27/02/2008
Sorry, periferia, estou nas Maldivas



Prestes a completar a etapa asiática, decidi realizar meu grande último desejo nesta viagem: espiar o fundo do mar mais uma vez. Como contei recentemente, aprendi a mergulhar na Tailândia, logo que cheguei na Ásia. Já faz quase um ano e eu queria porque queria cair na água de novo. Comecei a estudar um destino, em busca da melhor visibilidade e vida marinha possível. Cogitava Sri Lanka ou Ilhas Andaman, arquipélago indiano, quando uma instrutora de mergulho turca sugeriu as Maldivas.

Na minha ignorância geográfica, eu não sabia que as Maldivas ficam a apenas uma hora de vôo do sul da Índia. Destino turístico de luxo, o país é uma facada no bolso, o oposto do meu estilo hotel de 5 dólares e comida de 1 dólar. Mas não quis nem saber. Passei o cartão de crédito sem fazer muita conversão na cabeça e tratei de logo esquecer o valor.

Eu era a única branca no avião de Trivandrum, no estado de Kerala, a Malé, capital das Maldivas. Quase todos os turistas desembarcam em vôos fretados e pouquíssimos vêm da Índia. Minha procedência chamou a atenção dos funcionários da imigração. Os caras me interrogaram mais que o normal. As roupas hippies, a mochila nas costas e, principalmente, o fato de eu estar sozinha aumentaram as suspeitas.



Liberada pelos oficiais, encontrei um senhor à minha espera no aeroporto com uma placa na mão. Sob meu nome, havia uma foto colorida do barco para onde seria conduzida na sequência. Nas Maldivas, ou você se hospeda em resorts chiques ou em embarcações bacanas. Não tem muito meio termo. Como minha prioridade era mergulho, escolhi a segunda opção. Eu tinha cabine com ar-condicionado e era tratada com mil mordomias, de toalhas felpudas a garçom.

Embora a capacidade do Sharifa seja de dezoito pessoas, éramos em onze, dos quais cinco casais alemães e eu. Os passageiros tinham mais de 40 anos, eram bem calminhos e pouco falavam inglês. Perfeito. Após minhas semanas nos dois ashrams, tudo que eu queria era sossego e silêncio. Só conversei um pouquinho com a tripulação das Maldivas, Índia, Bangladesh e Sri Lanka. No Sharifa, havia mais funcionários que hóspedes.

Nossa principal atividade era, lógico, mergulho, que fazíamos vezes três por dia (contarei no próximo post). Nos intervalos, eu lia, escrevia e contemplava a paisagem de sonhos. A ioga e a meditação eu praticava durante o pôr-do-sol, com esta vista aqui:



Amo a Índia, mas não sou de ferro. Depois de três meses, precisava de férias da muvuca, do barulho, da poluição e da infra-estrutura precária. Deus abençoe as Maldivas.
Escrito por Marcella Centofanti
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28/02/2008
Um pouquinho mais de Oceano Índico



Sonho de tudo quanto é mergulhador, as Maldivas recebem cerca de 500.000 visitantes por ano. Tive a sorte de ser um deles em 2008. Durante uma semana fiz dezesseis mergulhos. A temporada de dezembro a abril, sem chuva, é considerada a melhor para explorar o fundo do mar. Para falar a verdade, a visibilidade não estava tão incrível. Era, em média, de 15 metros. Nas ilhas Similan, na Tailândia, em abril passado, tínhamos 30 metros. Mas tudo bem. A vida marinha que encontrei nas Maldivas era ainda mais impressionante.



