Ninguém falava inglês, exceto a palavra "money". Pirralhos de quatro, cinco anos conheciam o vocábulo.



A cena mais chocante foi quando demos um caixa de biscoitos para um grupo de umas seis pessoas, na estrada. O povo entrou em pânico e começou a disputar a comida com violência. Jogado para lá e para cá, o pacote finalmente estourou. Voou bolacha para tudo quanto é lado. A galera comeu cada migalha esparramada no chão. Ficamos em silêncio. Ninguém sabia o que dizer.

Passamos a noite em Xegar, um povoado perdido no meio do nada, a 4.050 metros de altitude. À noite, depois de jantar e tomar uma xícara de chá de manteiga de iaque (urgh!), fomos surpreendidos pelo céu mais estrelado de todos os tempos. Eu não sabia que dava para ver tanta estrela a olho nu. A Via-Láctea tinha quase o formato de arco-íris, coisa de louco.

Fui dormir ansiosa, pensando no que havia visto e sonhando com o que estava por vir na manhã seguinte: o Monte Everest.
Escrito por Marcella Centofanti
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19/10/2007
Mianmar



Antes de deixar o Brasil, tudo que eu sabia sobre Mianmar é que seu governo é uma das mais sangrentas ditaduras da atualidade. Incluí o país no meu roteiro sem nem saber direito o motivo.

Quando cheguei na Ásia e comecei a trocar figurinhas com outros viajantes, percebi que Mianmar era o destino mais controverso e enigmático do continente. Para começar, conheci pouquíssimas pessoas que puseram ou planejavam colocar os pés lá. A maioria dos gringos acata a visão da Aung San Suu Kyi, a líder democrata que está sob prisão domiciliar. Anos atrás, ela pediu que estrangeiros não visitassem o país. No seu entendimento, o turismo internacional legitima a junta militar e só torna a vida dos birmaneses mais complicada.

Refleti muito sobre minha ida. Contou pontos a favor o fato de ouvir opiniões contrárias. Para algumas pessoas, Mianmar era o highlight da viagem. Outra turma, no entanto, dizia ter tido a pior experiência da vida. Nem a Índia causa julgamentos tão controversos. Qual seria a minha visão? Estava intrigada.

Vocês tem idéia do que significa viver em isolamento político e econômico? Eu não tinha até começar a planejar minha ida para Mianmar. Vou contar um pouquinho mais sobre a minha vivência lá.



- Ainda na etapa no planejamento da viagem, a gente percebe que Mianmar não é um lugar como outro qualquer. Fui obrigada a mentir sobre minha profissão para conseguir visto e tive de pegar um avião para entrar, uma vez que a fronteira com a Tailândia é fechada

- No primeiro dia, troquei dólares por kyat, a moeda local. Somos forçados a procurar o mercado negro, já que a cotação oficial é estapafúrdia, um terço do valor real

- Blecautes são comuns, mesmo em Mandalay e Yangon, as duas grandes cidades. Iluminação pública não existe

- O sistema educacional é uma piada. A molecada vai para a escola, mas não aprende nada. Depois da aula, TODAS as crianças de classe média para cima vão para a casa do professor particular, onde estudam de verdade por mais duas ou três horas

- Fora de Mandalay e Yangon, bicicleta e charrete ainda são o principal meio de transporte

- O acesso a e-mails é bloqueado e a conexão leeeenta, horrorosa. Cheguei a pagar seis dólares por uma hora de internet, o preço mais caro que encontrei na Ásia

- Estudantes universitários não podem permanecer no campus após a aula, nem do lado de fora. É proibido andar em grupos de mais de três alunos. Policiais à paisana controlam tudo

- Como a gasolina é racionada e insuficiente, o povo tem de comprar no mercado negro. E de onde vem o combustível à venda informalmente? Dos malditos militares

Apesar de estar triste por tudo que está acontecendo, fico feliz porque, finalmente, o mundo descobriu que existe um país chamado Mianmar, que a coisa está preta por lá e que as pessoas precisam desesperadamente de ajuda.
Escrito por Marcella Centofanti
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16/10/2007
Tibete para tibetanos



Dá uma decepção chegar em Lhasa, capital do Tibete, e constatar que cerca de 75% da população é chinesa. Estive na cidade durante o aniversário da revolução comunista, o principal feriado nacional. Era turista chinês para todo lado. Com o novo trem, então, nunca ficou tão fácil entrar em Lhasa. Ocupar o Tibete e, aos pouquinhos, aniquilar a cultura local é exatamente o que o governo quer.



Na sua usual cegueira, os chineses consideram a invasão do território supernormal. O discurso é que eles estão fazendo um favor aos pobres e bárbaros tibetanos. Mais ou menos o sentimento do americano médio em relação ao Iraque. No colégio, os estudantes não aprendem nada sobre a história recente. De acordo com o currículo escolar, o Tibete sempre fez parte da China.

Fotos do Dalai Lama e do Panchen Lama (o garoto de seis anos preso pelo governo chinês em 1995 e nunca mais visto) são proibidas, claro. No Palácio Potala, residência do Dalai Lama até seu exílio na Índia, em 1959, só há retratos do Bainqen Erdini Qoigyijabu, o Panchen Lama reconhecido pelas autoridades chinesas. Triste.
Escrito por Marcella Centofanti
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A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.
 
 
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