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11/01/2008 |
A moda praia russa Meu guia de viagem, a edição de 2005 do Footprint, faz uma definição bastante precisa de Goa, sobretudo o norte do estado: "Hoje em dia, mais do que hippies, você vai encontrar israelenses que acabaram de completar o serviço militar, jovens ingleses que viajam por um ano, russos de classe média-alta e a high society de Mumbai e Delhi". Israelenses, ingleses e indianos não são novidade para mim. Mas russos, sim. Nesses dez meses, tinha tido contato com eles apenas no litoral do Vietnã e em Pequim. Em Goa, eles chamam atenção por serem mais numerosos. Estão por toda parte. Podemos reconhecê-los, primeiro, pela beleza. As russas são as mulheres mais lindas da praia. Segundo, pelo estilo, digamos, excêntrico. A galera nova-rica circula toda trabalhada no ouro e nas pedras preciosas. Para ela, quanto mais grossa a pulseira dourada, melhor. Quanto mais quilates houver no diamante e na safira, mais lindo. Nas areias das praias, os russos são inconfundíveis. Quem mais usaria um cintinho prateado que ainda combina com a pulseira?  Teria garras enormes e pontiagudas assim?  Faria o milagre de caminhar na areia de salto alto?  Os homens também usa uma sunga particular. Confiram a frente...
 ... e o verso |
Escrito por Marcella Centofanti
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10/01/2008 |
Goa não é mais a mesma  Estava curiosa para conhecer Goa. Não sabia o que esperar de um lugar que foi colônia portuguesa por mais de 450 anos, paraíso hippie no fim dos anos 60 e berço do trance, vertente da música eletrônica, no início da década de 90. Meu lado hippie, cada vez mais aflorado na Ásia, queria ver de perto a praia considerada a versão alternativa de Ibiza, na Espanha (nada contra Ibiza. Sei que a fama da ilha é péssima, mas tive dias inesquecíveis ali e sonho em voltar). O sul de Goa, onde passei o réveillon, é relativamente calmo. A baladação concentra-se no norte, em praias como Anjuna, Baga, Calangute e Arambol. No dia primeiro de janeiro, me despedi de Patnem e fui conferir o agito lá de cima. No caminho, iria ao aeroporto pegar o Lorenzo, suíço do cantão italiano com quem viajaria nos quatro dias seguintes.  O Lorenzo é uma dessas amizades de viagem que sobem a serra. Nos conhecemos cinco anos atrás, na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, e nos encontramos várias vezes desde então. Não o via fazia dois anos e meio, mas mantinha contato. Ele foi o primeiro amigo do passado que encontrei em dez meses. Nossa primeira parada foi Panjim, capital de Goa. Eu, que infelizmente não tenho mais paciência de entrar em templo, museu e muito menos igreja católica (principal monumento em Goa), jamais teria incluído a cidade no roteiro. Tudo que eu queria era ficar estendida na areia, fazendo absolutamente nada. Estou cansada de bancar a turista. Topei porque o Lorenzo chegou com aquela ânsia típica de quem passa duas, três semanas de férias e quer visitar cada igrejinha, cada restaurante, cada praia.  No fim, adorei Panjim, sobretudo o bairro antigo com casas e igrejas dos séculos 18 e 19. Um barato ver uma cidade indiana em estilo lusitano. O Lorenzo notou bem: "Uma foto daqui poderia parecer de uma cidade histórica do Brasil". A herança portuguesa está não só no estilo arquitetônico e na religião, mas em nomes de ruas e comidas . Uma das receitas goesas é uma espécie de pão de leite que se chama... pão, ora, pois! A capital de Goa é um dos lugares mais civilizados que vi na Índia. Seu trânsito é organizado com placas (inclusive de proibido buzinar), lombada e semáforo. Fiquei besta de ver ruas com mão e contramão. Na cidade, tive a deliciosa oportunidade de falar português com indianos. Eles carregam sotaque de Portugal e usam termos como "largar" em vez de "partir".  