24/11/2007
O prazer de assistir televisão
Desde que terminei o trekking de treze dias pelas montanhas, minha maior felicidade é assistir televisão. Não deixo de passear, visitar mosteiros (Deus do céu, vi Budas para três encarnações), ler, escrever etc. Mas o momento mais precioso do meu dia tem sido zapear os setenta e tantos canais da TV a cabo que tenho na minha pousada, em Katmandu.

Nos últimos seis meses, essa é a terceira vez que me hospedo num quarto com TV. E a primeira com canais internacionais. Tive televisão em Chengdu, na China, em setembro. Mas só havia um canal em inglês, o CCTV, controlado pelo governo chinês. Antes disso, em junho, a acomodação que dividi com duas amigas em Vang Vieng, no Laos, também tinha uma telinha. Mas a antena só pegava emissoras locais.

Agora o papo é outro. Tenho CNN, HBO, Cartoon Network, Discovery Channel, ESPN e uma infinidade de canais nepaleses e indianos. Vejo bastante a Al Jazeera, aquela emissora de notícias do Qatar que transmitiu para o mundo os vídeos do Bin Laden depois dos atentado de 11 de setembro.

Tive a felicidade de assistir um dos seis episódios do esplêndido documentário "Himalaya", do escritor, ator e apresentador Michael Palin, ex-Monty Python. Acabei de ler seu livro homônimo e fiquei radiante por poder conferir o trabalho na BBC.

Não sei descrever minha alegria por ter assistido um filme inteiro (aliás, quatro) do começo ao fim pela primeira vez desde que deixei o Brasil. Vejam como foi a história. Eu havia passado o dia com o Fabio, um italiano que conheci no Annapurna. Não lembro como surgiu o assunto "Guerra nas Estrelas". Somos fãs da saga e gastamos bem uma hora falando sobre os personagens e relembrando diálogos.

Contei que um dos meus trechos preferidos é no "Império Contra-Ataca", quando a Princesa Leia (Carrie Fisher) se declara para o Han Solo (Harrison Ford). Ele está prestes a ser congelado numa câmara de carbono, e ela grita:
- Eu te amo

Canalha até na beira da morte, ele responde:
- Eu sei

Comentei com o Fabio que tudo que eu queria naquela noite era chegar na pousada, ligar a TV e assistir "Guerra nas Estrelas". Até vi nas ruas de Katmandu cópias piratas à venda por 200 rúpias nepalesas (5 reais). Pensei em comprar, mas seria inútil pois não tenho DVD.

Vocês vão acreditar se eu contar que, naquela noite, o canal Star Movies exibiu o "Episódio II - O Ataque dos Clones"? Eu tinha batido perna o dia inteiro por Katmandu, visitado uma praça do século 16 tombada como Patrimônio Mundial da Humanidade, entrado em templos e estupas. Mas o highlight do meu dia foi ver um filme repetido, debaixo das cobertas, com a luz apagada.

Deus ainda foi mais generoso comigo. Nos dias seguintes, o mesmo canal os episódios "IV - Uma Nova Esperança", "V - O Império Contra-Ataca" e "VI - O Retorno do Jedi".

Quando eu poderia imaginar que iria atravessar o globo para ficar tão contente com uma coisa que já fiz um milhão de vezes em casa? Vá entender...
Escrito por Marcella Centofanti
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23/11/2007
O melhor sabor da montanha
Durante o trekking do Annapurna, passei por dezenas de vilazinhas. A minha favorita foi Marpha, um lugar de uns 500 habitantes e ruas de 2,5 metros de largura. Marpha é famosa pelo cultivo de maçãs e pelas tortas da fruta assadas em cada esquina. Gostei tanto do doce que pedi a receita para uma simpática nepalesa chamada Shasee (pronuncia-se Saci).



A Shasee é dona do restaurante mais charmoso do povoado, um estabelecimento que anuncia na porta: "Cansado de Nescafé? Oferecemos café preparado com VERDADEIROS grãos". Assim, em caixa alta. Fui para beber uma xícara, mas me encantei mesmo com a torta. Alguns italianos acharam que tinha canela demais. Para mim, estava no ponto.

