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28/01/2008 |
Dois dias entre camelos, turbantes e muita areia

Procuro fugir de pacotes turísticos, daqueles que incluem traslado, refeições e acomodações para um grupo de gente monitorado por um guia. Visito templos, monumentos, montanhas e tudo mais. Mas normalmente vou por minha conta. Se puder evitar táxi, melhor. Prefiro transporte público, mais interessante.
Abri exceções. Uma delas foi na Baía de Halong, no norte do Vietnã. Ao lado de aproximadamente 25 pessoas, passei dois dias num barco. O lugar é maravilhoso, com cerca de 1.600 ilhas – se quiserem ver melhor o visual, assistam o filme francês "Indochina". Mas a infinidade de embarcações, ancoradas uma ao lado da outra, ofusca a beleza da paisagem. Embora a Baía de Halong seja um dos pontos mais turísticos do Sudeste Asiático, não recomendo o passeio. Não naquele esquema.
A viagem de Lhasa, no Tibete, ao Monte Evereste também fez parte de um pacote. Aquele, entretanto, foi jóia. Por cinco dias, tínhamos carro, motorista e percurso que definimos. Pudemos escolher onde comer e dormir. Dispensamos o guia e viajamos em cinco pessoas. Nos conhecíamos previamente, o que facilitou o convívio. Nota 10, tirando a grosseria do motorista no último dia, como contei na época.
Voltei a integrar um grupo turístico em Jaisalmer, no Rajastão, a 70 quilômetros da fronteira com o Paquistão. O safári de camelos pelo deserto Thar é um clássico no estado. Participei de um tour de dois dias com quatro gringos e dois guias indianos. Eu tinha visto deserto uma vez, na Bolívia – duna não conta. Mas na Índia é diferente. Estamos falando de uma paisagem com camelos e pavões (nenhum deles abriu a cauda diante dos meus olhos. Uma pena. Teria sido um desbunde naquele cenário monocromático).

Fiquei particularmente enfeitiçada pelo visual do povo, superelegante. Os homens, todos de bigodão, enrolam um pedaço de pano branco de um jeito que vira calça. Embora o senhor da foto acima use paletó, a maioria veste uma túnica e, sobre ela, um xale de lã para cobrir os ombros. Nos pés, sapato bicudo e curvo, à la Aladim. Me apaixonei pelos enormes turbantes e aderi à moda, auxiliada por meu guia.

Já as mulheres circulam de saris e vestidos de cores fortes, cobertas com pesados adornos em ouro e prata no pescoço, pulsos, dedos, orelhas, nariz e tornozelos. Tudo de uma vez, bem exagerado. Muitas não se deixaram fotografar. Tenho a impressão que elas não curtiram o acessório na minha cabeça. Turbante, afinal, é coisa de homem.
As crianças, por outro lado, não só deixavam como pediam para posar. Elas ficam doidinhas diante de uma câmera fotográfica, sobretudo das digitais, onde podem conferir o clique instantaneamente. Nessa vila, umas vinte crianças correram na nossa direção quando os camelos se aproximavam.

Quando vi a garotinha linda da foto abaixo, achei que ela parecia cigana. Caiu minha ficha e lembrei que os ciganos aparentemente saíram dessas bandas.
Quanto ao camelo em si, foi uma experiência curiosa. Eu nunca tinha subido num animal mais alto que um cavalo. Ao cabo de dois dias, não estava acostumada com a altura e com aquele jogo para frente, para trás, para frente, para trás. Pernas, bunda, barriga e costas doeram por quase uma semana. Levou mais ou menos o mesmo tempo para esquecer o cheiro do bicho.
Certamente não se trata de um meio de transporte confortável. Como tampouco é dormir na areia, ao relento. No inverno. Estamos falando de uma madrugada de 6, 7 graus, com vento. O casal ao meu lado, ela inglesa, ele francês, não pregou o olho por causa do frio. Eu consegui dormir depois de cobrir com duas meias, duas calças, três blusas, dois xales, um saco de dormir (fechado comigo dentro) e um cobertor grosso.