Passei um só dia em Pajim antes de seguir com o Lorenzo para o litoral norte. Que horror... Pilhas de lixo nas praias, cocô de vaca na areia, construções horrorosas à beira-mar e drogas em excesso. Coitada dessa horda de turistas europeus que compra pacote de ano-novo e volta para casa depois de uma semana, sem ver mais nada. Nego que pega avião para desperdiçar preciosos dias de férias no norte de Goa devia pedir reembolso para a agência de turismo. Depois de conhecer as praias renomadas, cheguei a engatar aquele discurso (que detesto): "Ah, Goa não deve ser mais a mesma...". Cadê o ambiente que encantou estrangeiros nos anos 60, 70 e, mais recentemente, 90? Refleti a respeito. É obvio que Goa não é mais a mesma. Ninguém é igual depois de dez, trinta ou quarenta anos. Eu não sou, vocês tampouco. Muito menos será uma região por onde passam tantas e tantas pessoas de todas as partes do mundo. Assim que o Lorenzo embarcou para Zurique, peguei minha mala e voltei para o menos badalado sul do estado, onde meus únicos compromissos nesses dias de céu azul são fazer ioga ao acordar, caminhar na areia no pôr-do-sol e jogar xadrez com meu parceiro inglês à noite. Nos intervalos, leio meus livros, escrevo meu diário e bato papo com os bonitões da Cachemira. Anos 60, que nada. Estou feliz no aqui e agora. |
Escrito por Marcella Centofanti
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09/01/2008 |
O rígido código moral da Ásia Uma das melhores coisas de chegar em Goa foi ter liberdade para me vestir. Desde que cruzei o Himalaia, preciso me cobrir feito uma muçulmana cada vez que piso para fora do quarto. Minhas saias e calças, invariavelmente folgadas, vão até o tornozelo. Jamais uso decotes ou deixo os ombros à mostra. Em geral, ainda acrescento um xale para cobrir o peito. O objetivo é passar o mais despercebida possível e evitar olhares. Como é gostoso, agora, pôr um biquíni e não me preocupar em mostrar pernas e braços. Não que as mulheres tenham paz completa em Goa. Indianos pentelhos tiram foto e filmam a gente na areia. Tento ignorar. As indianas entram no mar de roupa. Uma ou outra, mais moderninha, coloca um conjunto de short e regata. Lembro de uma foto da minha avó Olívia na praia, acho que nos anos 40, com um modelo semelhante.
 Aparentemente, relaxei demais. "Você esqueceu que está na Índia", bem observou a Luísa, uma paulistana nota 10 que conheci em Goa. Dia desses, saí só de biquíni numa ruazinha à beira-mar. Estava a uns trinta metros da praia, quando uma jovem indiana, de sari, me deu um pito. "Por que você se veste assim? Você não tem uma canga? Isso é um insulto para as mulheres". Pedi desculpas e voltei para a pousada, chateada. No caminho, encontrei o Omar, meu amigo muçulmano da Cashemira, e chorei as pitangas. Ele tentou me consolar, dizendo que a maioria das pessoas não se importa. Mas a mulher se incomodou. E o que ia dizer? A Índia é moralista ao extremo e eu passei dos limites mesmo.
Desde que cheguei na Á sia, percebi que o traje era conservador. Fora das grandes cidades e das praias tailandesas, não convém circular com roupa curta e agarrada. Me lembro de ter quebrado o protocolo três vezes. A primeira foi no Camboja. Às vésperas da monção, fazia mais de 40 graus, sem brisa nenhuma. Fiz um passeio de bicicleta de legging e top. Nossa... Fui alvo de infinitos olhares de reprova ção.
