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20/12/2007 |
Volto em duas semanas A redação da revista Criativa, que mantém e atualiza este blog, terá merecidíssimas férias coletivas de 21 de dezembro a 7 de janeiro. Sendo assim, não haverá posts neste período. Isso não significa, porém, que estarei longe. Acessarei o blog com frequência. Vou AMAR receber recados e responderei a todos com o maior prazer. Entenderei, é claro, se ninguém escrever. Imagino que vocês estarão ocupados com as festas e viagens. É a terceira vez que celebro fim de ano fora do Brasil. A primeira foi nos Estados Unidos, em 1995, e a segunda, na França, em 2001. Em ambas as vezes eu estava acompanhada. Nos Estados Unidos tinha amigos e, na Europa, namorado. Agora é diferente. Estou só num país que não festeja Natal ou Réveillon. Não vi uma única árvore iluminada nas cidades em que passei. Há uma máscara de Papai Noel em lojas aqui e ali, para atrair clientes estrangeiros. Mas, no geral, o clima de Natal é zero. Engraçado pensar que, a essas alturas, o Brasil está uma loucura. As pessoas arrumam as malas para viajar, compram presentes de última hora e organizam a ceia. Imagino que o trânsito de São Paulo esteja terrível, como sempre acontece às vésperas de feriado. Aqui na Índia não há nada disso. Os dias 24 e 31 de dezembro são como outros quaisquer. Eu poderia facilmente me esquecer das datas. Mas não consigo. Minha família, amigos, a comunidade blogueira e os gringos que cruzam meu caminho me lembram o tempo todo. Fim de ano é, acima de tudo, um momento para estar com as pessoas que gosto, refletir sobre o ano que termina e fazer planos para o ano que entra. O balanço de 2007 tem sido difícil de fechar. Nesse momento, impossível, eu diria. Foram, sem dúvida, os doze meses mais intensos da minha vida, desde os primeiros dias de janeiro. Muitas coisas aconteceram e ainda estão acontecendo. Tenho acumulado experiências inesquecíveis. Algumas negativas. Um machucado particularmente ainda dói, mas ele há de cicatrizar. Não sei qual será o resultado de tudo o que estou vivendo. Mas uma lição já tirei: sem as pessoas queridas que me rodeiam não sou ninguém. Outro dia, a Julia e o Paul, os britânicos fofíssimos que conheci no Nepal e reencontrei em Varanasi, reclamavam que perderam contato com um monte de gente nos três anos fora da Inglaterra. Não porque querem. Dos melhores amigos do Paul, um único responde seus e-mails. Já a Julia disse que nem sua mãe está interessada em ouvir sobre suas viagens. Quando escuto histórias assim (outros viajantes têm a mesma queixa), entendo como sou abençoada. Família, amigos e tanta gente que não conheço acompanha meu blog com entusiasmo, deixa mensagens e me dá força quando ela me falta. No Natal passado, falei com muitos amigos pelo telefone, disse e ouvi palavras que me emocionaram. Este ano não poderei abraçar ninguém. Mas tenham certeza que pensarei em vocês. Muito. Embora esteja do outro lado do planeta, sinto a presença de muitas pessoas. Sei que, quando nos reencontrarmos, o carinho que sentimos uns pelos outros não terá diminuído um milímetro. Em 7 de janeiro, volto para contar como foi o Natal em Mumbai e o Réveillon em Goa. Feliz Natal e um 2008 maravilhoso para vocês. |
Escrito por Marcella Centofanti
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19/12/2007 |