Não estou resmungando. A falta de conforto faz parte do passeio. Amei cada segundo e quero repetir. Pacote turístico também pode ser bom. |
Escrito por Marcella Centofanti
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30/01/2008 |
Mais tempo na Ásia, menos na Europa
Se seguisse meu plano original, a essas alturas estaria na Itália. Deixei o Brasil, em março do ano passado, com vontade de dividir meu ano sabático entre dez meses na Ásia e dois na Europa. Mudei de idéia. Vou prorrogar a estada oriental e reservar dez dias para a Inglaterra, antes de voar de volta a São Paulo. Desta vez, não vou à Itália, meu lugar preferido no velho continente. Era lá que deveria passar a maior parte da temporada européia.
Eis alguns dos motivos que me levam a ficar mais tempo na Ásia:
* Me acostumei. Por mais que enfrente perrengues para me adaptar a certos costumes, gosto do estilo de vida;
* Tirando os indianos tarados (que são muitos), as pessoas são incríveis. Definitivamente mais acolhedoras que qualquer nacionalidade européia; * Faz um frio do caramba na Itália;
* É interessantíssimo testemunhar as rápidas transformações dos países, conseqüência do crescimento econômico. Positivas ou negativas, as mudanças geram um clima de dinamismo. Estou num continente em ebulição;
* Como estreante por essas bandas, tudo é novidade. A cada dia aprendo algo novo. A Europa não me instiga tanto;
* Praticidade. Para ir a Londres ou Paris, basta encarar uma noite num avião. Já a Ásia consome ao menos um dia de viagem e duas, três vezes o preço do bilhete aéreo;
Não tenho pressa de ir embora. Pelo contrário. Sofro ao olhar o calendário e perceber que a partida se aproxima. Sei que há leitores mais interessados na Europa. Sorry, fica para a próxima. Neste blog, vocês vão ter de agüentar um pouco mais de oriente. Tudo bem? |
Escrito por Marcella Centofanti
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30/01/2008 |
Procura-se casamento Edições dominicais dos jornais na Índia, como no Brasil, reservam cadernos inteiros para classificados. Existe, entretanto, uma diferença: em vez de veículos, imóveis e empregos, os indianos procuram um par. Numa viagem de trem, passei umas duas horas lendo dezoito páginas de anúncios matrimoniais no Hindustan Times, um dos maiores jornais do país. Um indiano com quem dividia a cabine ajudou a decifrar as abreviações e explicou como funcionam os classificados românticos.
Os cadernos são divididos por castas, religiões, profissões, estado civil e região. Há seções de médicos, viúvos/divorciados e indianos que vivem no exterior – muitas famílias que moram fora, como tantos imigrantes no Canadá, Estados Unidos e Inglaterra, buscam na Índia marido ou mulher para seus filhos. Surpreendentemente, existe categoria para portadores de HIV. Gays não têm espaço.
Confiram alguns dos meus anúncios favoritos: Procura-se marido para garota bonita e magra, Punjabi Saraswat Brahmin (casta), 3.3.81/ 6h15/ Delhi, 1.63 metro, trabalha numa instituição financeira.
Explica o indiano: Os dados do nascimento, com local e hora, são para que a outra família possa fazer o mapa astral da menina e descobrir se há compatibilidade com o candidato a noivo.
Muito bonita e alta família procura noivo para linda, esperta e caseira moça. Tem 28 anos, mas parece 24. Preferência para rapaz independente, em Delhi. Casta e região de procedência não importam. Urgente.
A-do-ro "28 anos, mas parece 24". Quanto ao pedido de urgência, segundo o indiano, pode ser que o pai esteja doente e queira casar a filha antes de morrer.
Moça de família Sikh procura marido com turbante, sem barba. Sem comentários... Bem estabelecida família Punjabi Khatri (casta) convida para aliança com sua filha magra, charmosa, graduada e vegetariana. 25 anos, 1.64 metro. Procura-se noivo altamente qualificado, estritamente de famílias comerciantes ou industriais. Casamento decente. Mande currículo com foto. No país onde a vaca é sagrada, é fundamental ser vegetariano. Marido para bonita, amável e dona de casa Sikh, nascida em 1981, graduada. Usa lentes de contato.