Cuca de maçã de Marpha

Massa
1 xícara de chá de farinha de trigo
2 colheres de sopa de manteiga sem sal
2 colheres de sopa de açúcar
1/2 colher de chá de fermento em pó

Misture tudo e acrescente um pouco de água. Abra a massa com a mão. Forre-a no fundo e nas bordas de uma assadeira untada de tamanho médio e fundo falso. A massa ficará bem fininha.

Recheio
10 maçãs grandes, descascadas e cortadas em quatro (Enquanto corta as maçãs, deposite os pedaços numa vasilha com água e 1/2 limão espremido. Escorra toda a água antes de acrescentar os demais ingredientes)
10 colheres de sopa de açúcar
2 colheres de sopa de canela em pó
2 colheres de sopa de essência de baunilha

Leve ao fogo baixo mexendo sempre. Quando as maçãs começarem a soltar água, aumente um pouco o fogo. Se as maçãs não forem muito suculentas, acrescente água. Cozinhe por aproximadamente 30 minutos, até o líquido evaporar, deixando um pouquinho de calda. Deposite as maçãs ainda quentes sobre a massa crua.

Cobertura
1xícara de chá de manteiga sem sal derretida
1 xícara de açúcar
2 xícaras de farinha

Misture tudo até ficar com aspecto de farofa. Coloque a cobertura sobre as maçãs. Leve a assadeira ao forno a 200 graus, que não precisa estar pré-aquecido, por 50 minutos. Sirva ainda quente.



Sem duas ajudas preciosas, eu não teria escrito este post. Uma veio do meu amigo Arnaldo Lorençato, editor de gastronomia de Veja São Paulo. Ele é rigorosíssimo para publicar receitas e seria perfeito para me ajudar a traduzir "apple crumble" (cuca de maçã) e encontrar um ingrediente para substituir pó de "custard", que não há no Brasil. Ele sugeriu essência de baunilha.

A segunda pessoa foi minha mãe, Élide, cozinheira de mão cheia que testou a receita duas vezes e fez ajustes até conseguir o resultado perfeito. Ela aumentou a quantidade de manteiga na cobertura, mudou a temperatura do fogo e veio com a história de colocar as maçãs numa vasilha com água. Ela inventou também a versão com açúcar dietético. Disse que ficou uma delícia.
Escrito por Marcella Centofanti
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22/11/2007
Duas semanas de caminhada - Parte II



"Os picos do Himalaia são vistos pelas pessoas que vivem entre eles como lugares terríveis, moradas de deuses invejosos e locais onde os mortos se reúnem. Eu tenho a sensação de que eles estão certos. O que nós sabemos, nós que os romantizamos? Nós que pegamos o avião para vir até aqui e os usamos para provar alguma coisa para nós mesmos, para fincar nossas bandeiras, falar de 'conquista' e depois ir para casa."
Do livro "Himalaya", Michael Palin

Cruzei a passagem de Thorong-La, a 5.416 metros de altitude, admirada com a vista das montanhas nevadas. Fiquei feliz por ter a oportunidade de estar ali. Dá uma sensação de vitória. Mas é bobagem. O ator, apresentador e escritor inglês Michael Palin está certo no que diz acima.

Um dia depois que atravessei Thorong-La, um francês na casa dos 50 anos morreu ali, durante a descida, acometido por mal de montanha (desculpem, é assim que traduz "altitude sickness"?). Duas semanas antes, o mesmo aconteceu com uma garota de 21 anos.

Imaginem, esse povo sai de casa para fazer um dos trekkings mais famosos do mundo e volta num caixão. Eu nem sabia que era tão sério. Após atingir 3.000 metros de altitude, a maioria das pessoas não sobe mais de 400, 500 metros por dia. Junto com os ingleses, subi mais de 1.000 metros em seis horas, sem noção do perigo. Bom, já passou. Estou sã e salva.

Lá do alto de Thorong-La, fiz um vídeo que mostra a paisagem em 360 graus:


Escrito por Marcella Centofanti
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21/11/2007
Duas semanas de caminhada



Numa viagem de um ano, é difícil pegar sempre a estação perfeita. A não ser que você planeje o itinerário meticulosamente e, provavelmente, mude de continente, o mais provável é que encare condições climáticas desfavoráveis em certos períodos. Lembro, por exemplo, da primeira tempestade da maldita monção. Foi em abril, quando eu estava no Camboja. Tomei a água todinha na cabeça. A pior temporada aconteceu entre julho, em Mianmar, e setembro, na China.

