13/03/2008
Cheguei ao Brasil
Exatamente um ano depois de partir, voltei para o Brasil. Desembarquei no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, essa semana. Ao acordar na casa da minha mãe, no primeiro dia, nem sabia onde estava. Por um momento, me senti em Delhi, na Índia.

A verdade é que eu estava assustada com o retorno. Nesse ano sabático, não tive um único dia igual ao outro. Passei por dez países e rodei mais de 28.000 quilômetros por terra, entre trechos de ônibus, trem, carro e a pé. Sabem o que é isso? A distância do Alasca, nos Estados Unidos, a Ushuaia, na Argentina – extremidades do continente americano –, é de 17.848 quilômetros. Se eu somar os trechos que voei na Ásia, é como se eu tivesse percorrido a América de ponta a ponta duas vezes.

Depois de um ano tão intenso, como poderia me acostumar à monotonia da rotina? Não parei para pensar sobre isso durante a viagem. Minha ficha só começou a cair quando o comandante da British Airways anunciou que iríamos iniciar os procedimentos de pouso. Não tinha mais jeito. Era o fim do meu ano sabático.



Nem deu tempo de me lamentar. Fiquei feliz logo que pisei para fora da aeronave e senti a brisa quente e úmida do verão. Tirei todos os casacos e agradeci aos céus por estar longe do inverno europeu – e das tempestades que inundaram a Inglaterra.

O clima é um dos aspectos que mais gosto do nosso país. Outro é o povo. Como é bom estar fazer parte de uma gente informal e quente. Nas minhas andanças pelo mundo, jamais encontrei pessoas tão amigáveis quanto as brasileiras. No aeroporto, meu primeiro contato foi com o agente da Polícia Federal. Todo mundo já tinha passado e ele teve de vir especialmente para checar meu passaporte.Quando pedi desculpas pelo atraso, ele respondeu:

- Relaxa, cê tá em casa.

A expressão nunca coube tão bem. O moço nem imagina como suas palavras aqueceram meu coração desorientado.

Querem saber? É bom demais estar de volta.
Escrito por Marcella Centofanti
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14/03/2008
Café em Notting Hill

Cheguei a mil por hora. Mal revi os amigos e familiares e já peguei no batente. A convite da Maria Rita Alonso, editora-chefe de Criativa, vou tocar a edição especial de noivas, que a revista publica em maio. Foi ótimo aterrissar no Brasil e logo fincar os dois pés no chão. Conheço uma porção de gente na Editora Globo e tem sido um prazer imenso rever tantos rostinhos conhecidos.

Enquanto mergulho no universo dos véus e buquês, contarei no blog o que rolou na Inglaterra. Tenho histórias apetitosas, de um casamento na Universidade de Oxford ao reencontro com o Chris, o neozelandês que foi meu “namorado” no Camboja.

Hoje, vou falar da tarde que passei com o David, o escocês de 77 anos que virou meu amigo em Udaipur, na Índia. Além da casa histórica na Índia – post de 23 de janeiro –, o David tem um charmosíssimo apartamento em Londres, no bairro de Notting Hill (é, aquele do filme da Julia Roberts e do Hugh Grant).



Bati perna por Notting Hill na primeira vez que fui a Londres, em 2006. Morri de curiosidade de entrar numa daquelas casas. De fora, elas eram puro glamour. Como seriam por dentro?

Matei a vontade desta vez. Numa ensolarada e gelada (a-do-ro essa combinação climática) tarde de sábado, fiz uma visita ao meu amigo. Ele estava elegante, como sempre, com uma camisa branca bem cortada e calça marrom de veludo cotelê. Logo que entrei, ele comentou, sobre o tamanho da sala:

- Não falei que não dava para pegar um gato pelo rabo e girar no ar?



A recepção foi cinematográfica. Com a lareira acesa, o living estava quentinho e aconchegante – me livrei do casacão, das luvas e do cachecol. Da caixa de som saía Somewhere Over the Rainbow. Encantada com o bom gosto da decoração, saquei a Xeretinha e cliquei cada canto. “Meu Deus, até da xícara de café ela tira foto...”, brincou o David.



A sala é pititica mesmo, mas, com o truque dos espelhos, não fica sufocante.



As viagens do David estão impressas nos detalhes da decoração, como na coleção de elefantes indianos...



...e no altar com imagens católicas, budistas e hinduístas.



Dois anos atrás, no meu passeio turistão pelas ruas de Notting Hill, nem na melhor das fotografias eu poderia imaginar uma tarde tão gostosa dentro de um daqueles apartamentos.
Escrito por Marcella Centofanti
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18/03/2008
A primeira roubada da viagem




Meu cartão de crédito sumiu em Londres. Perdi ou furtaram, acho que no metrô. Quando percebi, um dia depois, liguei para o banco imediatamente. Descobri que tinham usado meu cartão doze vezes, na rede de supermercados Tesco. O atendente da Unicard me informou que a primeira compra foi de 9,96 dólares. A segunda, de 200 dólares. A terceira, de 400 e não-sei-quantos dólares.