Muitas famílias não querem descendentes com defeitos visuais. Se a garota não tem olhos perfeitos, ponto negativo para ela.
Noivo bem estabelecido para moça extremamente bonita, charmosa e bem comportada. Divorciada inocente (casamento durou apenas um dia). 34 anos, 1.58 metro. Formada em artes, dona de casa.
Ser divorciado é terrível. A família tem de justificar.
Par compatível para bonito e esperto homem formado em Ciências. Teve um divórcio insignificante. Bem estabelecido nos Estados Unidos e no Canadá, possui uma companhia de software, um duplex e uma BMW. Procura garota bonita, de qualquer casta.
Jesus, quem se importa se o cara tem um duplex e uma BMW? Convite de aliança para homem magro, bonito, sofisticado, de boas maneiras e gostos refinados. 34 anos, mas parece muito jovem e nunca se casou. Formado em Ciência da Computação, ganha 60 000 dólares por ano. Viajou a Europa toda. Procura garota extremamente bonita, magra, esperta e bem falada. Casta não importa.
Eis o exemplo clássico. Na maioria dos anúncios, o candidato a noivo se vende como profissional bem estabelecido. Ele sempre procura garotas lindas e caseiras (eles amam o adjetivo).
Bonita parceira para altamente qualificado Brahmin (casta) comerciante, 36 anos, 1.67 metro. Financeiramente estável. Dote dispensável.
Olha! A maioria dos anúncios não menciona dote, o que significa que as famílias provavelmente contam com ele.
Qual é o preferido de vocês? O páreo é duro, mas fico com o "28 anos, mas parece 24". |
Escrito por Marcella Centofanti
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04/02/2008 |
Para relaxar, o sul da Tailândia é o que há
 Enquanto a maioria de vocês pula carnaval, me recolho num ashram (comunidade que vive de acordo com os ensinamentos filosóficos e/ou religiosos de um guru). Pelas próximas duas semanas, só quero saber de ioga e meditação. Mas não abandonarei os caros leitores que têm paciência de acompanhar minhas andanças. Durante a temporada no ashram, vocês vão ler sobre o Camboja e o sul da Tailândia, onde estive entre março e abril passados. Quando o blog entrou no ar, eu já havia deixado os dois lugares para trás. Eis, enfim, a oportunidade de contar o que rolou. Cheguei na Tailândia, minha primeira parada na Ásia, perdidinha da silva, sem saber para que lado ir, o que fazer e como me virar. Ainda havia insegurança sobre a recente mudança radical de vida. Eu não tinha assimilado a idéia de não ter casa, trabalho, companhia, rotina e destino por um ano. Minha reação foi me esconder no hotel em Bangcoc feito uma fugitiva da polícia e não deixar o quarto nem para comer. Levei um par de dias para começar a sair da toca e perambular pelas ruas da cidade. Ao cabo de cinco dias, finalmente decidi botar os pés na estrada. Parti sozinha para Koh Phangan, ilha ao sul do país famosa pelas baladas de música eletrônica. Eu imaginava que a combinação festa, sol e praia me ajudaria a relaxar e entrar no clima de viagem.  Por sugestão da amiga Erika Sallum, fui à Half Moon Party, versão mais civilizada e menor da internacionalmente famosa Full Moon Party, realizada a cada lua cheia, como o nome diz. A Half Moon é um evento relativamente pequeno, organizado e com uma mistura interessante de tailandeses e gringos. Recomendo. Já a Full Moon faz parte daquela categoria "não fui e não gostei". Não consigo imaginar uma aglomeração de 10.000 pessoas numa praia como algo divertido. Mas tem um monte de gente que ama e volta ano após ano. Enfim, para quem quer dicas de Koh Phangan (vira e mexe recebo e-mails e recados no Orkut a respeito), aparentemente a Black Moon Party é a melhor balada de todas. Quem garante é o Benjamin, amigo francês super descolado que mora em Koh Phangan. Depois de três dias, segui para Koh Tao, ilha conhecida pela infinidade de escolas de mergulho. Foi lá que tirei meu certificado e descobri que mergulhar é uma das dez coisas mais legais que fiz na vida - não perguntem quais são as outras nove. Falarei sobre mergulho no post seguinte.
