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25/01/2008 |
Qualquer país é legal Indiano adora puxar conversa, sempre com as mesmas perguntas: De onde você é? Qual é seu nome? Você é casado/a? No início, achava que eles simpatizavam com o Brasil. Toda vez que dizia minha nacionalidade, eles comentavam: "Nice country". Dias desses, quando o taxista perguntou meu país, respondi: -- Adivinha! -- Adivinha... Nice country |
Escrito por Marcella Centofanti
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23/01/2008 |
Um amigo de 77 anos Nos últimos dez meses, viajei com todo tipo de gente: doida, festeira, perdida, esotérica, estressada... Cada dia tenho uma surpresa. Uma das minhas companhias preferidas é a de pessoas engraçadas. Posso estar num fim de mundo, num buraco qualquer esquecido por Deus, mas, se tiver alguém divertido ao lado, vou viver bons momentos. Embora não seja piadista - infelizmente, não nasci com esse talento -, adoro rir das piadas dos outros. Bom humor é uma das mais nobres qualidades. Vida longa a Alvo, Francisco, Erika, Mauro, Regis, Brancatelli, Julliano, Juliana e Daniel, amigos cômicos que me arrancam gargalhadas. Na Ásia, tive a fortuna de cruzar com figuras engraçadas. A maioria era de origem britânica ou irlandesa, para mim, os povos mais divertidos do planeta. Um deles foi o David, o escocês de 77 anos que mencionei no post anterior. Nos quatro dias que passamos juntos, eu ria até doer a bochecha com comentários do tipo: - A sala da minha amiga é tão pequena que você não pode pegar um gato pelo rabo e girar no ar. Não é um exemplo perfeito para descrever um ambiente minúsculo? Anotei, porque ainda vou usar um dia. Essa frase aqui também, que ele falou porque a ligação estava horrível: - De onde você está telefonando, da lua?
 O David foi meu cicerone em Udaipur. Todo mundo o conhece na cidade, onde o chamam de titio. "Ainda bem, porque uma época me apelidaram de vovô", resmungou. Juntos, visitamos monumentos e fomos às compras. Quando mandei fazer um short no alfaiate, o David queria que o comprimento batesse no joelho. Insisti para que o tecido terminasse no meio da coxa, e ele soltou um: "Que vulgar!". Quando escrevo, não soa hilário como pessoalmente, ao ouvir aquele velhinho finíssimo exclamar em sotaque escocês: "How vulgar!", com uma mão na boca e outra no peito. Todo fim de tarde, a Renee e eu íamos à haveli (residência típica do norte da Índia e do Paquistão, com um jardim interno) de nosso anfitrião, onde ele nos servia gim tônica. Em vez de limão, o drinque era preparado com uma rodela de pepino. Virei fã da versão. Num encontro que invadiu a noite e secou uma garrafa de gim, meu novo amigo contou histórias de sua vida. Falou das mansões que decorou na Inglaterra e na Itália e das pessoas famosas que conheceu no restaurante onde trabalhava como garçom, em Londres, antes de se inventar como designer de interiores. Aqui e ali, incluía um de seus bordões preferidos, "Deus ajude". Para mim, ele fez assim: - Então, aos 29 anos você e solteira e desempregada? Deus te ajude. Na ocasião, estava presente também o Hament, um joalheiro, único indiano de Udaipur que entende as palhaçadas do David. Aquela noite foi uma das mais memoráveis que tive na Índia. Enquanto conversávamos ao som de Elton John ("Não é a cara dele ouvir Elton John?", sussurrou a Renee no meu ouvido), eu pensava como uma reunião inesperada pode ser tão deliciosa.
 Vejam que coisa: um gentleman escocês de 77 anos, um joalheiro indiano virgem de 31 anos, uma dinamarquesa de 20 anos que ainda não entrou na faculdade e eu. Encontros assim só acontecem em viagens. No nosso cotiano, em casa, a gente tem amigos, familiares, laços afetivos. Não precisa se abrir ao mundo e descobrir que pessoas completamente diferentes de você podem tocar sua vida. |
Escrito por Marcella Centofanti
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21/01/2008 |
A porção encantada da Índia Quando o trem desacelerava rumo ao seu destino final, a Renne, dinamarquesa que eu havia conhecido no embarque, em Delhi, disse: "Estou curiosa para ver a Índia dos contos de fadas". Chegávamos a Udaipur, no Rajastão, noroeste do país. Homens de turbantes coloridos montados sobre camelos, mulheres cobertas em pratarias pesadas, marajás a disputar partidas de pólo em seus palácios... Essa face da Índia fica no Rajastão.