Estava ansiosa no primeiro mergulho. Nem sabia mais como vestir o equipamento. Minutos depois de cair na água, quando ainda tentava lembrar as regras básicas e coordenar o movimento estabanado, vi um tubarão de 1,5 metro. O primeiro tubarão a gente esquece. O bicho deu as caras uns segundos e logo sumiu, num tiro. Fiquei excitada e com uma pontinha de medo. Daí para frente, me acostumaria. Encontrei mais de vinte deles, inclusive dois tubarões-baleia. Yes! Perdi o maior peixe dos mares na Tailândia, mas fiquei frente a frente com ele nas Maldivas. Parece pequeno na foto, né? A criança tem mais de 5 metros. O outro tinha uns 8 metros.



Vi uma dúzia de moréias de variedades diversas e uma dúzia de tartarugas. Contei oito arraias, inclusive uma jamanta de 3 metros. Tinha peixe de tudo quanto era espécie, cor e tamanho. Meu preferido é este escorpião, que se camufla e tem cara de gente. Sensacional.



Houve vários highlights, mas candidato ao topo da lista está o dia em que nadei com duas famílias de golfinhos, cada uma de uns vinte membros. No fundo do mar, vi o vulto deles, sem saber direito do que se tratava. Quando retornamos à superfície, pulei na água com snorkel e segui os dois grupos. O quanto pude, porque o bicho é ligeiro demais.



Das criaturas mais famosas das Maldivas não vi o tubarão Grey Reef, que está desaparecendo, vítima da pesca. Tampouco tive a felicidade de cruzar com o tubarão-martelo. Em sua busca, caí no mar um dia antes do amanhecer, mas ele não apareceu. Li no Wikipédia que o martelo é o tubarão mais ameaçado de extinção.

As fotos deste post são do alemão Udo Kracht. O Udo mergulha há 29 anos e nunca viu uma arraia-jamanta. No dia que cruzei com uma delas, o Udo vinha um pouco atrás e, quando chegou, o animal já tinha sumido. Ele também foi para as Ilhas Similan em abril passado, mas nenhuma arraia-jamanta deu as caras. Agradeço ao Udo pelas fotos e desejo que uma arraia-jamanta gigantesca apareça na frente dele no seu próximo mergulho.

Escrito por Marcella Centofanti
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29/02/2008
Lua-de-mel comigo mesma

Tem coisa que a gente só acredita quando vê. Mar azul-Photoshop é uma delas. Sempre pensei que aqueles anúncios de viagem com fotos do Caribe, Polinésia Francesa e Maldivas eram invenção de designer gráfico. Afinal, não dá para conceber mar com cor de piscina. Mas agora sei que águas turquesas existem no mundo real, sim. Minhas fotos são tiradas com câmera amadora e não têm retoque nenhum.



Fiquei enfeitiçada por esta ilha e, no penúltimo dia, troquei um mergulho por uma tarde ali. Estava sozinha, sem uma alma por perto. Gastei horas observando os bichinhos que se escondem em qualquer conchinha.



Tomei banho no mar de temperatura jamais inferior a 28 graus. Para mostrar a transparência das águas, tirei uma foto dos meus pés.



Quando estava na minha ilha deserta lembrei que quase todo mundo me desaconselhou a ir para as Maldivas sozinha. "Só vai ter casal e você vai se sentir péssima", era o comentário comum. É verdade que a maioria dos turistas são casais e que o arquipélago tem cenário extremamente romântico. Mas e daí? Se você está em paz e quer curtir uma temporada só, uma lua-de-mel com você mesmo numa praia paradisíaca pode ser boa pedida.

Escrito por Marcella Centofanti
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03/03/2008
Decepção com a medicina ayurvédica

De volta à Índia, após uma semana de rainha nas Maldivas, decidi usar meus últimos dias para me tratar numa clínica ayurvédica, medicina tradicional do país. Kerala, estado onde estou, é o berço da ciência. Por estas bandas, existem dezenas de hospitais e resorts voltados para a clientela estrangeira. Escolhi o Nagarjuna porque o Yuri, amigo canadense, tinha ouvido ótimos comentários a respeito. Eu passaria uma semana ali, numa rotina de meditação, ioga, massagem, dieta adequada e tratamentos como o shirodhara, que pinga cinco litros de óleo na testa do paciente num intervalo de 25 minutos.