Comparado com Koh Phangan, Koh Tao é bem mais calminha. Seus frequentadores, em geral, madrugam para explorar o fundo do mar. E aí não dá para varar a madrugada enchendo a lata. Definitivamente, sou mil vezes o clima e as praias de Koh Tao. Cruzei a Tailândia e segui para o mar de Andaman, onde o Tsunami fez estrago em 2004. Naquele pedaço, vi a praia mais linda de todas, Railay, em Krabi. Na orla, o excesso de comércio decepciona. Enquanto Koh Phangan e Koh Tao são destinos de moçada mochileira, Krabi está na rota de turismo de massa. De qualquer forma, a praia é tão, tão linda que vale a visita.
Mais popular é Koh Phi Phi, que caiu na boca do povo (inclusive na minha) por causa do filme "A Praia", baseado no livro homônimo de Alex Garland. Outra vez: lindo, mas lotado demais. A temporada no sul da Tailândia durou quinze dias e me deixou calminha, calminha. Está estressado? Fuja do carnaval, ponha uma roupa de banho na mala e corra para uma das ilhas tailandesas a-go-ra! |
Escrito por Marcella Centofanti
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06/02/2008 |
Sossego no fundo do mar  As deslumbrantes praias tailandesas (post anterior) me ajudaram a entrar no novo ritmo de vida. Mas foi no fundo do mar que relaxei para valer. Desde a adolescência, a idéia de mergulhar rondava meus pensamentos. Faltou dinheiro, tempo ou vontade para concretizar o plano no Brasil. Cheguei na Tailândia determinada a realizar o antigo desejo. Não havia mais desculpa. Koh Tao é uma ilha internacionalmente conhecida por suas escolas de mergulho. Tem uma do lado da outra. Gringos do mundo todo, sobretudo europeus, japoneses e coreanos, desembarcam ali para aprender o be-a-bá do esporte. O lugar é perfeito, com águas transparentes, calor o ano todo e rica fauna marinha. Abril, último mês antes das monções, é o melhor para explorar o fundo do mar. Por coincidência, eu estava lá no período. Nos primeiros dias, quando treinávamos as técnicas no rasinho, eu estava aflita. Receava não lembrar todos os detalhes quando a brincadeira começasse para valer. Equalizar os ouvidos, checar profundidade e nível de oxigênio, não se perder do parceiro e jamais, jamais prender a respiração. Ai, quanta coisa ao mesmo tempo!  Quando afundei no mar com um tanque de oxigênio nas costas pela primeira vez, a ansiedade gradativamente se diluiu. Entendi porque tanta gente se apaixona por mergulho, roda o mundo em busca dos animais mais raros e gasta uma fortuna para desfrutar minutos sob a água. Embora eu tenha lido, conversado e visto fotos, só compreendi o barato da atividade ao experimentá-la. Se eu esperava encontrar um outro planeta na Ásia, ele estava no fundo do Oceano Índico. Desculpem o clichê, mas é verdade que, ao mergulhar, todos os pensamentos e preocupações ficam no barco. Lá embaixo, a vida passa em câmera lenta. O único som é o da sua respiração (e de um ou outro motor de barco. Mas deixemos essa informação de lado). Ao seu redor, num paredão azul de 360 graus, peixes de tamanhos e cores diversos vão e vêm. Você apenas observa os animais, plantas e corais. Eu não sabia que a atividade era tão meditativa. Em êxtase com as maravilhas do mundo submarino, tirei um dia de descanso depois de terminar o curso. Alemães e suecos da escola me chamaram para mergulhar, mas eu preferi relaxar na praia. Maior burrada. No fim da tarde, os meninos voltaram com um sorriso de orelha a orelha. "Você não quis ir, veja o que perdeu", disse um sueco, enquanto mostrava o vídeo que havia feito. Não era possível. Eles viram um TUBARÃO-BALEIA! O maior peixe do mar, um monstro que chega a vinte metros de comprimento, nadou na frente dos caras.  