Às 8h30, fazia uns 15 graus - alívio para quem pegava 6, 7 graus na madrugada de Delhi - e o sol ainda não havia dissipado a neblina completamente. Antes de procurar acomodação, corri para ver o Lago Pichola, cartão-postal de Udaipur. No meio do dele, lá estava o Lake Palace, do jeitinho que assisti no filme "007 contra Octopussy". Construído em 1746 como residência de verão do marajá Jagat Singh II, o prédio hoje abriga um dos mais célebres hotéis de luxo do continente. O palácio de mármore branco cobre a superfície de uma ilha e parece flutuar como um navio.
 Ele está no livro "1000 lugares para conhecer antes de morrer". Mas não posso dizer que tiquei esse item, porque, afinal, só vi o edifício do lado de fora. Como sua diária não é para meu bico, me contentei com uma pousada na beira do lago, com vista para a ilha. Essa, sim, bem adequada ao meu bolso: 7 reais. Ainda saía pela metade do preço porque eu dividia o quarto com a Renee. O lago rodeado de colinas e palácios dá a Udaipur a reputação de um dos lugares mais românticos na Índia. No meu ranking, a cidade está entre as mais encantadoras da Ásia. Não só pela atmosfera de sonho. Como sempre, são as pessoas que dão cor ao meu cotidiano e deixam marcas na minha trajetória.
Horas depois que cheguei na cidade, topei com um dos personagens mais curiosos da viagem. Decorador (ou designer de interiores, como ele prefere) escocês, o David vive entre Udaipur e Londres há 14 anos. Fiquei fascinada por ele, principalmente, porque nunca tinha tido um amigo com tanta diferença de idade. O David tem 77 anos. Nos conhecemos numa joalheria de uns 3 metros quadrados, onde eu procurava uma tornozeleira. Nosso santo bateu de cara. Pelos quatro dias seguintes, seríamos unha e carne. Apesar das quase cinco décadas que nos separam, conversávamos de igual para igual. Ele é mega jovem. Mas sobre o David vou contar no próximo post. Este texto vai ficar longo demais se eu começar a contar sobre meu novo amigo. Por enquanto, mais uma foto da Índia dos contos de fadas, esta de um templo jainista, perto de Udaipur:
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Escrito por Marcella Centofanti
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17/01/2008 |
Dois segundos de fama em Bollywood 
"Você quer ser estrela de Bollywood?" Foi assim que um produtor da indústria cinematográfica indiana me abordou na véspera do Natal, em Mumbai. Eu tinha ouvido falar que estrangeiros recebiam convites para atuar como figurantes de filmes na cidade, mas não imaginava ser assediada tão rápido. O carinha veio conversar comigo assim que pisei na recepção do albergue, ainda com a mochila nas costas. A proposta não era lá muito tentadora. Eu teria de trabalhar das oito da manhã às dez da noite em troca de 500 rupias, ou 22 reais. Em pleno 25 de dezembro. Topei porque conhecer os bastidores de Bollywood me interessava. E porque não tinha nada melhor para fazer. Na manhã seguinte, o moço passou para me pegar. Num grupo com mais seis estrangeiros, cheguei ao estúdio depois que o motorista dirigiu por cerca de uma hora. Na minha mente fantasiosa, eu tinha a fotografia de um portão enorme, dourado, bem cafona. Em algum lugar estaria escrito "BOLLYWOOD", em letras garrafais. Fãs esbaforidas esperariam com uma câmera numa mão e um bloquinho na outra. Quando uma celebridade quase as atropelassem com seu carrões de vidro fumê, elas dariam gritinhos eufóricos. Tsc, tsc, tsc... Três guardinhas controlavam uma cancela sem graça. Fora eles, não havia viv'alma. Depois de cruzar o portão, o motorista dirigiu por mais cinco minutos numa rua arborizada até chegar ao set de filmagem. O lugar onde gravaríamos não era estúdio, mas uma escola de cinema. A recepção do prédio seria a locação do pretenso escritório canadense onde a cena se passava.

