11/02/2008
Cenas do trânsito



Motos rapidamente substituem bicicletas no sudeste asiático. Famílias inteiras, como esta, no Camboja, se espremem de uma vez no veículo



Em Mianmar, fora de Yangon e Mandaley, as duas maiores cidades, charrete ainda é um dos principais meios de transporte



Esta foto tirei no sul do Vietnã. No país, vi um sujeito levar na garupa uma vaca morta, deitada de barriga para cima. Um outro carregava dois porcos mortos, um de cada lado da moto



Cabe mais uma caixa aí? O cambojano, na simpatia habitual dos caras, adorou ser clicado
Escrito por Marcella Centofanti
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14/02/2008
No Sudeste Asiático, Angkor é parada obrigatória



A decisão de tirar um ano sabático foi relativamente repentina. Não houve grandes planejamentos e meu conhecimento sobre os países que visitaria era superficial. Quando cheguei na Ásia, um dos poucos lugares que fazia questão de conhecer era Angkor, no Camboja. Angkor está para o Sudeste Asiático como Machu Picchu para a América do Sul. Se você não reconhece o nome, já deve ao menos ter visto fotos do monumento. Uma de suas imagens clássicas é de árvores com raízes gigantes a cobrir ruínas.

Sede do Império Khmer do século IX ao XV, Angkor tem cerca de 1.000 templos. Estudiosos dizem que ela é maior cidade pré-industrial do mundo. Passear ali é de impressionar qualquer pessoa, interessada ou não por história. Quando você vier ao Sudeste Asiático, por favor,
inclua Angkor no seu roteiro. No complexo, pode-se comprar bilhete para um dia (20 dólares), três dias (40) ou uma semana (60). Fiquei três dias e só tive tempo de ver as maiores atrações da cidade, que tem 400 ou 1.000 quilômetros quadrados, dependendo da fonte consultada. Qualquer que seja o número verdadeiro, é coisa para caramba.



Super recomendo um tour de bicicleta. Aluguei uma magrela por um par de dólares e gastei um dia pedalando pelas ruas arborizadas, parando de templo em templo. É ótimo curtir a paisagem de sonhos com calma. O Chris (neo-zelandês sobre quem contarei no próximo post) e eu devemos ter passado metade do tempo conversando com a molecada encantadora, esperta e desinibida que vende souvenir. Corta o coração ver a criançada de 7, 8, 9 anos ralando o dia inteiro.

No fim do passeio de bike, paramos para ver o pôr-do-sol na beira de um lago, em frente ao Angkor Wat, monumento mais famoso. Uma família cambojana bem simples que mal falava inglês nos convidou para comer. Não sei dizer o que foi mais marcante, os templos ou o pique-nique. Talvez a soma dos dois.

Escrito por Marcella Centofanti
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15/02/2008
Com vocês, o Chris
Quando saí do Brasil, não pensava em me envolver com ninguém. A ressaca do relacionamento anterior me causava dores de cabeça. Mas certas coisas acontecem quando a gente menos espera, não é verdade? Não levou uma semana para alguém especial cruzar meu caminho. No meu quinto dia na Ásia, no sul da Tailândia, topei com aquele que seria meu "namorado" da viagem. Senhoras e senhores, com vocês o Chris, da Nova Zelândia.



Conheci o Chris na Half Moon Party, na ilha de Koh Phangan. Num papo de uma meia hora sem o menor rastro de paquera, descobrimos que pretendíamos ir para o Camboja na mesma época. Como estávamos ambos à procura de companhia, trocamos e-mails e prometemos manter contato. Nos correspondemos nas duas semanas seguintes e finalmente marcamos encontro em Bangcoc.

Eu estava apreensiva. Como iria viajar e até dividir quarto com um estranho? O Chris foi meu primeiro parceiro de viagem e eu ainda não estava tranquila com a idéia de me juntar a um fulano cujo nome completo eu mal sabia. Com o passar dos meses, perdi o receio e aprendi a acreditar na boa índole de gente que eu conhecia fazia cinco minutos, sem medo de passar o dia fora da pousada e deixar a mala aberta com passaporte, dólares e cartão de crédito.