Os cinco monumentos mais incríveis  Vários gringos na Índia se recusam a visitar o Taj Mahal. Acham turístico demais. O povo torce o nariz quando você diz que vai para Agra ver o monumento. Não me enquadro nessa categoria. Nunca passou pela minha cabeça vir à Índia e não conferir o Taj (vamos chamá-lo assim, abreviadamente, como fazem alguns indianos. Cool, não?). E daí que é turístico demais? Então você não vai a Paris, Veneza ou Rio de Janeiro só porque tem um monte de gente tirando as mesmas fotos que você? É claro que eu adoraria ser a única alma (viva, de preferência) no mausoléu. A multidão - vejam na foto - tira parte do brilho. Mas fazer o que? Não me arrependi nem um pouquinho de ter ido. Posso publicar quantas fotos forem possíveis e gastar meu latim até acabar o vocabulário que não serei capaz de traduzir a beleza da obra. Fiquei enfeitiçada e gastei umas seis horas ali, babando. No Taj, vivi o auge da fama na Ásia. Só por eu ser branca, uma adolescente indiana pediu uma foto e, vejam que coisa, um autógrafo. Eu dei, com dedicatória e tudo. No começo, eu detestava, mas agora estou gostando dessa vida de celebridade. Vou sentir falta quando voltar para a Europa e para o Brasil. ;-) Fiz uma lista dos outros quatro monumentos que mais me emocionaram nesta viagem. Desculpem, mas não consegui evitar o óbvio.  Angkor (Siam Reap, Camboja)  Praça da Paz Celestial e Cidade Proibida (Pequim, China)  Palácio Potala (Lhasa, Tibete)
 Shwedagon Pagoda (Yangon, Mianmar) |
Escrito por Marcella Centofanti
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17/12/2007 |
Um casamento infeliz  Desde que cheguei na Ásia, era doida para ir a um casamento. Morria de curiosidade de ver como budistas e hindus festejavam, o que ouviam, como dançavam (se dançavam), o que comiam, o que vestiam etc. A oportunidade finalmente chegou em Varanasi. Meus novos amigos (que mostrei no post anterior) tinham sido convidados para uma festa, numa segunda-feira à noite. A temporada dos matrimônios iniciou-se em meados de novembro e durou um mês - recomeçará em 15 de janeiro. Baseado no nascimento dos noivos, um astrólogo determina a data do enlace. O povo se casa em qualquer dia da semana, de acordo com a configuração estelar mais propícia. Na véspera da cerimônia, o Govinda perguntou se eu queria ir. Claro que sim! Eu não conhecia a noiva nem o noivo, mas quem se importa? Para minha sorte, o sari que mandei fazer no alfaiate tarado tinha acabado de ficar pronto. Vestida nos moldes indianos, lá fui eu. De bico. Fazia uns treze graus no inverno de Varanasi. Me cobri com um xale (tirei para a foto), mas passei frio no pé. Como não tenho um único par de sapato, calcei minhas Havainas. Ainda bem que o vestido ia até o chão e cobria meus dedos. Adoro meu chinelinho, mas para uma ocasião assim não dá, né? Como sempre, nós estrangeiros fomos as estrelas da festa. Estas meninas pediram para tirar foto com a Jeanne e comigo. Desta vez, eu também quis um clique com elas.  A festa acontecia num espaço a céu aberto de uns 1.000 metros quadrados, com um palco para os noivos e cadeiras de plástico e metal para acomodar os convidados. Não havia mesas. As pessoas comiam de pé ou com o prato no colo. Chegamos tarde, por volta das 21h, e perdemos a entrada do noivo. Quando ele surge, parece que os homens dançam ao seu redor. A noiva ainda não tinha aparecido quando o povo começou a comer. Fui me servir no bufê vegetariano que tinha arroz, pães, legumes com curry, sopa de lentilha e salada crua. Sorvete de baunilha era a sobremesa. No menu de bebidas, nada alcoólico, como manda a religião. Sentei numa cadeira qualquer, quando a Jeanne notou que precisávamos mudar de lugar. Estávamos no lado errado. As mulheres ficavam à direita do salão.  Havia umas 250 pessoas, que entravam e saíam. Para os padrões indianos, tratava-se de uma celebração pequena. Em média, há 700, 800 convidados. O rega-bofe é bancado pelos pais da noiva. Ninguém dançava, segundo o Rakesh, porque o DJ não era muito bom. Diz ele que o povo se esbalda na pista de dança. A propósito, descobri que "Aquarela do Brasil" é música de casamento na Índia. Não nas versões que a gente conhece, com letra. É uma coisa do tipo "Brasil, lá-lá-lá-lá-lá- lá-lá-lá", bem curtinha. Agora entendo porque vários indianos cantarolam a canção quando digo minha nacionalidade. O volume