Nem quis ouvir o resto. Fiquei louca da vida. Segui instruções do banco e passei um fax no mesmo dia, dizendo que não reconhecia aquelas compras. Me disseram, que, se ficar constatado que realmente não fui eu, o valor será estornado.

Liguei hoje no banco, para saber como andava esta história, e descobri que o protocolo não foi aberto. Tive de fazer toda a burocracia outra vez. Deus, dai-me paciência...

Em mais de onze meses na Ásia, nada aconteceu comigo. Um amigo canadense esqueceu a carteira com passaporte, 400 dólares em cash e cartão de crédito no cinema, em Mumbai, Índia. Quando voltou para buscar, sua carteira estava guardadinha, com tudo dentro. Era comum ouvir casos assim na viagem. Histórias de furto e roubo foram raríssimas.

Meu raciocínio é simplista, mas tem alguma coisa errada nas sociedades ocidentais, não?
Escrito por Marcella Centofanti
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20/03/2008
De molho na Páscoa
Meus amigos de Londres e de São Paulo comentaram que cheguei bem calminha do sabático. E é verdade. Antes de ir, eu era acelerada. Agora, falo menos e mais baixo. Tenho mais auto-controle e não reajo tanto. Aprendi também a caminhar mais devagar.

Mal voltei e já notei as primeiras mudanças. Esses dias, percebi que estava quase andando em ritmo de marcha atlética outra vez. “Opa!”, pensei. “Tenho de me controlar para não ligar no 220.” Botei na cabeça que precisava deixar de andar rápido.

Pois bem. Quarta-feira à noite, ao chegar em casa após o evento de lançamento de Época São Paulo (onde tive uma conversa agradabilíssima com os blogueiros Alexandre Inagaki, amigo dos tempos de faculdade, Edney Souza e Tiago Dória, dei uma topada no sofá. A sala estava escura e eu não enxerguei o bendito. A dor foi tão violenta que o vizinho de cinco andares para cima deve ter escutado meu grito.

Ao acordar ontem com o dedo inchado e roxo, liguei para a ortopedista Tatiana Batalha, amiga desde a adolescência, em Mogi das Cruzes. A Tati pediu um raio-x, que diagnosticou o que eu temia: fratura. Quebrei a falange do terceiro dedo do pé esquerdo.

Agora, querendo ou não, terei de caminhar bem devagarzinho durante um mês. Vocês acham coincidência? Eu não.
Escrito por Marcella Centofanti
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21/03/2008
Na mesa do chef-celebridade
Já ouviram falar do Jamie Oliver? O cara, que publica livros e tem programa de TV, é o chef-celebridade do momento na Inglaterra – quiçá no mundo. Numa comparação paulistana, ele é tipo uma mistura de Alex Atala com Olivier Anquier. Em escala muito maior, é claro. O britânico tem dois restaurantes na Inglaterra, mais um na Holanda e outro na Austrália.



Numa típica manhã cinzenta em Londres, fui ao Fifteen, nome do restaurante, tomar café-da-manhã. Eu temia que o ambiente fosse metido a besta, como tantas vezes acontece em casas de cozinheiros estrelados. Que nada. O lugar é chique e descontraído ao mesmo tempo, a começar pela decoração.



Meu amigo Rodrigo Brancatelli e eu bebemos cappuccinos e comemos croissants, ovos, cogumelos e musli (foto abaixo). Os pratos, frescos e deliciosos, tinham uma caprichada apresentação. Ao me ver clicar cada iguaria, o Brancatelli brincou:

- É isso que dá. Come pasto durante um ano e agora tira foto até de cereal.



A companhia do meu amigão, aliás, deu um toque especial à visita ao Fifteen. O Branca, como o chamamos, estava em Londres por coincidência, durante suas merecidas férias do Estadão.








Escrito por Marcella Centofanti
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26/03/2008
E não é que a Unicard resolveu?
Na semana passada, para quem não leu o post, contei que meu MasterCard sumiu em Londres. Foi furtado ou eu perdi, não sei. Quando percebi, no dia seguinte, já tinham feito doze compras em meu nome. A Unicard ficou de investigar o caso e dar uma resposta hoje.


Os caras resolveram e não terei de pagar a conta. Belezinha, não?


Eu estava apreensiva. Várias pessoas me contaram histórias da mãe, da tia e do vizinho que tiveram a maior dor cabeça em casos semelhantes.


Como a gente tem mania de só escrever para reclamar, tive vontade de postar sobre a boa notícia :-)
Escrito por Marcella Centofanti
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A jornalista Marcella Centofanti deixou um emprego de seis anos e resolveu tirar um ano para viajar (dez meses na Ásia e dois meses na Europa). Aqui ela conta suas experiências na estrada.
 
 
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