Morta de arrependimento, parti na manhã seguinte rumo ao mar de Andaman, no outro lado da costa tailandesa. Por sugestão do Marcelo, paulistano que conheci em Koh Tao, segui para as ilhas Similan, consideradas melhor ponto de mergulho do país. Em dois dias a bordo do barco da foto, cai na água sete vezes, uma delas à noite - me incomodou só enxergar onde apontava a lanterna e não consegui curtir. A experiência nas ilhas Similan foi memorável. Ali, tinha tartaruga, polvo, arraia, moréia e cardumes de peixes de tudo quanto era cor. Mas o highlight foram as mantas (assim mesmo que fala em português?). Umas cinco ou seis desfilaram diante dos meus olhos. Vejam o tamanho do mergulhador perto de uma delas. Foi a redenção. Quase esqueci o episódio do tubarão-baleia.  PS: Desculpem a qualidade tosca das fotos. Fotografar no fundo do mar é difícil. Com câmera imprópria, mais ainda. Juro que a visual era lindo de morrer. PS2: Não ganho nada em troca, mas super recomendo a empresa com quem mergulhei nas ilhas Similan. O site é http://www.southsiamdivers.com |
Escrito por Marcella Centofanti
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08/02/2008 |
Paz na muvuca do ano-novo tailandês  Eu estava em Bangcoc durante o ano-novo tailandês, maior feriado do país, celebrado de 13 a 15 de abril. Durante os três dias, jovens tomaram as ruas da cidade para celebrar a data num modo particular. Munidos de baldes e armas de brinquedo, eles atiravam água em quem passasse pela frente. Manhã, tarde e noite, incessantemente. A farra também incluía sujar a cara com uma meleca que parece lama. Achei interessantíssimo. Entrei na dança e também joguei água para todo lado. Depois de seis, sete horas, porém, achei que já tinha brincado o suficiente. Queria tomar banho, colocar uma roupa seca e jantar num restaurante bacana com dois holandeses que havia conhecido em Koh Phi Phi, a ilha do filme "A Praia". Missão impossível. A roupa limpa não durou 60 segundos para fora da pousada. Como não dava para entrar em restaurante chique naquele estado, encharcados e imundos de lama, comemos num barzinho informal perto da Kao San Road, rua dos mochileiros em Bangcoc.  Ao cabo do segundo dia do feriado, eu não aguentava mais o ritual. Parece frescura (e talvez seja), mas imaginem o que é ficar o dia inteiro com nego virando balde de água -- às vezes, com cubos de gelo -- na tua cabeça. Eu não via a hora de picar a mula pro Camboja, o que aconteceria na manhã seguinte. Na última noite em Bangcoc, fui festejar a data numa das principais avenidas da capital. Não sei quanta gente havia, mas algo na casa das centenas de milhares. Muvuca para valer. Naquela multidão bizarra, o que mais me chamou atenção foi o comportamento das pessoas. Não vi o menor sinal de briga. Embora as ruas estivessem lotadas a ponto de não dar para colocar os pés no chão, ninguém parecia estressado. Mesmo para te empurrar a galera é delicada. Homem nenhum mexe com mulher ou tira proveito da situação para passar a mão onde não deve -- como aconteceu comigo em Delhi e em Mumbai, na Índia. No país da tolerância (menos no que diz respeito ao amado rei dos caras), até policiais participam da festa numa boa, em paz, com a cara coberta de lama.  Não me lembro de ter visto aglomeração no Brasil sem sinal de confusão, mínima que seja. Tomem o carnaval como exemplo. Dá para imaginar o circuito Barra-Ondina, em Salvador, sem briga, empurra-empurra e mão-boba? Na Tailândia, a utopia é possível. |
Escrito por Marcella Centofanti
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