da música só aumentou quando a noiva chegou. Flashes dispararam e pétalas de flores voaram sobre a cabeça dela. Ela vestia um sari vermelho, usava maquiagem carregadíssima e tinha uma argola enorme enfiada no nariz. Não houve contato físico com o futuro marido. Os dois sentaram-se no palco, ele à esquerda, e ficaram imóveis, posando para fotos. O que mais me chamou atenção era o semblante do casal. Não vi um único sorriso. Ela, particularmente, parecia tristíssima, com os olhos fixos no chão. A Jeanne me contou que nunca viu noivos felizes na Índia. Segundo a Ute, eles nem podem sorrir. Como casamento significa ruptura com a família, seria uma ofensa se eles parecessem radiantes.  Ali, porém, não havia fingimento. Como na maioria dos enlaces na Índia e no Nepal, aquele foi arranjando pelos pais. Nesse caso, com um agravante: a moça tem um tipo de retardamento mental. Sua família, mais preocupada com a tradição do que com seu bem-estar, enfiou-lhe uma aliança no dedo mesmo assim. O maior problema é que, de acordo com o costume indiano, a mulher vai viver com os sogros. Em geral, a relação é péssima e a recém-chegada vira a empregadinha da casa. O que vai ser dessa menina sob o teto de gente estranha? Para convencer a família do noivo a aceitar uma nora deficiente, certamente rolou um dote turbinado. Algo como uma casa, um carro. Casar uma filha é caro na Índia. Esse é um dos motivos que leva casais a abortar fetos do sexo feminino. Ou matar as meninas de fome quando elas nascem. No fim, não digo que me decepcionei com o que vi. Mas foi um evento triste. No Brasil, nunca vi um casal infeliz no altar. Alguém aí já testemunhou um casamento estranho assim? |
Escrito por Marcella Centofanti
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14/12/2007 |
Varanasi é a minha cidade

Já aconteceu com vocês de, durante uma viagem, visitar um lugar e em pouco tempo se sentir em casa? Comigo só tinha rolado duas vezes. A primeira foi na Bahia. A segunda, na Itália. Agora, finalmente, chegou a vez da Ásia. O feitiço aconteceu em Varanasi, a cidade onde tive meu pior momento na viagem, como contei no post anterior. Felizmente, deixei de ser perseguida pelo azar e tive dias deliciosos ali. Enquanto ainda me recuperava do estrago no estômago, fiz amizade com indianos e estrangeiros que vivem em Varanasi. Circular com essa galera me fez ver o lugar com os olhos de quem mora, e não de quem visita. Faz toda diferença. Vocês já devem ter visto imagens de Varanasi em revistas e na televisão. As fotografias clássicas são das escadarias à beira do fétido Rio Ganges, onde as pessoas tomam banho, lavam roupa, cremam os mortos e bebem água. Amei gastar horas observando o que rolava na margem do rio. Mas mais do que o comportamento excêntrico das pessoas e as atrações turísticas, gostei de ver a vida como ela é. Nos nove dias que passei em Varanasi, entrei na casa de três pessoas, frequentei dois eventos beneficentes, fui a um casamento (que vai merecer um post) e participei de uma festa de aniversário. Todo dia tinha um café, um almoço ou um jantar com um novo amigo. Vou contar um pouquinho sobre eles.  Aos 22 anos, Papo (pronuncia-se Papu) é pai de um menino de 1 ano. Ele se casou aos 15, num casamento arranjado por seus pais. A noiva, de 13, ele só conheceu na festa. Papo não questionou a decisão dos pais. Era seu dever como o mais velho de dez filhos, acredita ele. Em sua residência, moram treze pessoas. Seu sonho é ter um lar para só ele, a mulher e o filho. Como meu guia, Papo me levou à universidade de quase cem anos e a um templo hindu, onde contou histórias de Shiva, Vishnu e Ganesh.  