Como viajante solitária, fica difícil viver sem baixar a guarda e confiar em estranhos. Simplesmente não dá tempo de medir a honestidade de ninguém. Vai de feeling. Nos últimos onze meses, dividi acomodação com cerca de trinta pessoas, sem contar outras dezenas nos albergues chineses. Não tive um contratempo sequer. Pelo contrário. Dessas companhias nasceram algumas das melhores amizades que fiz na Ásia.

Mas como o Chris foi o primeiro deles - e único que evoluiu para algo mais -, eu ainda achava esquisito. Ele tinha igualmente um pezinho atrás. Quando nos reencontramos num Starbucks, em Bangcoc, às vésperas do ano-novo tailandês, nos entrevistamos. Entre uma xícara de cappuccino e outra, ele me contou sobre si e sobre sua temporada de dois meses no Sudeste Asiático.

Naquele bate-papo, descobri uma das virtudes do Chris que mais aprecio, o senso de humor. Quando perguntei o nome das duas principais ilhas que formam a Nova Zelândia, por exemplo, ele respondeu, com ar de seriedade. "Presta atenção, porque é difícil", disse, enquanto apontava o mapa do país, desenhado na sua camiseta. "Essa de cima é a Ilha do Norte. A de baixo, Ilha do Sul."

Nosso santo bateu imediatamente. Deu para sentir que o Chris é uma dessas pessoas com quem nunca faltaria assunto. No Starbucks da Kao San Road começou nosso flerte. A partir desse momento, passaríamos manhã, tarde, noite e madrugada juntos, até a despedida, dezesseis dias depois. Com suas tiradas infames, uma atrás da outra, ele me fazia rir o tempo todo. Naquele clima de paquera, colados 24 horas por dia, era natural que a amizade rapidamente virasse romance.



Juntos, tomamos incontáveis litros de água na cabeça durante as celebrações do ano-novo tailandês, exploramos as ruínas de Angkor de bicicleta, testemunhamos a primeira tempestade da monção no ano e curtimos a noite de Phnom Penh, capital do Camboja. O Chris é o maior baladeiro da paróquia, extremamente sociável e não perde uma festa. Dei-lhe o apelido de "Rei de Noite", que ele adorou. Numa das baladas, tomei o maior porre de todos os tempos. O Rei da Noite me carregou para a pousada, me deu banho gelado e, gratidão eterna, limpou o vômito que espalhei pelo chão do quarto e pela cama. Ah, me deu remédio quando amanheci doente no dia seguinte.

Se as praias tailandesas me relaxaram, como contei em posts anteriores, foi com o Chris que aprendi a mochilar. Até viajar com ele, eu não sabia como em virar em situações elementares, de escolha de pousada a barganha com taxista. Embora eu não tenha percebido na época, hoje compreendo que o Chris me apresentou o universo dos viajantes de longo termo. Por seu intermédio, conheci a galera com quem viajaria pelos dois meses seguintes.

Nossos dias passaram voando. No décimo sexto, nos separamos quando ele seguiu para o Laos, e eu, para o Vietnã. Das inúmeras despedidas, essa foi a mais dolorosa. Não só pela conexão afetiva. Nas nossas últimas horas juntos, o Chris confessou que tem namorada, num relacionamento de seis anos. Fiquei pê da vida. Jamais poderia esperar que ele omitisse uma informação dessa magnitude. Discuti e disse que estava profundamente decepcionada. Ele jurou jamais esperar aquela reação e implorou perdão. Acreditei na sua sinceridade e, com o tempo, perdoei de verdade. Apesar do romance ter morrido no Camboja, restam carinho e amizade.

*


Eu podia imaginar as ilhas tailandesas, os arrozais vietnamitas e as óperas chinesas como cenário de um affair. O Camboja, porém, jamais. Não reclamo. Nada mal ter as ruínas de Angkor como pano de fundo do meu romance asiático de final infeliz.
Escrito por Marcella Centofanti
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19/02/2008
Não tem garfo e faca na mesa indiana



Perdi o apetite na primeira vez que vi uma pessoa comer com as mãos. O protagonista era o meigo motorista do táxi que me levou da fronteira do Tibete a Kathmandu, capital do Nepal. Como uma pessoa tão doce podia mergulhar os dedos num prato de arroz com lentilha, o que me parecia uma barbaridade extrema? Deixei minha porção de peixe frito num canto e voltei a sentar na mesa seis ou sete horas depois, num restaurante para turistas, com talheres.

