Festa numa comunidade budista No penúltimo dia em Sikkim, no norte da Índia, fui a uma celebração budista a convite do Pala, o vovozinho que hospeda estrangeiros em sua casa. O evento, celebrado no dia da lua cheia, era pequeno, só para a comunidade que vive ao redor do lago de Kecheopari. Havia umas cinquenta pessoas.
O que mais gostei é que se tratava de uma ocasião genuína. Não era coisa para inglês ver. Durante a festa, almocei (arroz, sopa de lentilha, carne de soja e vegetais) e vi o Pala dançar, enquanto monges tocavam instrumentos e rezavam. Não entendi o significado da coreografia, mas fiquei emocionada com a devoção daquele homem de 70 anos e a hospitalidade de seu povo. Fiz um vídeo para dividir o momento com vocês:
Vocês acharam os banheiros públicos chineses que mostrei sujos? Eu também. Mas depois que cheguei na Índia mudei de opinião.
Comparado com os daqui, os sanitários chineses são limpos e civilizados como os de um hotel cinco estrelas. Os banheiros indianos não têm porta nenhuma. São assim, abertos, para todo mundo ver. Na foto acima vocês têm uma cena típica da Índia. A combinação urina, vaca e lixo é um clássico.
Neste banheiro abaixo, prestem atenção na cabine do meio. Agachado atrás da Vespa, um tiozinho se alivia tranquilamente.
Apesar dos banheiros públicos estarem por toda parte, a maioria das pessoas faz xixi (para não falar do número dois, que também já testemunhei) no meio da rua, em qualquer lugar, a qualquer hora. É rir para não chorar.
PS: enquanto eu escrevia este post, um camundongo passeava pertinho do meu pé. Quando percebi, pulei da cadeira e saí de perto, exclamando: "Oh, my God!". Os indianos do cybercafé me olharam com curiosidade, enquanto uma francesa de rastafari no cabelo, grávida de uns cinco meses, sentada do meu lado, nem se incomodou. Ela ainda desdenhou minha cena, dizendo que o bichinho não ia fazer nada. Me senti uma patricinha fresca dando faniquito. Aqui na Índia é assim. Se você torce o nariz para a porquice, os ripongos te olham como se você fosse um ET. Tento fazer de conta que não ligo para rato, lixo na rua e esgoto a céu aberto, mas às vezes não consigo. Eu achava que, após oito meses de Ásia, estaria preparada para a Índia. Já não tenho tanta certeza.
Com exceção de chinês, aprendi pouquíssimas palavras nos idiomas asiáticos. É por pura preguiça. Com inglês a gente se vira bem, sobretudo no Nepal e na Índia. No Sudeste Asiático o povo também me impressionou. Qualquer vendedor de comida de rua sabe ao menos os números. Em termos de fluência em inglês, a Ásia dá um banho no Brasil.
Mas voltando à vaca fria, em geral, me dou ao trabalho de memorizar "olá" e "obrigada". Das oito saudações que aprendi até agora, de longe minha preferida é "namaste", usada em hindi e nepali. A palavra vem do sânscrito "namas" (reverenciar) e "te" (você). Ela significa "eu reconheço o divino em você".
Acho uma graça quando as pessoas juntam as palmas das mãos na altura do peito para te cumprimentar. Qualquer pirralho de um aninho e pouco já une as mãozinhas a diz "namate", no jeitinho deles. Adoro!
Aconteceu algumas vezes de eu chegar numa cidade e me perguntar: o que estou fazendo aqui? Era como se eu estivesse no lugar errado. Minha primeira parada na Índia foi um deles. Falo de Sikkim, o segundo menor estado indiano, localizado no cantinho entre Nepal, Butão, Tibete e Bangladesh. Eu tinha ouvido falar maravilhas de Sikkim, que era lindo, tranquilo e pouco turístico. Depois de cinco dias na região, porém, eu ainda não tinha visto nada de especial. A beleza não era impressionante, as cidades eram barulhentas e havia um bocado de turistas.
Resolvi fazer uma última tentativa antes de picar a mula. Meu destino era Kecheopari, um lago sagrado para budistas e hindus. Por recomendação de um amigo israelense, procurei o Pala (o nome significa velho pai, em tibetano), um vovô de setenta anos que hospeda viajantes em sua casa, perto do lago. Foi lá que encontrei o tesouro que caçava.
O Pala (na foto, de chapéu de boiadeiro) é o líder de uma vila de 107 pessoas e dois mosteiros budistas. Ele é uma figura. Durante os anos 70, foi cozinheiro do Dalai Lama, com quem viajou para Tailândia, Japão, Cingapura, Suíça e Holanda. Ele medita uma hora diariamente, antes do amanhecer. Todos os anos, durante dois meses, se recolhe numa caverna e só interrompe a meditação para comer e dormir. Lá mesmo, na caverna.