Conduzidos ao camarim, fomos maquiados. As duas cabeleireiras, únicas mulheres no staff de umas cinquenta pessoas, fizeram uma escova toda armada que me deixou parecendo personagem da série "As Panteras". Perguntei se o filme era ambientado nos anos 70. Não. O penteado é moderno para os padrões indianos.
Nosso figurino compunha-se de roupinhas de escritório. Terninhos, tailleurs e tal. Sem graça. As outras meninas e eu ficamos decepcionadas. Esperávamos participar de uma cena com as famosas danças, nem que fosse pra gente ficar láaaa longe. Queríamos vestir saris e bijuterias enormes. Ao fundo, imaginávamos um cenário coloridão. Que nada...
Recebemos nossas atribuições. Duas polonesas ficariam sentadas num sofá. Um israelense e uma inglesa conversariam ao fundo. Minha participação era a mais rápida e complexa: eu teria de atravessar a sala. Me deu frio na barriga. E se eu desse uma tropeçada? Foi a primeira vez que calcei um salto desde que saí do Brasil. Parecia estranho caminhar sobre um sapato apertado, depois de dez meses andando de chinelo e tênis.
O circo parecia estar armado, com luzes montadas, câmeras posicionadas e staff pronto para entrar em ação. Enquanto aguardávamos o início das filmagens, a inglesa e eu fomos nos refrescar do calor de 27, 28 graus no lado de fora do prédio. Trocávamos impressões sobre o víamos quando ele apareceu e chamou nossa atenção. Shahid Kapoor, 26 anos, é o galã do filme .

Celebridade tem a mesma atitude em qualquer lugar do mundo. Não precisávamos conhecer seu rosto ou seu nome para saber da sua fama. Pelo ar ligeiramente esnobe com que falava no celular, o meio sorriso que nos dirigiu quando notou ser foco do nosso olhar e a presença dos dois serviçais que o seguiam, percebemos que era Shahid Kapoor que esperávamos para começar a gravar.
Entrevistei um bocado de famosos e aprendi a me sentir à vontade diante da maioria deles. Quando não consigo, tento fingir. Na verdade, super astro não é o tipo de pessoa que mais gosto de entrevistar. Muitas vezes prefiro conversar com anônimos que não têm gargalhadas falsas, respostas prontas e um sorriso armado para os fotógrafos.
Mas não é porque eu não me deslumbre com o mundo das celebridades que eu seja imune a ele (essa eu tirei de "Shantaram" , autobiografia do fugitivo australiano que virou mafioso em Mumbai). Ficar cara a cara com o ator mexicano Gael Garcia Bernal, por exemplo, definitivamente não é como sentar-se diante de um zé-ninguém.
O mesmo valia para o mocinho de Bollywood. Ele me causou uma impressão. Perguntei pro Fahid, assistente de direção com quem fiz amizade: "Ele é muito, muito famoso?" E o Fahid: "Ele é okay famoso. Mas é queridinho do Shahrukh Khan".

Ei-la, a estrela máxima de Bollywood. Qualquer película protagonizada por Shahrukh Khan, 42 anos, é sucesso de bilheteria. Assisti a última, "Om Shanti Om" (ir ao cinema na Índia e programa imperdível. O povo fica de pé para cantar o hino nacional antes da sessão começar). Shahrukh Khan faz aquele gênero feio-bonito. Ele tem carisma e sabe atuar. Seu rosto está em outdoors, revistas e televisão, a anunciar de carro a complexo vitamínico. Acima de dele, só há um nome: Amitabh Bachchan, ou Big B, como o chamam . "Shahrukh Khan é o número um. Amitabh Bachchan, uma lenda vida", definiu um indiano que trabalhava como figurante no set.
Sem celebridades de tanto peso, as gravações do nosso filme começaram, pouco antes do meio-dia. Assim que o diretor gritou "Silence... And action!", atravessei a sala. De novo. De novo. De novo.