Não adiantou tentar me esconder, porém. A partir daquele dia, a cena se repetiu incontáveis vezes. No Nepal e na Índia, mesmo em restaurante bacaninha, a maioria dos habitantes dispensa garfo, colher e faca. Notem que não me refiro a segurar uma batata frita ou um pedaço de pizza. Estou falando de arroz com feijão, espaguete ou iogurte. A Irene, canadense com quem eu viajava na época, contou que custou a se acostumar. Ela namorou um cara de origem indiana no Canadá e ficou chocada das primeiras festas de família. "Eles lambem as palmas das mãos, você não acredita", disse, enquanto imitava o gesto com a língua inteira para fora.

Levou dois meses para eu quebrar o preconceito e enfiar os dedos num prato de comida. Num almoço com o Piyush, amigo indiano que me ciceroneou na visita de cinco dias a Delhi, pedi para ele me ensinar a técnica. Na ocasião, fiz um vídeo que mostra o passo a passo, mas não consigo colocá-lo no ar por causa da conexão capenga da cidade onde estou, no sul da Índia. Sorry.

Vou explicar em palavras, então. Primeiro, você mistura o arroz com os vegetais (lembrem-se que estou num país majoritariamente vegetariano). Invariavelmente, haverá um caldo de lentilha, vegetais ao molho curry e salada. Com a ponta dos dedos, separe um montinho que caiba na boca. Forme uma concha com o mindinho, o anelar e o dedo médio. Mergulhe a mão na comida e use o polegar para empurrar o conteúdo para dentro da boca. Regra importantíssima da etiqueta (não só da Índia, como dos demais países asiáticos) é utilizar somente a mão direita nas refeições. A esquerda, tradicionalmente, é destinada para a higiene pessoal.

Desde o almoço com o Piyush, minha mão serviu de talher dezenas de vezes – a experiência mais bizarra foi encarar um miojo, no deserto de Thar, no Rajastão. Ainda não aprendi a técnica com desenvoltura. Caldo escorre pelo pulso, grãos de arroz se perdem entre os dedos e legumes caem na roupa.

O tema causa grande polêmica entre viajantes estrangeiros. A maioria apenas encara se não tiver outro jeito. A Laura, amiga americana que posou para a foto deste post (espero que entre no ar), achava que estava à vontade com a brincadeira. Numa refeição, porém, ao observar centenas de pessoas ao seu redor com as mãos sujas, teve ânsia. Já o Mike, amigo inglês, diz que dispensar o garfo é como transar de roupa. O prazer não é 100%.

Foi minha mãe quem deu uma explicação para o hábito indiano. Sem saber que eu tinha esse post na cabeça, por e-mail ela me mandou o seguinte texto, que leu não sei onde: "dizem os mestres indianos que a comida é para ser contemplada (bonita aos olhos), cheirada (agradável ao olfato), ouvida (come-se com a boca aberta), saboreada e sentida (come-se com as mãos)". Interessante, não?





Essa história me remeteu a um episódio que vivi em Pequim, na China, em setembro. Num restaurante em que degustava o famoso e delicioso pato de Pequim, uma família comemorava o aniversário de duas crianças. A molecada estava radiante de felicidade ao espalhar chantili pela cara – imagino que qualquer criança do planeta adoraria fazer o mesmo. Entrei na festa e duplinha lambuzou meu rosto com a cobertura também. Os pais, eu e os demais adultos presentes estávamos admirados com a alegria dos dois. Impossível não ser contagiado.

Busquei nos arquivos da memória algum evento semelhante na minha infância. Nada encontrei. Meus pais eram conservadores nesse sentido. Lembro direitinho que até para batata frita meus irmãos e eu tínhamos de usar garfo e faca. Enfiar o indicador num bolo? Espalhar chantili na cara, então? Fora de cogitação, de jeito nenhum, nem pensar.