A Jeanne, uma flautista francesa, é uma das figuras mais adoráveis que conheci na viagem. Ela veio a Varanasi pesquisar música clássica indiana, como parte de seu doutorado, pela Sorbonne. Passou dez meses na cidade e tem mais quatro pela frente. Ela vive com uma família Brahmin, a mais alta casta, numa casa com vista para o Ganges. Jeanne não consegue fazer amizade com mulheres, porque as nativas não lhe dão abertura. Seu círculo social é formado majoritariamente por homens indianos, com quem ela nem sempre se sente à vontade, por não saber qual é a real intenção deles. Quanto mais conhece a Índia, mais estrangeira se acha. Jeanne se sente só.  Rakesh é dono da melhor livraria de Varanasi. Eu passava ali pelo menos uma vez por dia para prosear e folhear livros. Culto e simpático, ele me deu aulas de literatura, cultura e cinema indianos. Segundo o Rakesh, há filmes de arte fora da produção comercial de Bollywood. Ele é supercrítico em tudo que diz respeito ao seu país. Aos 34 anos, continua solteiro, um absurdo aos olhos da comunidade. Perguntei-lhe se o sistema de castas ainda funciona na prática, apesar de ter sido abolido por Gandhi. "Se funciona? E a única coisa que funciona na Índia", respondeu.  Conheci o Govinda, o senhor de roupa laranja, na livraria do Rakesh. Imediatamente, fiquei fascinada com esse canadense que chegou na Índia nos anos 70, como tantos hippies de sua geração, e nunca mais partiu - reza a lenda que ele atirou seu passaporte no Ganges. O Govinda mudou o nome e virou sadhu, um religioso hindu. Por intermédio dele, conheci a Ute, uma enfermeira alemã que circula pela Índia há dez anos. Foi ela quem me socorreu quando eu estava em apuros. Acostumada a medicar gringos vítimas de intoxicação alimentar, a Ute me deu o remédio que me deixou 100%. Em nove meses de Ásia, ela foi a primeira pessoa a me servir uma xícara de café feito em casa. Minha gratidão por ela não tem limite. |
Escrito por Marcella Centofanti
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14/12/2007 |
Do paraíso ao inferno Assim que deixei a terra encantada de Sikkim, mergulhei no meu período mais crítico na Ásia. Uma sucessão de infortúnios me fez, pela primeira vez, querer pegar um avião e voltar para casa. Ou fugir para a Europa. O inferno astral começou com uma gripe forte. A danada chegou com tudo bem no dia que eu faria minha primeira viagem de trem na Índia. Eu levaria quinze horas para desembarcar no meu destino final, Varanasi, aquela cidade sagrada com as escadarias à beira do Rio Ganges. Para chegar lá, teria de atravessar Bihar, um dos estados mais pobres do país. Sozinha, doente e amedrontada, eu era a única ocidental do vagão de terceira classe, lotadíssimo. Duas pessoas se espremiam em cada cama. Passageiros dormiam no chão e no corredor, sobre folhas de jornal. Naquela área ignorada pela maioria dos turistas, eu atraía atenção, sobretudo masculina. Eu tentava ignorar e fingir não perceber, mas, sempre que me distraía, notava ao menos meia dúzia de olhos na minha direção. Me acostumei a ser celebridade na Ásia. Mas na Índia é diferente. Nos outros países, quando você encara de volta, a pessoa tende a desviar o rosto. Aqui, os homens te fitam fixamente, sem a menor timidez. O povo indiano tem o olhar mais profundo que já vi. E há conotação sexual, não só mera curiosidade na atitude dos homens. Me incomoda bastante. Tomei um pote de Tylenol em menos de 24 horas para tentar aliviar a dor no corpo e baixar a febre. Não preguei o olho a noite toda, passando frio naquele trem sujo. Cheguei em Varanasi pela manhã, rezando para encontrar a Julia e o Paul, os britânicos que conheci no Nepal e deveriam estar na cidade. Fiz o check-in numa pousada pequena e desconhecida, fora da área central. Eu queria um canto quieto, para relaxar. Por coincidência, meus amigos estavam hospedados no MESMO lugar que eu. Cruzei com a Julia meia hora depois que cheguei em Varanasi. Não sei descrever meu alívio quando a vi. Eu sabia que me sentiria melhor se encontrasse conhecidos. Descansei à tarde e, à noite, saí para