Eu só podia ficar à vontade na pousada. Fazia tanto, tanto calor que eu usava apenas uma canga. O Chris, o neozelandês com quem viajei na Tailâ ndia e no Camboja (um dia ainda conto sobre ele, meu "namorado de viagem"), sempre me reprovava. Há umas duas semanas, inclusive, ele me perguntou por e-mail: "você ainda circula por aí com uma canga enrolada no corpo e nada mais?".
Aprendi a lição e me comportei até chegar em Mianmar, onde errei pela segunda vez. Um dia, a caminho do cyber café, coloquei um short. Foi uma das poucas vezes que caminhei sem a companhia do Daniel, o holandês com quem viajava por lá. Isso deve ter contado também. Em Mianmar, onde há uma miscigenação com os povos indianos, os homens são mais ousados. Mexeram comigo até. Nunca mais saí descoberta.
 Minha terceira gafe, por fim, foi no Tibete. A Fay, minha amiga chinesa, tinha me dado uma frente- única de crochê. "Eu adoro esse top, mas não posso usar na China. Leva para o Brasil", ela disse. Se ela não podia vestir em Pequim, por que eu poderia em Lhasa? Não sei onde estava com a cabeça quando circulei com a blusa numa casa noturna (na foto, fazendo gra ça com a Sofy, israelense, e o Travis, americano). Os chineses e tibetanos faziam grupinhos para cochichar sobre meu figurino. Morri de vergonha. Depois, contei para a Fay e ela me chamou de louca. Eu não imaginava que me adaptar aos costumes locais seria tão difícil. |
Escrito por Marcella Centofanti
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08/01/2008 |
Réveillon em Goa Feliz ano-novo! Depois de duas semanas da férias, estou de volta, cheia de histórias. Embora não tenha postado nesse período, minha cabecinha estava a mil, bolando posts interessantes para o blog. Aos poucos, vou contar como foi passar o Natal sozinha em Mumbai, trabalhar como figurante num filme de Bollywood e visitar Goa, ex-colônia portuguesa na Índia. Em Goa, a propósito, fiz um ensaio de moda praia imperdível. Vocês vão se deliciar com os modelitos dos turistas russos.
Vou começar pelo réveillon. Ano-novo sempre foi um dos meus feriados favoritos. Adoro passar a data na companhia de pessoas queridas, com bagunça, música e banquete farto. Cumpro todos os rituais supersticiosos , da calcinha nova à lentilha. Desta vez, não poderia ser diferente. Eu queria agito. E praia.
 Acho que não falei aqui, mas a Ásia não é lugar de festa. Tirando Bangcoc, o sul da Tailândia e uma cidade ou outra, tipo Hong Kong (Tóquio também deve ter uma cena noturna fortíssima), o resto do continente é fraquinho, fraquinho. Fui a boates na China com infra-estrutura impecável em sistema de som, arquitetura, iluminação etc. O problema é que asiático não sabe festar, pelo menos não no nosso conceito. As pistas de dança, por exemplo, são minúsculas, porque o povo prefere ficar sentado.
Na Índia, onde as pessoas chacoalham o corpo com mais naturalidade, esbarramos no machismo. Nos bares e clubes só circulam homens. Para cada mulher deve ter uns oito caras. Sem exagero . Moça de família, afinal, não frequenta esses ambientes.
Acabei me acostumando com o ritmo diurno do continente. Hoje, acho normal ir para a cama às 22h. Mas, peraí, réveillon e réveillon. Merece uma baladinha. No sul da Ásia, as maiores celebrações de ano-novo acontecem em três lugares: nas ilhas da Tailândia, em Bali (Indonésia) e em Goa. Não pensei duas vezes na hora de escolher meu destino para o dia 31 de dezembro.

Passei o réveillon com a Julia e o Paul, o casal inglês que conheci no Nepal e reencontrei em Varanasi, e mais dois amigos ingleses deles, a Carrie e o Owen (os dois na foto, com a Julia, à direita). Patnem, a praia que eles escolheram no sul de Goa, era uma delícia. Havia o equilíbrio ideal de gente, nem muita, nem pouca. Gostei da paisagem, com coqueiros e construções rústicas à beira- mar, sem bares e pousadas de alvenaria. A praia era pequena. Vinte minutos de caminhada cobria sua extensão de ponta a ponta.