Meu pensamento voou um pouco mais longe. Refleti que, se um dia tiver filhos, talvez não seja tão radical. Ponderei que não haveria mal algum permitir a extravagância de vez em quanto. Em casa. Sem visitas. Mas, pensando bem, será que uma criança vai querer pegar num garfo depois de comer macarrão sem talher? Porque, cá entre nos, comer com as mãos é legal para caramba.
Escrito por Marcella Centofanti
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21/02/2008
Duas semanas de ioga e relax



Eu tinha feito uma ou outra aula de ioga, dessas de academia, antes de vir para a Índia, berço da prática. Sabia bem pouco sobre o assunto, mas estava interessada em aprender mais. Na reta final do meu périplo asiático, decidi passar duas semanas num ashram focado na atividade. Por sugestão de duas pessoas, escolhi um lugar em Kerala, estado no sul da Índia. O Sivananda Yoga Vedanta Centers, me disseram, está entre as maiores redes internacionais de ioga. Ele tem centros espalhados por treze países, inclusive Uruguai e Argentina, mas não Brasil, que eu saiba.

Não imaginava o que estava por vir quando meu táxi estacionou em frente ao ashram, numa tarde em que o termômetro ultrapassava os 30 graus e o sol brilhava forte. O primeiro objeto da minha atenção foi a multidão de estrangeiros, mais de 200, reunidos num salão sem portas, aberto nas laterais. Vestidos com calças brancas e camisetas amarelas, eles tocavam instrumentos de percussão e cantavam canções cujas letras eu não entendia. Eu pegava aqui e ali um "Ganesha" ou "Vishnu", nomes de deuses hindus. "Cuma? Estou num centro de ioga ou num templo religioso?", pensei.

Durante o curso, eu aprenderia que ioga não se restringe a uma série de exercícios de acrobacia e elasticidade. Ela é um estilo de vida, da qual rezar faz parte. O tema é complexo e seria arriscado me aprofundar numa seara sobre a qual tenho domínio zero, mas vou reproduzir os cinco passos que levam à paz interior, de acordo com os ensinamentos do Swami Vishnu-Devananda, discípulo do guru Swami Sivananda, que dá nome ao Centro:

1) Exercício adequado
2) Respiração adequada
3) Dieta adequada
4) Relaxamento adequado
5) Pensamento positivo e meditação

Os cinco princípios eram cultivados no apertado cronograma do ashram. Nosso dia começava às 5h30, com exercícios de respiração e meditação, e terminava às 21h30, com rezas. Fazíamos trabalho voluntário (o meu era esvaziar seis lixeiras. Bico) e, quatro horas por dia, nos dedicávamos às posturas.



Impressionante como um ashram que funciona principalmente à base de trabalho voluntário consegue deixas as instalações um brinco e manter mais de 300 alunos na linha. É verdade que muita gente não suporta a rotina religiosa e pica a mula em dois tempos. A maioria do povo chega em busca de atividade física, e não de rezas em sânscrito às 6h da manhã. Das mais de 100 pessoas que começaram meu curso - havia outro em andamento, de formação de professores -, catorze ficaram até o último dia. Fui uma delas.

Um dos pontos que me incomodava era a ausência de indianos. Gringos formavam pelo menos 90% do público. Segundo uma professora nativa, no país, ioga é vista como coisa de criança e mulher idosa. Recentemente, porque a modalidade se popularizou nos Estados Unidos e na Europa e conquistou celebridades (Madonnas da vida), jovens de grandes centros urbanos como Mumbai, Delhi e Bangalore começaram a se interessar.

Antes do curso, eu sabia pouquíssimo sobre os diferentes estilos de ioga. Descobri que o do Sivananda se chama Hatha. No ashram, havia praticantes de Ashtanga, Kundalini, Iyengar etc. Em conversas com alunos, notei que vários defendiam a técnica escolhida com unhas e dentes. Nenhuma outra prestava. Um inglês adepto de Iyengar dizia que era um absurdo a gente fazer exercícios de respiração sem ter ao menos um ano de experiência. Uma eslovaca da turma da Ashtanga achava o modelo do Sivananda lento demais. Ela gostava de suar. Já minha colega de quarto, americana, era "hathense" roxa. "Todas as outras escolas são cópias fajutas da Hatha. Pode colocar no seu blog que eu falei isso", cutucou.