Teria sido lindo e maravilhoso se o hospital não ficasse a 13 quilômetros de um aeroporto internacional, na linha da pista de pouso. De madrugada, o primeiro avião passou às 2h30. Acordei com o coração disparado, sem saber o que acontecia. Parecia que o monstro voava a dez metros da minha cabeça. O Yuri contou doze aeronaves até as 8h da manhã. Consegui dormir umas duas horas, enquanto o coitado não pregou o olho. Qual é o propósito de se submeter a um tratamento médico sem repousar? Fizemos as malas e partimos na manhã seguinte.

Seguimos para Varkala, cidade praiana onde há uma clínica ao lado da outra, mas não encontramos o que esperávamos. Os centros que não cobravam preços exorbitantes (120 reais por uma massagem no pé), pareciam picaretas. Dois indianos que se diziam médicos me receitaram cinco sessões de massagem e cinco de shirodhara, antes de fazer uma única pergunta sobre minha saúde. Uma outra fulana fez uma consulta melhorzinha, mas que constatou o óbvio. Quando perguntei se havia alguma recomendação de dieta, ela disse: "Você tem de comer arroz no almoço. No jantar pode ser pão e, no café-da-manhã, cereais. Mas no almoço, tem de ser arroz". Francamente... Um quarto médico afirmou que minha alimentação deve se restringir a legumes cozidos, algumas frutas e arroz. Sal, temperos, cebola, alho, carne, álcool, açúcar e óleos são completamente proibidos. Jesus, quem merece essa vida?

Foi uma pena eu não ter sido feliz nas escolhas. O lance é que na Índia tem muito pilantra tirando proveito dos gringos que vêm atrás de tudo que carrega a aura "alternativa". É preciso peneirar bem. Há episódios clássicos de pretensos gurus que levam jovens estrangeiras para a cama e massagistas que massageiam onde não devem. Enquanto eu ria dos médicos de quinta categoria, um israelense me contou sobre um astrólogo charlatão de Varanasi que o mandou tomar suco de maçã todo café-da-manhã, para prevenir doenças. A recomendação para o futuro profissional do viajante foi a seguinte: "Abre uma lojinha de... colar!", disse o cara, enquanto apontava o acessório de sementes que o menino exibia no pescoço.

Uma das lições que aprendi nesta viagem é não dar murro em ponto de faca. Sou persistente e vou atrás do que quero, mas até certo limite. Se não está rolando, procuro outro caminho. Depois de me consultar com cinco profissionais e não sentir confiança em nenhum, desisti. Há médicos ayurvédicos competentes mundo afora, oxalá algum no Brasil. Se alguém conhecer um bom, please, faça propaganda dele aqui.
Escrito por Marcella Centofanti
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05/03/2008
Adeus, Ásia

Na minha última viagem na Índia, esperei o trem numa área reservada para mulheres. Na sala, havia sete pessoas, das quais uma senhora que cochilava deitada numa mesa, uma moça que lia um livro e cinco adolescentes que tiveram siricutico ao me ver. Eu nem tinha tirado a mochila das costas quando as meninas, entre risadinhas e cochichos, sinalizaram para eu me aproximar. Sentei no meio delas e comecei a conversar. Eufóricas como se estivessem diante da estrela de Bollywood, elas me cobriram de perguntas:

- Por que você tem tanta pinta no braço?

- Você não gosta de acessórios dourados?

- No que você trabalha?

- Como assim você não é casada aos 29 anos?

- Cadê sua família?

As estudantes de 17 e 18 anos ouviram com curiosidade as histórias da viagem e viram as centenas de fotos armazenadas na memória da minha câmera digital. Ficaram particularmente fascinadas com os palácios de Udaipur, as montanhas do Himalaia e o Taj Mahal. Não deram bola para o mar azul-Photoshop das Maldivas, porém.