Adorei também os vendedores das lojinhas. O comércio do sul de Goa é dominado por jovens muçulmanos da Cachemira. Eles são, de longe, os homens mais bonitos que vi na Ásia. Um sujeito típico é alto, moreno, encorpado, de rosto anguloso e nariz proeminente. A feição é já bem árabe. Um espetáculo.
Quando cheguei, me dei conta que pisei na areia pela última vez em maio, no Vietnã. Caramba, sete meses atrás... Acho que nunca tinha passado tanto tempo sem ver o mar. O ponto negativo foi perceber o resultado de nove meses sem dieta e exercícios físicos. Nos últimos quatro, cinco anos, eu era o exemplo da academia. Não faltava nem se estivesse doente. A dieta era rigorosamente a mesma dia após dia. Gastava uma grana em suplementos alimentares, comia religiosamente de três em três horas e não punha porcaria na boca. Na virada de 2006 para 2007, corri a São Silvestre. Estava em forma quando cheguei na Tailândia, em março.
Mas a falta de disciplina foi se instalando. Sob a desculpa de provar pratos novos, a dieta ficou para trás. Atualmente, meu mandamento é comer comida gostosa. Dane-se se é gordurosa ou não. Embora tenha tempo de sobra, ginástica nunca mais fiz. A conta chegou. No lugar dos meus parcos músculos, instalou-se uma flacidez horrorosa. De roupa ainda engano, mas o biquíni é implacável. A situação está grave.
Na noite de réveillon, decidi dar um leve upgrade. Bom, com os parcos recursos que tenho. Amarrei uma canga branca no corpo, coloquei um colar de pedras e fiz um arranjo no cabelo com a flor mais barata que tem, uma branquinha. Paguei 70 centavos de real num fio com um metro e meio da tal flor e enrolei num coque. Aprendi com as goesas.
Egotrips à parte, havia, definitivamente, clima de ano-novo em Goa. No dia 31, após o pôr-do-sol, as pessoas já começaram a soltar fogos de artifício. Os gringos jantavam em mesas armadas na areia e iluminadas à luz de velas. No mesmo esquema, nós cinco comemos peixe e lagosta. Pedi também uma sopa de lentilha. Bebemos vinho indiano, vagabundo. Não havia espumante.
Lá pelas 22h30, fomos para a praia vizinha, Palolem, a mais animada da região. Estava abarrotada de estrangeiros e indianos, sobretudo jovens, muitos já bêbados. O glamour era zero, mas pelo menos havia festa. À meia-noite, os fogos estouraram. Com intervalos, deve ter durado uns dez minutos. Não era lá grande coisa, mas deu pro gasto. Nos abraçamos e desejamos felicidades uns aos outros.
Dividi minhas uvas com um coroa solitário inglês, a quem também ensinei a pular as sete ondinhas. Enquanto eu chupava minhas sete sementes de romã, um indiano de uns 40 anos, sóbrio e bem apessoado, puxou conversa. Queria saber meu nome, minha nacionalidade e aquele blá-blá-blá de sempre. Perguntou se eu era casada. Menti que sim. Ele disse que, então, me deixaria, porque tinha se interessado por mim. Fiquei pasma com a objetividade. Um menino alemão sentado ao lado, que escutava a conversa, estava igualmente perplexo. Engatamos um papo e ele acabou comendo as romãs também.
As festas rolavam em vários pontos da praia. Eu, que não tomava um pileque fazia mais de um semestre, senti os efeitos do vinho ruim. Antes das 3h da manhã, joguei a tolha e caí na cama. Nem esperei o sol nascer, como fizeram a Julia e o Paul. Que amadora, já fui melhor. |
Escrito por Marcella Centofanti
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