Para cada ângulo, repetíamos umas quatro vezes a mesma história. Levou o dia inteiro para filmar uma cena que deve durar no máximo dois minutos na telona. Mas não fiquei entediada. Nos intervalos, observava o que se passava e conversava com maquiador, figurantes, produtores e o Fahid.
Para minha surpresa, o segundo ator mais importante do filme, Vishal Malhotra, veio puxar papo três vezes. Simpaticíssimo, quis saber quem era e o que fazia na Índia. Contei sobre minhas andanças pela Ásia. Ele, sobre sua carreira de dez anos. O Vishal me apresentou um fotógrafo de moda que, uau, acaba de voltar de Paris, onde fotografou a Angelina Jolie para a revista "Glamour".
As gravações terminaram às 19h, com um delicioso bolo de chocolate para comemorar os 60 anos do diretor Aziz Mirza. Quando lhe desejei felicidades, ele me deu um beijinho na testa e disse: "Deus te abençoe". O Fahid me deu seu telefone e disse para nos encontrarmos no ano-novo, em Goa.
Parti imaginando se o filme será aclamado pelo público e pela crítica. Tomara que sim. Seu título é "Kismat Konnection" -- numa tradução livre, algo como "Conexão do Destino". Ele deve ser lançado em abril ou maio. Se minha participação especial não for cortada, devo aparecer em cena por dois segundos. Mal posso esperar. |
Escrito por Marcella Centofanti
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16/01/2008 |
Marchinha de carnaval em Mumbai De tempos em tempos, ouço músicas brasileiras em rádios, bares e restaurantes na Ásia. O ritmo mais comum é bossa nova. Inúmeras vezes escutei canções de Tom Jobim e João Gilberto, interpretadas por eles ou outros artistas. Bossa nova era, particularmente hit nas praias tailandesas.
Houve casos menos óbvios. Um bar em Vang Vieng, no Laos, tocava "Dançando Lambada", do Kaoma (lembram?). Em Zhongdiang, no platô tibetano, ouvi "Tenho Sede", de Gilberto Gil, naquele disco "Acústico". Na Índia, como contei no post sobre Varanasi, "Aquarela do Brasil" é música de casamento. E toque de celular, como soube posteriormente.
Mas a surpresa maior aconteceu em Mumbai. Prestes a embarcar para Goa, eu escolhia um protetor solar numa farmácia e cantarolava "I Will Survive", que tocava na rádio indiana, quando a canção seguinte me emudeceu. Não podia acreditar no que estava ouvindo:
"Mamãe eu quero Mamãe eu quero Mamãe eu quero mamar..."
Como assim?? Olhei para os lados para ver se algum outro ser entendia o que estava acontecendo, mas ninguém parecia prestar atenção na trilha sonora. A emissora tocou a marchinha inteira e eu ri sozinha.
Uma das coisas ruins de viajar só e não ter companhia para dividir piadas. Rir com alguém é mais gostoso. |
Escrito por Marcella Centofanti
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15/01/2008 |
Sozinha no Natal Antes de descer para Goa, passei quatro dias em Mumbai. Faz um tempinho, mas não posso deixar de registrar o Natal. Cheguei na cidade no dia 24 de dezembro, ao amanhecer, depois de viajar 1.200 quilômetros de trem. Estava crente que celebraria a data com a Marilda, uma gaúcha amiga de um amigo de um amigo de uma amiga (confuso, mas verdade). Ela vive em Delhi e deveria aterrissar em Mumbai no mesmo dia que eu, vindo do Laos.
Antes de procurá-la, eu precisava arrumar um canto para ficar. Mumbai é um dos lugares mais caros da Índia. Se meu budget médio é de 7 a 10 reais por dia, ali seria difícil encontrar algo por menos de 25. Por sugestão de um israelense - eles sempre sabem as melhores barganhas -, procurei o albergue do Exército da Salvação. Custava 7 reais e incluía café-da-manhã. "É a salvação do bolso", disse o Alexandre, um gaúcho que conheci naquela tarde.

Nunca tinha ficado em albergue antes de vir para a Ásia, e a idéia não me apetecia. Mas, depois da China, onde praticamente só usei esse tipo de acomodação, mudei de opinião. Há albergues sensacionais, com restaurante, bar, salas de TV e de jogos, lojinha, agência de viagem, salão de beleza e cyber café. Quartos, alguns com ar-condicionado, e banheiros são limpos e confortáveis.