Elas quiseram tirar fotos ao meu lado e indagaram de onde eram minhas roupas (blusa do Camboja e saia da Tailândia). "You are very handsome", disse a de túnica amarela e lenço vermelho. "Beautiful", corrigiu a segunda da direita para a esquerda. No calor de 33 graus, desfiz o rabo-de-cavalo e elas elogiaram. Indiana gosta de cabelo solto. "Está muito quente", comentei. A de blusa vermelha e lenço estampado, líder da turma e dona do melhor inglês, me fez uma trança.

"Canta uma música?", pediram. "Uma música?! Ai, sou desafinada...", me esquivei. "Só um pouquinho, por favor!", imploraram. Não tinha como negar um pedido tão singelo. Cantei a primeira canção que me veio à cabeça, um trecho do "Samba da Bênção", de Vinicius de Moraes. "É melhor ser alegre que ser triste/ Alegria é a melhor coisa que existe..." As cinco sorriram, entusiasmadas. Na vez delas, a de lenço cor-de-rosa, mais tímida da trupe, soltou a voz feito profissional. Lindo.

Uma meia hora depois, quando o trem se aproximava da plataforma, a de laranja, no canto direito, me disse: "I love you very much". Paralisada com a inocência da frase, fiquei segundos em silêncio. É claro que há uma barreira linguística e a garota provavelmente desconhece o contexto adequado das palavras. De qualquer forma, ela quis expressar seu afeto e o fez da melhor maneira que encontrou.

Não me lembro de ter conhecido jovens tão doces na Europa ou na América. Embora não conviva muito com crianças, pelo que eu saiba pré-adolescentes no Brasil têm mais malícia que essas garotas. A Ásia, não só a Índia, conserva um ar de ingenuidade. Num certo ponto, até a China endureceu sem perder a ternura. Me lembro de caminhar pelas ruas de Pequim de mãos dadas com a Fay, amiga chinesa de quem mooorro de saudade.



Inocência foi uma das primeiras características que notei nos asiáticos, ainda na Tailândia. Durante meses, dividi com estrangeiros comentários a respeito, às vezes em tom de chacota. Devagarzinho, no entanto, aprendi a respeitar esse traço tão marcante do continente. Hoje, posso dizer que delicadeza é uma das principais lições que aprendi na Ásia. Na estação de trem, a adolescente indiana era a personificação dessa palavra. Com sinceridade, olhei nos olhos dela e respondi: "I love you too".
Escrito por Marcella Centofanti
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10/03/2008
De volta ao ocidente



Depois de onze meses e cinco dias na Ásia, regressei ao mundo ocidental. Estava em Londres, na Inglaterra, onde passei poucos dias antes de voltar ao Brasil. Minha cabeça ainda sofre com o choque cultural. São várias coisas: clima, comida, etiqueta, vestuário, língua, moeda (maldita libra; saudade da baratinha rupia indiana), ritmo de vida etc. Acima de tudo, o que me impressionou foi o astral das pessoas.

Na minha viagem derradeira na Índia, enfrentei uma multidão pior que do carnaval de Salvador. Havia um festival religioso na cidade para onde eu me dirigia e o trem estava abarrotado. O vagão ficou tão cheio que não havia espaço para meus pés no chão. Comecei a levitar, pisando em sacolas e nos pés de outras pessoas. Se lá fora o termômetro marcava uns 33 graus, dentro devia beirar os 40. Consegui puxar minha câmera e fazer umas fotos da muvuca.



Sabem o que foi mais impressionante? Apesar das condições adversas, ninguém perdeu o bom humor, deu um grito ou um empurrão. As pessoas ainda adoraram que tirei fotos. Minha câmera passou de mão em mão pro povo conferir os cliques. Agora, por que no metrô de Londres, sem aperto, barulho e calor, o povo tem de ficar com a cara amarrada?
Escrito por Marcella Centofanti
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A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.
 
 
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