Fiz questão de estar ao Nepal na hora certa. Afinal, uma coisa é pegar tempo ruim em Xi'an. Outra, no Himalaia. Com montanha não se brinca. Organizei o roteiro e cortei trinta dias de China para chegar aqui em outubro. O mês dos librianos, no intervalo entre as monções e a neve, é considerado ideal para trekkings.

Quando a chuva finalmente deu uma trégua, em meados do mês passado, parti para meu grande objetivo no Nepal: o circuito de Annapurna. O jornalista Fabio Schivartche, o Xivas, que fez uma viagem parecida com a minha anos atrás, foi quem me botou uma pilha. O Annapurna tinha sido um dos pontos altos das andanças dele pela Ásia.



A galera com quem eu estava viajando não queria fazer o percurso completo. Decidi partir sozinha. Contratei um carregador (O Bishal, um nepalês extrovertido e beberrão de 28 anos) para levar minha mochila e lá fui eu. Seriam duas semanas de caminhada para percorrer os 203 quilômetros do percurso.

Junto com o chamado Everest Base Camp, o Annapurna é o trekking mais famoso do Nepal. Lotado até demais. Grupos de europeus de 40, 50 e 60 anos dominam a trilha. Os tiozinhos usam os equipamentos mais modernos (um tinha GPS), se apóiam em cajados de fibra de carbono e se vestem como se fossem escalar o Monte Evereste. Eu só tinha meu jeans surrado e uma jaqueta falsificada da The North Face, que comprei na China.

Claro que não passei 24 horas sem fazer amigos. Logo no primeiro dia, conheci um casal inglês, o Paul e a Julia, que passou três meses no Brasil em 2004. O lugar favorito deles, Lençóis, na Bahia, é também um dos meus. Foi curioso surgir esse assunto, pois eu havia passado o dia lembrando da minha viagem à Chapada Diamantina, onde fica Lençóis, há três anos.



Conversa vai, conversa vem, descobrimos que fizemos não só o mesmo trekking, mas com o mesmo guia. O Augusto é o guia mais competente, legal e, de quebra, gato de todos os tempos. Quem fez um trekking com aquele argentino sarado (me desculpe, cara platé ia masculina, mas vamos combinar que nossos hermanos são sensacionais) não esquece. Diante de uma coincidência assim, só poderia nascer uma amizade. A partir daquele momento, os ingleses e eu viramos inseparáveis.

Juntos, vimos a paisagem mudar paulatinamente de mata verde para montanhas de picos nevados. O tempo estava perfeito, com céu azul anil. Quanto mais ganhávamos altitude, mais lindo ficava o panorama. Mais tibetano, também. Os refugiados do Tibete, que vieram a partir dos anos 60, ocuparam as ermas e gélidas terras. Nenhum nepalês vivia sob clima tão hostil.

Do quarto dia em diante, tomamos café-da-manhã com luvas, gorro e cachecol. O termômetro beirava o zero grau de madrugada. No oitavo dia, chegamos àquele que é , literalmente, o ponto alto do Annapurna: a passagem de Thorong-La, a 5.416 metros de altitude.



Foi o trecho tecnicamente mais complicado do trekking. Para começar, caminhar a 4.000, 5.000 metros de altitude é outra história. Meu cora ção trabalhava como um doido e meu pulmão parecia pequeno. Além disso, a trilha era sobre neve. Eu nunca tinha pisado em tanta neve e não sabia como era. Na foto é maravilhoso, mas ao vivo um pouco menos romântico. O gelo vira um sabã o e se torna perigoso. Fiquei inveja dos coroas com os cajados.

No próximo post, mostro a vista de lá de cima.
Escrito por Marcella Centofanti
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15/11/2007
Surfista de busão



Ainda tem surfista de trem no Brasil? Pelo que me lembre, não. Quando cheguei no Camboja, em abril, fiquei passada ao ver o povo empoleirado no topo de ônibus e lotações. A cena se repetiu inúmeras vezes em Mianmar e aqui no Nepal.

Sempre achei, é claro, um perigo a galera se espremer lá no alto. Mas o que as pessoas podem fazer? Muitas vezes, não é opção. Simplesmente não há lugar para todo mundo dentro.