Acima de tudo, albergue é um ótimo lugar para fazer amizades. Conheci a Sofy, israelense, e o Ronni, holandês, de quem já falei algumas vezes, num deles, em Pequim. Nós três dividimos o quarto por umas quatro, cinco noites. Passávamos a madrugada de pijama, conversando e dando risada. Lembrei-me da adolescência, em Mogi das Cruzes, quando dormia na casa das amigas (Dê, Pri, Jana e Sá, vocês estão aí?).
Infelizmente, a hotelaria indiana não chega aos pés da chinesa. Muvucado, meu quarto no Exército da Salvação tinha dez mulheres - claro que aqui há divisão por sexo. Os beliches eram de quinta, daqueles que, quando a gente muda de posição, a cama inteira balança. Não havia lençóis, fronhas ou toalhas. Só um colchãozinho e olhe lá. Um fio de varal atravessava o quarto, com roupas e toalhas penduradas. Para vedar as janelas, com vidros quebrados e jamais substituídos, usaram pedaços de papelão, colados com durex. Mesmo assim, pombos passavam pelos vãos.
Faço super o gênero "amiga dos animais", mas não su-por-to pombo. Visão do inferno é aquela cena clássica da Praça São Marco, em Veneza, onde o povo se cobre de milho para atrair as aves, que pousam nos braços e na cabeça do infeliz para comer. Urgh! Igualmente nojento era aquele bando de ratos voadores a espalhar cocô pelo quarto e pelo banheiro do Exército da Salvação. Uns australianos e um inglês que também se hospedavam ali apelidaram o albergue de "Prisão". Fizeram até uma comunidade no Facebook com o nome.
Depois do check-in na Prisão, fui à procura da Marilda. Na internet, qual não foi minha surpresa ao descobrir que ela não vinha mais para Mumbai? Seu vôo tinha mudado de rota e seguido para Delhi. Ela mandou um e-mail do aeroporto, toda preocupada.
Desencanei de qualquer celebração de Natal. Numa boa. À noite, no albergue, rolava uma missa para refugiados nepaleses e tibetanos. Como não é exatamente meu tipo de programa, saí para caminhar nas redondezas. Uma das coisas boas da Prisão é sua localização, a um quarteirão do mar e na frente do Taj, o hotel mais luxuoso de Mumbai (foto), o que lhe dá segurança. Às vezes, eu ia ao Taj para desfrutar o ar-condicionado e usar o banheiro do lobby, mais limpo e perfumado que o do Exército da Salvação.

Ao passar em frente ao hotel no passeio, ouvi um piano. Ao entrar, encontrei um indiano tocando no saguão. Sentei num sofá ao seu lado para ouvir a música, enquanto atualizava o diário. Não consegui me concentrar quando ele tocou "Tema de Lara". Amo "Doutor Jivago" e sua trilha sonora. Elogiei o pianista e engatei uma longa conversa com ele.
Entre uma canção e outra, o músico simpaticíssimo me contou um pouco de sua história. Ele tinha 68 anos e se chamava Ivan. Indiano de nome russo? "Meu pai admirava Stalin". Tem gosto para tudo. Ivan é autodidata no piano. Naquela noite, seu repertório incluiu "Moon River", "Let's Fall in Love" e "Fly Me to the Moon". Para duas crianças, tocou "Jingle Bells". Em minha homenagem, escolheu "Corcovado" e, lógico, "Garota de Ipanema". Um dos meus pedidos foi "As Time Goes By".
Eu lhe disse que aquela ocasião seria inesquecível para mim, por ser Natal. Ele ficou com dó de me ver sozinha e perguntou: "Quer almoçar comigo e com minha mulher amanhã?" Eu teria aceitado o convite com o maior prazer se, no dia seguinte, não tivesse o compromisso de trabalhar como figurante em Bollywood.
A Índia tem essas coisas. Se a gente vive experiências horríveis com homens nas ruas, vira e mexe conhece pessoas maravilhosas e acolhedoras. O Ivan foi uma delas. Ele tornou minha noite de Natal especial.
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Escrito por Marcella Centofanti
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