jantar com os dois. Quando voltamos, estava rolando uma festa com o som altíssimo, na frente do meu quarto. Quatro hóspedes de algum canto do leste europeu celebravam um aniversário com funcionários da pousada. Gentilmente, a Julia e eu fomos perguntar para o moço da recepção quando a balada terminaria. Caindo de bêbado, o sujeito foi supergrosso e nem se deu ao trabalho de diminuir o volume. Fui reclamar com o dono, explicando que estava doente, exausta após uma noite sem dormir e precisando descansar. "Se você não está satisfeita, vá embora", foi a resposta do infeliz. O relógio marcava quase 23h00 quando deixei a pousada. Enquanto atravessava a recepção na companhia da Julia, que me ajudou a procurar um lugar para passar a noite, as européias chapadas gritavam para a gente: "Bad karma! Bad karma!". No dia seguinte, os britânicos partiram e fiquei sozinha novamente. Instalada numa nova pousada e quase boa de saúde, resolvi ir às compras. Varanasi é famosa por seus saris de seda. Fui a uma loja típica, com um piso acolchoado onde a gente senta, bebe chá e os homens (nunca vi uma mulher trabalhando nesses lugares) esparramam centenas de tecidos no nosso colo. É divertidíssimo. Eu estava adorando aquele programa, até o momento em que o dono da loja, um cara de uns cinquenta anos, pegou no meu peito. Não foi nem uma nem duas, mas umas cinco vezes. O que mais me deu raiva foi a minha reação: nenhuma. Os indianos são famosos pela falta de respeito com mulheres ocidentais. Um dia antes, a Julia tinha me contado que, numa butique semelhante, um menino enfiou a mão nela, lá em baixo (na f-r-e-n-t-e!), enquanto enrolava um sari na sua cintura. Chocada e sem saber se tinha sido de propósito ou não, ela ficou calada . Falei que, se fosse eu, teria dado um safanão no moleque. Tá... Quando aconteceu comigo, fiquei feito uma tonta, deixando o imbecil passear pelo meu peito à vontade. Senti exatamente a mesma paralisia nas duas vezes em que fui assaltada, em São Paulo. É uma violência tão absurda que me imobiliza. Passei a tarde com nojo do homem e ódio de mim. Coincidência ou não, naquele mesmo dia sofri meu primeiro grave problema estomacal da viagem. Antes de ir à loja, eu já sentia que meu estômago não estava legal. Eu sabia que Varanasi era um dos lugares mais perigosos da Índia para sofrer intoxicação alimentar. Sou supercuidadosa com comida e bebida, especialmente no Nepal e aqui. Há mais de dois meses escovo o dente com água mineral. Sempre desinfeto as mãos com álcool antes de comer. Raramente bebo sucos e como saladas. Jamais como fruta com casca. Apenas frequento restaurantes recomendados por outras pessoas ou guias de viagem. Mesmo tomando todos as precauções, fiquei doente. Após duas semanas na Índia, algum bichinho fez um estrago violento no meu organismo. Pode ter sido um restaurante onde jantei batata com curry -- seu slogan, anunciado na porta, é "We are less dirty". Minha mania de colocar a mão na boca o tempo todo também é arriscada. Em Varanasi, o dia inteiro eu apertava a mão de crianças de rua que me perseguiam, tentando vender velas para eu colocar no Ganges. Depois que voltei da butique do tarado, passei o dia trancada no quarto, visitando o banheiro incessantemente, com crises de vômito e diarréia. Foi horrível, horrível, horrível. Eu não tinha forças para sair e pedir uma xícara de chá. Para piorar, naquela noite faltou luz. Desde que cruzei o Himalaia, acho que não tive 24 horas com eletricidade direto. Todo santo dia tem corte de energia. Imaginem o que é passar a madrugada no banheiro (turco, ainda por cima), com velas e lanterna. Ninguém merece. Viajar sozinha por um ano nem sempre é tão glamoroso como muita gente pode imaginar. Naqueles três dias, tudo que eu queria era ir embora. |
Escrito por Marcella Centofanti
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