Numa viagem entre Katmandu e Besisahar, tive a experiência mais assustadora. O microônibus lotou completamente e não havia espaço nem no corredor. Três caras se penduravam na porta, com o corpo praticamente do lado de fora, se agarrando em duas barras laterais.



Só percebi que havia pessoas no teto quando, numa curva, um sujeito despencou. Caiu de lado e bateu a cabeça violentamente no chão (de terra, ainda bem). Foi um tombo feio. Tomei um susto, achando que o cara tinha se machucado para valer. Felizmente, o homem só sofreu uns cortes nas palmas das mãos.

Horas depois do acidente, ainda impressionada com o acontecimento, tive de tomar um segundo ônibus, agora de Besisahar para Bhulbule. Quando entrei, vi que todos os bancos estavam ocupados. Eu não queria viajar por duas horas de pé, espremida no corredor.

Não demorei dois segundos para encontrar uma saída. Virei as costas, desci do ônibus e olhei para aquele que seria meu assento: o teto. Me pendurei na escadinha acoplada na traseira do veículo e escalei até o topo. Como fui a terceira pessoa a chegar, consegui uma vaga no pneu, único lugar relativamente macio. Praticamente a área VIP.

Aos poucos, outros passageiros começaram a subir, entre eles um casal alemão de uns 40 anos. O número de pessoas no topo chegou a 36. A alemã e eu éramos as únicas mulheres.



Antes de sairmos, o tempo fechou e começou a cair uns pingos. Eu não podia acreditar. Imaginem viajar com uma tempestade na cabeça? Para minha sorte, parou de gotejar depois de uns cinco minutos. Ufa!

Quando partimos, já sem chuva, prendi os pés e agarrei firmemente com as duas mãos no pneu. Eu estava com um medinho, mas, ao mesmo tempo, empolgada com a viagem inédita.
Eu não corria (muito) risco de cair. Havia gente nos meus lados, na frente e atrás. O povo não tem medo e senta na beirada, segurando na grade de uns 30 centímetros de altura.

A velocidade média não passava de 40 quilômetros por hora, bem devagar. Ainda assim, se houvesse um acidente e eu escapasse com vida, acho que no mínimo quebraria uns ossos. Botei fé no motorista e tratei de curtir a brincadeira, sem me preocupar.



Uns cinco minutos depois que o ônibus começou a andar, percebi que o maior risco não era me esborrachar no chão, mas no alto mesmo. Galhos e, principalmente, cabos de alta tensão eram uma ameaça constante. Eu estava sentada de costas para a diante ira do veículo e nem percebi quando o primeiro fio passou uns vinte centímetros acima da minha cabeça.

Sustos à parte, viajar no topo tem outra graça. Como não há bancos nem lugares marcados, as pessoas ficam literalmente mais próximas. O povo divide comida, conversa e dá risada. O mais legal é contemplar a paisagem com uma visão de 360 graus, sem a moldura da janela, sem nenhum obstáculo entre você e o mundo. Agora entendo os surfistas de trem.
Escrito por Marcella Centofanti
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13/11/2007
Eô, eô, tricolor, tricolor!

Passei duas semanas sem acesso à Internet, fazendo um trekking pelo Himalaia. De volta à civilização, fui correndo no UOL e confirmei o que todo mundo já sabia: o São Paulo é penta. Yes!

Desde que parti para a Ásia, há oito meses, o único assunto relacionado ao Brasil que realmente me interessa é futebol. Acompanho as rodadas do Brasileirão, sempre babando com o desempenho do nosso goleiro Rogério Ceni.

Ainda no campo futebolístico, no sétimo dia do trekking, soube por um inglês que vamos sediar a Copa do Mundo de 2014. Fiquei feliz, lógico, mas apreensiva. Será que o país dá conta? Quando surgia esse assunto de Copa no Brasil, meu amigo Rodrigo Brancatelli e eu brincávamos, imaginando uma partida tipo entre Alemanha e Suécia no Canindé.

Não acompanhei o andamento dos jogos Pan-americamos, mas na época li uma matéria no Herald Tribune que falava sobre a desorganização do evento. Ai, ai, ai...
Escrito por Marcella Centofanti
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A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.
 
 
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