09/11/2007
Feriado com uma família nepalesa



Amo quando aparecem oportunidades de circular com pessoas locais. Hotel e restaurante, por melhor que seja, nunca reproduz o aconchego de um lar. Comer uma comida preparada em casa tem sabor mais autêntico.

Tive poucas e inesquecíveis chances do tipo nos países precedentes. O momento mais precioso aconteceu aqui em Katmandu. Conheci a Jéssica, uma nepalesa de 23 anos, no café que prepara o melhor expresso da cidade. A Jéssica morou nos Estados Unidos por quatro anos e fala um inglês impecável. Fizemos amizade e ela me convidou para celebrar com sua família o feriado de Dashain (pronuncia-se Dassai), que aconteceria em dez dias.

Meu plano inicial era partir para um trekking dali a dois ou três dias. Diante do convite, porém, pensei duas vezes. Eu não poderia perder uma ocasião de ouro como esta. Refiz meus planos e passei a data em Katmandu.

Dashain é a maior festa religiosa do Nepal, o equivalente deles ao nosso Natal. Escolas e prédios públicos fecham por uma ou duas semanas. Durante cinco dias, famílias se visitam.

A principal comemoração aconteceu num domingo. Fazia uma geladinha e ensolarada tarde quando a Jéssica e seus pais passaram para me buscar, por volta das 16h. A Jéssica e a Jiuti, mãe dela, estavam lindas, de sari.



Dirigimos por uns vinte minutos em direção às montanhas. O tio da Jéssica, anfitrião da festa, mora num confortável sobrado, num condomínio cerca de 300 metros acima da capital, sem barulho, poluição e trânsito. Nem parecia Katmandu.

Umas trinta pessoas se reuniram. Durante a tarde e a noite, o povo comeu, bebeu, bateu papo e jogou cartas, apostando dinheiro. Gente simpática e acolhedora que me tratou a pão-de-ló.

O ritual mais simbólico era a "tika", quando os mais velhos abençoavam os mais novos. Enquanto dava bençãos em nepalês e em sânscrito, a pessoa grudava uma gororoba de arroz, iogurte e corante vermelho na testa de quem recebia. Também recebi a "tika". Foi emocionante.
Escrito por Marcella Centofanti
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07/11/2007
Seis dias de meditação



Deixei o Brasil com poucos planos em mente. Um deles era passar uma temporada num ashram (espécie de centro espiritual), praticando meditações criadas pelo Osho, guru indiano famoso nos anos 70 e 80.

Já havia feito um pouco no Brasil e queria me dedicar por mais tempo, talvez um mês direto. Pretendia procurar um ashram na Índia, mas a oportunidade caiu no meu colo no Nepal.



A Irene, minha amiga canadense, foi quem veio com a idéia. Ela nunca tinha feito meditação, muito menos ouvido falar de Osho, mas estava interessada. Pesquisou a respeito e sugeriu que a gente passasse um fim de semana nesse lugar chamado Osho Tapoban. Pensando bem, por que não? Eu andava meio tensa (lembram do episódio da faca na barriga do tibetano?) e precisava dar uma relaxada.

Expliquei pra Irene que as meditações do Osho talvez fossem um pouco diferentes daquilo que ela tinha em mente. Na visão do guru, é muito difícil para o homem moderno (especialmente um iniciante) sentar por uma hora direto e esvaziar a mente. Por isso, ele criou uma série de práticas que incluem dança, música e movimentos que levam à exaustão física. Eu não queria que a Irene tomasse um susto quando visse pela primeira vez.



Chegamos numa sexta-feira à tarde para ficar até a manhã do próximo domingo. Faríamos cinco meditações por dia. Logo na primeira, uma sessão da chamada kundalini, a Irene franziu a testa. Para ela, era a mesma coisa que dançar numa casa noturna.

Resumo da ópera: a canadense detestou a experiência e partiu antes do previsto. Sua estada durou pouco mais de 24 horas. Já eu fiquei seis dias. Teria permanecido facilmente por semanas, mas quis sair para celebrar um feriado religioso nacional com minha nova amiga nepalesa, a Jéssica.

No Osho Tapoban, me senti em casa mais do que em qualquer outro lugar da Ásia. Nepaleses e estrangeiros fazem retiros de dias, semanas e meses ali. Umas 25 pessoas moram permanentemente. Enquanto eu estava lá, chegou uma família indiana, formada por um casal e dois filhos. Não acreditei quando vi o menininho de sete anos sentado na posição de lótus. Algum pai e mãe no Brasil está interessado em ensinar meditação pro filho?

Escrito por Marcella Centofanti
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05/11/2007
Tenho o direito de ficar triste?
Estava meio borocoxô esses dias, sem motivo aparente. Achava que era a TPM, mas a menstruação chegou, passou e eu continuei down. Nada sério, frescura. A Irene, canadense, e o Ronnie, holandês, meus companheiros de viagem nas últimas semanas, estavam no mesmo clima. Acho que a gente foi se contaminando com o baixo astral.

Conversei com a Irene a respeito. Começamos a analisar com que frequência, nos nossos países de origem, nos sentíamos felizes e tristes. Percebemos que, no geral, nossas vidas eram estáveis, sem grandes arroubos de emoção, para baixo ou para cima (se bem que, nos meses que antecederam minha viagem, meu coraçãozinho não teve paz).

Enquanto viajamos, nosso estado emocional é uma montanha russa. Na semana passada estávamos literalmente no topo do mundo, no Everest. Quanta felicidade! Já essa semana... Bem, é a consequência natural. Após um período de euforia, vem a depressão.

Mas por que raios fiquei deprimida? Estou em Katmandu, capital do Nepal! A cidade tem novas cores, sabores e cheiros para explorar. Nem isso era suficiente para melhorar meu estado. O pior que é eu fico pê da vida comigo mesma por estar triste. Tenha dó, estou viajando e realizando meu grande sonho. Que história é essa de bancar a infeliz?

Em busca de amparo, liguei para minha amiga, conselheira e inspiradora Erika Sallum, chiquérrima estudando e trabalhando em Nova York. Eu sabia que ela teria as palavras certas. Acompanhem o diálogo:

Marcella: Erika, estou triste...
Erika: Hein? Se liga, cê ta em Katmandu. Esses dias vão acabar. Aproveita!

M: Cê não entende (expliquei para ela a teoria da montanha russa emocional)
E: Ah, sim, cê era mesmo muito feliz no trânsito da Marginal Tietê...

M: (Risos)
E: Olha aqui, eu também me sinto triste às vezes em Nova York, mas a gente não pode deixar a peteca cair. Se é para ficar triste, que seja em alto estilo. Veste um sari, acende um incenso e sai pelas ruas de Katmandu sentindo os ventos dos Himalaias.

M: (Gargalhadas)
E: Nada de sair caída por aí!

M: Cê ta certa. Vou passar o fim de semana num centro de meditação. Acho que vai levantar meu astral.
E: Isso mesmo. Não esquece de levar uns brincos e um lenço colorido.

Minha apatia sumiu na hora. Fui tomar café-da-manhã rindo à toa, feliz da vida por estar em Katmandu. Obrigada, Erika.
Escrito por Marcella Centofanti
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31/10/2007
Momento Seu Creysson

Meu dicionário Houaiss diz que o idioma falado no Nepal é nepalê. Não seria nepalês?

Procurei num dicionário virtual e apareceu a forma nepali, como eles dizem aqui.

Estou confusa. Alguém aí pode me socorrer, por favor?
Escrito por Marcella Centofanti
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A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.
 
 
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