Em poucos lugares fui tratada com tanto respeito e ternura. O Pala e sua prima cozinhavam, enquanto a filha de 21 anos cuidava da limpeza. A neta de treze e a filha adotiva de seis anos juntavam lenha e acendiam uma fogueira para os hóspedes no fim da tarde, quando a temperatura caía para uns sete, oito graus. Depois do jantar, nos aquecíamos à beira do fogo e conversávamos. De manhã, tomávamos café com vista para a Kanchenzonga, a terceira maior montanha do mundo.
A vila parecia estar sob um feitiço. Pessoas adoráveis, comida deliciosa, vista magnífica, jardim florido... Tudo perfeito. Antes das 6h da manhã, quando eu acordava para ver o sol nascer, o Pala trazia uma xícara de chai (chá preto com leite). No segundo dia, enquanto o sol despontava, um casal de coelhos albinos brincava na grama. Parecia cena de filme.
Passei duas noites na vila mágica. Quando parti com outros hóspedes, toda a família veio se despedir. As quatro crianças nos acompanharam até um pedaço da trilha, como a molecada faz quando não quer que a visita vá embora. Foi um sonho.
Querem saber quanto custava a diária no paraíso? Caiam para trás: 2 reais.
O correio indiano não conhece a fita adesiva Adoro ir ao correio. Cada vez que vou, me livro de pelo menos meia dúzia de quilos na bagagem. Carregar quinze em vez de 21 quilos faz toda diferença. Minhas costas agradecem. Minha mochila também. O zíper da coitadinha ainda não arrebentou (toc, toc, toc) por milagre. Enfio tanta tralha na mala a ponto de não caber mais uma calcinha.
Todos os correios que visitei na Ásia eram relativamente semelhantes. Digo, alguns são mais ágeis (Tailândia e China), outros menos (Camboja). Alguns ficam em prédios charmosos (o central de Saigon, no Vietnã, e imbatível), enquanto outros não têm o menor atrativo. Mas o sistema sempre foi de certa forma o mesmo. Igual no Brasil ou em qualquer outro lugar.
A Índia conseguiu ser diferente. No meu segundo dia no país, fui logo despachar uns livros. Encaminhada ao setor de embalagens, fiquei passada com o que vi. Como achei que vocês não iam acreditar se eu contasse, fotografei o passo a passo.
Depois de ajeitar os objetos numa caixa, o funcionário dá uma dezena de nós com a fitinha verde
Quando o pacote está relativamente firme, ele enrola o papelão com um pedaço de pano e costura cada cantinho
Por fim, para evitar que alguém abra a embalagem, ele lacra a costura
O pacote fica uma graç a. Mas vocês imaginam o quanto demora? Apesar de ter apenas duas pessoas na minha frente quando cheguei, levou mais de uma hora para eu ser atendida. Muita gente cansa de esperar e faz o pacote fora. Tem de ser no alfaiate. Juro.
Minha pesquisa no Google informa que a fita adesiva foi inventada nos anos 40. Alguém precisa avisar o correio indiano.
Cinco pores-do-sol inesquecíveis No meu primeiro dia na Índia, vi talvez o pôr-do-sol mais lindo da minha vida. Estava em Darjeeling, uma cidade de estilo inglês no nordeste do país, naquele miolinho entre Nepal, Butão, Tibete e Bangladesh. Eu não tinha uma câmera (droga!) e tirei uma fotografia apenas na memória.
O cenário era assim: eu estava acima das nuvens, cercada de montanhas verdes. À minha direita, pairava a Kanchenzonga, a terceira maior montanha do mundo, com 8.586 metros (das top dez, agora só me faltam K2 e Nanga Parbat, no Paquistão). O céu estava limpinho e cor-de-rosa. Foi maravilhoso.
Naquele dia, fiz uma lista dos mais inesquecíveis pores-do-sol desta viagem. Perdoem minha falta de habilidade com as lentes. As fotos não fazem jus ao espetáculo da natureza.
Onde: Koh Phangan, Tailândia Quando: Março Porque foi especial: Eu havia acabado de chegar na Ásia e ainda estava assustada com a viagem. Quando vi o colorido refletido no mar, não havia mais ninguém na praia, exceto uma tailandesa com a filha de uns quatro anos. Agradeci a Deus pelo presente.
Onde: Ilhas Similan, Tailândia Quando: Abril Porque foi especial: Estava a bordo do barco onde passei a noite com outros mergulhadores. Se não me engano, eu só havia visto o sol se pôr no mar uma única vez. Foi em Pismo Beach, na Califórnia, em 1995.
Onde: Bagan, Mianmar Quando: Julho Porque foi especial: No auge das monções, São Pedro deu uma trégua. O Daniel, o holandês com que viajei em Mianmar, e eu vimos o céu ficar cor-de-rosa, laranja e roxo. Estávamos sozinhos no alto de um dos principais monumentos de Bagan, um conjunto histórico de 4.000 templos budistas e estupas.
Onde: Base do Monte Evereste Quando: Outubro Porque foi especial: Porque é o Evereste, ora bolas!
A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.