Humm... será que existe uma técnica correta? Tenho minhas dúvidas. Acredito em estilos adequados para diferentes corpos e personalidades. Neste momento, tenho bastante vontade de praticar uma versão calminha, com poucas posturas e foco na respiração. Nem sei qual seria o nome dessa ioga. Se alguém tiver um bom professor para indicar em São Paulo, a sugestão é mais que bem-vinda ;-)
Escrito por Marcella Centofanti
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22/02/2008
Na rota dos gurus
Estou sempre atenta ao perfil dos turistas nos países que visito. No geral, dá para dividir a galera numas três ou quatro tribos principais. A Índia tem uma particularidade em relação aos vizinhos asiáticos. Em nenhum outro lugar conheci tanta gente em busca de experiências espirituais. Nos ashrams, onde essa turma se reúne, os papos giram sempre naquela linha "energia-reiki-tantra-mantra-chacra-orgânico-karma-meditação-paz-mundial".

Embora não seja meu objetivo primordial, também voei para a Ásia com essa motivação. Minha peregrinação começou em dois mosteiros budistas, na Tailândia, passou pelo Osho, no Nepal, e chegou à ioga do Sivananda (último post). A parada derradeira foi no ashram da Amma, também conhecida como Mãe. Famosa por seu abraço de poderes milagrosos, Amma, 54 anos, é uma das maiores gurus indianas da atualidade, ao lado de Sathya Sai Baba e Sri Sri Ravi Shankar (não, não estou falando do músico).

Assim que cheguei ao ashram da Amma, fiquei de queixo caído com o tamanho. Ele é praticamente uma cidade, onde vivem de 2.500 a 4.000 pessoas - 400 deles de outros países, segundo uma residente americana. Lá dentro tem universidade, hospital e correio.

Na recepção especial para visitantes estrangeiros, fui informada por um moço sotaque americano que estava com sorte. Amma partiria no dia seguinte para uma excursão de dois meses pelo norte da Índia. Dentro de meia hora, ela encontraria seus fiéis pela última vez, antes da viagem. Recém-chegados teriam prioridade no acesso à líder espiritual. Não havia tempo a perder. Era fazer o check-in, deixar a mochila no quarto e correr pro abraço.

O salão principal, onde Amma recebia o público, estava tomado. Havia no mínimo umas 1.000 pessoas acomodadas em cadeiras de plástico, com os olhos fixos na guru, sentada no palco. A sessão dos abraços deve ter sido anunciada em malayalam, língua do estado de Kerala, quando a galera saiu correndo em direção ao palco, no estilo liquidação da Harrods.

Enquanto esperava a multidão se acalmar, notei que a reação do povo diante do contato com a mulher ia de indiferença a crise histérica. Em uma hora, Amma deve ter dado sua benção a pelo menos 500 pessoas, sem demonstrar o menor sinal de impaciência ou cansaço. Entrei na fila e, enquanto aguardava a vez, tentei não criar expectativa. Uns 20 minutos depois, quando havia só duas pessoas na minha frente, um dos assistentes perguntou minha língua materna. Cordialmente, ele me conduziu à guru e anunciou: "Portuguese".

Cara a cara com ela, abri um sorriso, que ela retribuiu, me olhando nos olhos. Seu abraço não é apertado nem folgado, mas acolhedor, cheio de afeto. De mãe, mesmo. Ao me tomar com os dois braços, sussurrou palavras incompreensíveis no meu ouvido direito. A abracei de volta e adorei sentir seu perfume floral e sua carne macia de mulher gordinha. Naquela noite, alguém me disse que o público em teoria não deve abraçá-la. Ruim a Amma não achou, porque me deu um segundo abraço na sequência, o que ela não faz toda hora.

Saí pisando nas nuvens, numa espécie de torpor, efeito que durou intensamente algumas horas e permaneceu em menor escala nos dias seguintes. Minha porção jornalista me faz ficar com um pé atrás diante de fenômenos sem explicação científica. Não sei se foi o poder da Amma ou minha mente que produziu uma sensação tão prazerosa. Mas que diferença faz se o resultado foi incrível? Por via das dúvidas, se cruzar com a guru no futuro, não penso duas vezes e encaro a fila outra vez.

*


Sinto pela falta de imagens. Não é permitido tirar fotos no ashram :-(
Escrito por Marcella Centofanti
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A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.
 
 
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